1. deleuze e guattari - o que é a filosofia (gilles deleuze e félix guattari)
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1. deleuze e guattari - o que é a filosofia (gilles deleuze e félix guattari)


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se remontamos a linha na direção contrária, se vamos dos estados de coisas ao virtual, não se 
trata da mesma linha, porque não é o mesmo virtual (podemos, pois, também descê-la, sem que ela se 
confunda com a precedente). O virtual não mais é a virtualidade caótica, mas a virtualidade tornada 
consistente, entidade que se forma sobre um plano de imanência que corta o caos. É o que se chama o 
Acontecimento, ou a parte do que escapa à sua própria atualização
(14) A ciência não sente somente a necessidade de ordenar o caos, mas de vê-lo, de tocá-lo, de fazê-lo: cf. 
James Gleick, La théorie du chãos, Ed. Albin Michel. Gilles Châtelet mostra como a matemática e a física 
tentam reter algo de uma esfera do virtual: Les enjeux du mobile, a sair.
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tempo, é devir. O entre-tempo, o acontecimento, é sempre um tempo morto, lá onde nada se passa, uma 
espera infinita que já passou infinitamente, espera e reserva. Este tempo morto não sucede ao que acontece, 
coexiste com o instante ou o tempo do acidente, mas como a imensidade do tempo vazio, em que o vemos 
ainda por vir e já chegado, na estranha indiferença de uma intuição intelectual. Todos os entre-tempos se 
superpõem, enquanto que os tempos se sucedem. Em cada acontecimento, há muitos componentes 
heterogêneos, sempre simultâneos, já que são cada um um entre-tempo, todos no entre-tempo que os faz 
comunicar por zonas de indiscernibilidade, de indecidibilidade: são variações, modulações, intermezzi, 
singularidades de uma nova ordem infinita. Cada componente de acontecimento se atualiza ou se efetua num 
instante, e o acontecimento, no tempo que passa entre estes instantes; mas nada se passa na virtualidade, 
que só tem entre-tempos como componentes, e um acontecimento como devir composto. Nada se passa aí, 
mas tudo se torna, de tal maneira que o acontecimento tem o privilégio de recomeçar quando o tempo 
passou(17). Nada se passa, e todavia tudo muda, porque o devir não pára de repassar por seus 
componentes e de conduzir o acontecimento que se atualiza alhures, a um outro momento. Quando o tempo 
passa e leva o instante, há sempre um entre-tempo para trazer o acontecimento. É um conceito que apreende 
o acontecimento, seu devir, suas variações inseparáveis, ao passo que uma função apreende um estado de 
coisas, um tempo e variáveis, com suas relações segundo o tempo. O conceito tem uma potência de 
repetição, que se distingue da potência discursiva da função.
(17) Sobre o entre-tempo, conferir a um artigo muito intenso de Groethuysen, "De quelques aspects du 
temps", Recberches philosophiques, V, 1935-1936: "Todo acontecimento está, por assim dizer, no tempo em 
que nada se passa...". Toda a obra romanesca de Lernet-Holonia se passa em entre-tempos.
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 Em sua produção e sua reprodução, o conceito tem a realidade de um virtual, de um incorporai, de um 
impassível, contrariamente às funções de estado atual, às funções de corpo e de vivido. Erigir um conceito 
não é a mesma coisa que traçar uma função, embora haja movimento dos dois lados, embora haja 
transformações e criações num caso como no outro: os dois tipos de multiplicidades se entrecruzam.
 Sem dúvida, o acontecimento não é feito somente de variações inseparáveis, ele mesmo é inseparável 
do estado de coisas, dos corpos e do vivido nos quais se atualiza ou se efetua. Mas diremos o inverso 
também: o estado de coisas também não é separável do acontecimento, que transborda contudo sua 
atualização por toda parte. É preciso ascender de novo até o acontecimento, que dá sua consistência virtual 
ao conceito, bem como descer até o estado de coisas atual que dá suas referências à função. De tudo o que 
um sujeito pode viver, do corpo que lhe pertence, dos corpos e objetos que se distinguem do seu, e do estado 
de coisas ou do campo físico-matemático que os determinam, ergue-se um vapor que não se assemelha a 
eles, e que investe o campo de batalha, a batalha e o ferimento, como componentes ou variações de um 
acontecimento puro, onde subsiste somente uma alusão ao que diz respeito aos nossos estados. A filosofia 
como gigantesca alusão. Atualizamos ou efetuamos o acontecimento todas as vezes que o investimos, de 
bom ou mau grado, num estado de coisas, mas o contra-efetuamos, cada vez que o abstraímos dos estados 
de coisas, para liberar seu conceito. Há como que uma dignidade do acontecimento, que foi sempre 
inseparável da filosofia como "amor fati": igualar-se ao acontecimento, ou tornar-se o filho de seus próprios 
acontecimentos \u2014 "meu ferimento existia antes de mim, nasci para encarná-lo"(18). Nasci para encarná-lo
(18) Joe Bousquet, Les Capitules, Le Cercle du livre, p. 103.
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como acontecimento, porque soube desencarná-lo como estado de coisas ou situação vivida. Não há ética 
diferente daquela do amor fati da filosofia. A filosofia é sempre entre-tempo. Aquele que contra-efetua o 
acontecimento, Mallarmé o chama de o Mímico, porque ele esquiva o estado de coisas e "se limita a uma 
alusão perpétua, sem quebrar o gelo"(19). Um mímico como este não reproduz o estado de coisas, como 
também não imita o vivido, não dá uma imagem, mas constrói um conceito. Ele não procura a função do que 
acontece, mas extrai o acontecimento ou a parte do que não se deixa atualizar, a realidade do conceito. Não 
querer o que acontece, com esta falsa vontade que se queixa e se defende, e se perde em mímica, mas levar 
a queixa e o furor ao ponto em que eles se voltam contra o que acontece, para erigir o acontecimento, 
depurá-lo, extraí-lo no conceito vivo. A filosofia não tem outro objetivo além de tornar-se digna do 
acontecimento, e aquele que contra-efetua o acontecimento é precisamente o personagem conceituai. 
Mímico é um nome ambíguo. Ele é, o personagem conceituai que opera o movimento infinito. Querer a guerra 
contra as guerras por vir e passadas, a agonia contra todas as mortes, e o ferimento contra todas as 
cicatrizes, em nome do devir e não do eterno: é neste sentido somente que o conceito reúne.
 Descemos dos virtuais aos estados de coisas atuais, subimos dos estados de coisas aos virtuais, sem 
podermos isolá-los uns dos outros. Mas não é a mesma linha que subimos e que descemos assim: a 
atualização e a contra-efetuação não são dois segmentos da mesma linha, mas linhas diferentes. Se nos 
ativermos às funções científicas de estados de coisas, diremos que elas não se deixam isolar de um virtual 
que atualizam; este virtual se apresenta de início como uma névoa ou uma neblina, ou mesmo como um 
caos, uma virtualidade
(19) Mallarmé, "Mimique", Oeuvres, La Pléiade, p. 310.
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caótica, mais do que como a realidade de um acontecimento ordenado no conceito. É por isso que a filosofia 
freqüentemente parece, para a ciência, recobrir um simples caos, que faz com que esta diga: você só tem 
escolha entre o caos e eu, a ciência. A linha de atualidade traça um plano de referência que recorta o caos: 
retira dele estados de coisas que, certamente, atualizam também em suas coordenadas os acontecimentos 
virtuais, mas só retêm, dele, potenciais já em vias de atualização, fazendo parte das funções. Inversamente, 
se consideramos os conceitos filosóficos de acontecimentos, sua virtualidade remete ao caos, mas sobre um 
plano de imanência que o recobre por sua vez, e só dele extrai a consistência ou realidade do virtual. Quanto 
aos estados de coisas densos demais, são sem dúvida adsorvidos, contra-efetuados pelo acontecimento, 
mas a eles só encontramos alusões sobre o plano de imanência e no acontecimento. As duas linhas são pois 
inseparáveis, mas independentes, cada uma completa em si mesma: como os invólucros dos dois planos tão 
diversos. A filosofia só pode falar da ciência por alusão, e a ciência