1. deleuze e guattari - o que é a filosofia (gilles deleuze e félix guattari)
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1. deleuze e guattari - o que é a filosofia (gilles deleuze e félix guattari)


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filosófico. Ela faz 
da ciência o conceito por excelência, que se exprime na proposição científica (o primeiro prospecto). Ela 
substitui o conceito filosófico por um conceito lógico, que se exprime nas proposições de fato (segundo 
prospecto). Ela deixa ao conceito filosófico uma parte reduzida ou degenerada, que ela se reserva no domínio 
da opinião (terceiro prospecto), servindo-se de sua amizade por uma sabedoria superior ou uma ciência 
rigorosa. Mas o conceito não tem seu lugar em nenhum destes três sistemas discursivos. O conceito não é 
uma função do vivido, nem uma função científica ou lógica. A irredutibilidade dos conceitos às funções só se 
descobre se, ao invés de confrontá-las de maneira indeterminada, se compara o que constitui a referência de 
umas e o que faz a consistência das outras. Os estados de coisas, os objetos ou corpos, os estados vividos 
formam as referências de função, ao passo que os acontecimentos são a consistência de conceito. São esses 
termos que é preciso considerar do ponto de vista de uma redução possível.
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 EXEMPLO XII
 Uma tal comparação parece corresponder à empresa de Badiou, particularmente interessante no 
pensamento contemporâneo. Ele se propõe a escalonar, sobre uma linha ascendente, uma série de fatores 
que vão das funções aos conceitos. Ele se dá uma base, neutralizada com relação aos conceitos, tanto 
quanto às funções: uma multiplicidade qualquer, apresentada como Conjunto elevável ao infinito. A primeira 
instância é a situação, quando o conjunto é remetido a elementos que são sem dúvida multiplicidades, mas 
que são submetidos a um regime do "contar por um" (corpos ou objetos, unidades da situação). Em segundo 
lugar, os estados de situação são os subconjuntos, sempre em excesso sobre os elementos do conjunto ou 
os objetos da situação; mas este excesso do estado não se deixa mais hierarquizar como em Cantor, ele é 
"indeterminável", numa "linha de errância", conforme ao desenvolvimento da teoria dos conjuntos. Resta que 
ele deve ser representado na situação, desta vez como "indiscernível" ao mesmo tempo que a situação se 
torna quase completa: a linha de errância forma aqui quatro figuras, quatro laços como funções genéricas 
(científica, artística, política ou dóxica, amorosa ou vivida), às quais correspondem produções de "verdades". 
Mas atinge-se, talvez, então uma conversão de imanência da situação, conversão do excesso ao vazio que 
vai reintrodu-zir o transcendente: é o sítio acontecimental, que se mantém à borda do vazio na situação, e 
não comporta mais unidades, mas singularidades, como elementos que dependem das funções precedentes. 
Enfim, o acontecimento, ele mesmo, aparece (ou desaparece), menos como uma singularidade que como um 
ponto aleatório sepa-
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rado, que se acrescenta ou se subtrai ao sítio, na transcendência do vazio ou A verdade como vazio, sem que 
se possa decidir sobre a pertença do acontecimento à situação na qual se encontra seu sítio (o indecidível). 
Talvez, em contrapartida, haja uma intervenção como um lance de dados sobre o sítio, que qualifica o 
acontecimento e o faz entrar na situação, uma potência de "fazer" o acontecimento. É que o acontecimento é 
o conceito, ou a filosofia como conceito, que se distingue das quatro funções precedentes, embora receba 
delas condições, e lhes imponha por sua vez \u2014 que a arte seja fundamentalmente "poema", e a ciência, 
conjuntista, que o amor seja o inconsciente de Lacan, e que a política escape à opinião-doxa(11).
 Falando de uma base neutralizada, o conjunto, que marca uma multiplicidade qualquer, Badiou traça 
uma linha, única embora muito complexa, sobre a qual as funções e o conceito vão escalonar-se, este sobre 
aquelas: a filosofia parece pois flutuar numa transcendência vazia, conceito incondicionado que encontra nas 
funções a totalidade de suas condições genéricas (ciência, poesia, política e amor). Não é, sob a aparência 
do múltiplo, o retorno a uma velha concepção da filosofia superior? Parece-nos que a teoria das 
multiplicidades não suporta a hipótese de uma multiplicidade qualquer (mesmo as matemáticas estão fartas 
do conjuntismo). As multiplicidades: é preciso pelo menos duas, dois tipos desde o início. Não que o dualismo 
valha mais que a unidade; mas a multiplicidade é precisamente o que se passa entre os dois. Assim, os dois 
tipos não esta-
(11) Alain Badiou, Uêtre et 1'événement, e Manifeste pour Ia philoso-pbie, Ed. du Seuil. A teoria de Badiou é 
muito complexa; tememos ter-lhe feito sofrer simplificações excessivas.
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rão certamente um acima do outro, mas um ao lado do outro, um contra o outro, face a face ou costas contra 
costas. As funções e os conceitos, os estados de coisas atuais e os acontecimentos virtuais são dois tipos de 
multiplicidades que não se distribuem numa linha de errância mas se reportam a dois vetores que se cruzam, 
um segundo o qual os estados de coisas atualizam os acontecimentos, o outro segundo o qual os 
acontecimentos absorvem (ou antes adsorvem) os estados de coisas.
 Os estados de coisas saem do caos virtual, sob condições constituídas pelo limite (referência): são 
atualidades, embora não sejam ainda corpos nem mesmo coisas, unidades ou conjuntos. São massas de 
variáveis independentes, partículas-trajetórias ou signos-velocidades. São misturas. Essas variáveis 
determinam singularidades na medida em que entram em coordenadas e são tomadas em relações segundo 
as quais uma dentre elas depende de um grande número de outras, ou inversamente muitas dentre elas 
dependem de uma. A um tal estado de coisas, encontra-se associado um potencial ou uma potência (a 
importância da fórmula leibniziana mv2 vem de que ela introduz um potencial no estado de coisas). É que o 
estado de coisas atualiza uma virtualidade caótica, carregando consigo um espaço que, sem dúvida, deixou 
de ser virtual, mas mostra ainda sua origem e serve de correlato propriamente indispensável ao estado. Por 
exemplo, na atualidade do núcleo atômico, o núcleon está ainda próximo do caos e se encontra cercado por 
uma nuvem de partículas virtuais constantemente emitidas e reabsorvidas; mas, num nível mais avançado da 
atualização, o elétron está em relação com um fóton potencial que interage com o núcleon, para dar um novo 
estado da matéria nuclear. Não se pode separar um estado de coisas do potencial através do qual ele opera, 
e sem o qual não haveria ativida-
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de ou evolução (por exemplo, catalise). É através desse potencial que ele pode enfrentar acidentes, 
adjunções, ablações ou mesmo projeções, como já se vê nas figuras geométricas; ou, então, perder e ganhar 
variáveis, estender singularidades até a vizinhança de novas; ou seguir bifurcações que o transformam; ou 
passar por um espaço de fases cujo número de dimensões aumenta com as variáveis suplementares; ou, 
sobretudo, individuar corpos no campo que ele forma com o potencial. Nenhuma destas operações se faz por 
si mesma, todas elas constituem "problemas". O privilégio do ser vivo é reproduzir de dentro o potencial 
associado, no qual atualiza seu estado e individualiza seu corpo. Mas, em qualquer domínio, a passagem de 
um estado de coisas ao corpo, por intermédio de um potencial ou de uma potência, ou antes a divisão dos 
corpos individuados no estado de coisas subsistente, representa um momento essencial. Passa-se aqui da 
mistura à interação. E, enfim, as interações dos corpos condicionam uma sensibilidade, uma proto-
perceptibilidade e uma proto-afetividade, que se exprimem já nos observadores parciais, ligados ao estado de 
coisas, embora só completem sua atualização no ser vivo. O que se chama "percepção" não é mais um 
estado de coisas, mas um estado do corpo enquanto induzido por um outro corpo, e "afecção" é a passagem 
deste estado a um outro,