411-Manual_de_Economia
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da
Agricultura sobre os demais setores. Na verdade, poder-se-ia perfeitamente bem imaginar um setor
sobre o qual não incidisse qualquer demanda intermediária, de forma que virtualmente todo o valor de
sua produção fosse objeto da demanda de consumo das famílias (este é o caso típico da indústria e
dos serviços de entretenimento). Mas este setor pode apresentar uma grande demanda intermediária
sobre os demais (como ocorre com a produção cinematográfica). O que importa, entretanto, é que a
soma do Valor Agregado da Economia \u2013 que é igual à Renda das Famílias \u2013 tem que ser igual à
Demanda das Famílias; da mesma forma que a soma do Consumo Intermediário realizado pelo
conjunto dos setores, tem que ser igual à soma do Consumo Intermediário incidente sobre os setores.
E a soma da Renda das Famílias (ou da Demanda das mesmas, que tem o mesmo valor) com o
Consumo Intermediário será, por definição, igual ao Valor da Produção. O que significa dizer que
o Produto da Economia \u2013 por definição, igual ao Valor da Produção menos o Consumo
Intermediário \u2013 é igual à Renda das Famílias e à Demanda das mesmas.
Por fim, cabem duas últimas considerações. A primeira é que a demanda por bens finais \u2013 a
demanda das famílias \u2013 não é sinônimo de demanda de consumo. Afinal, as famílias podem estar
investindo. Elas fazem isto normalmente, quando demandam e adquirem imóveis. E o fazem também
80 De fato, é a demanda que define o valor da produção. Isto é assim tanto nos setores de preços flexíveis, como a
Agricultura, seja em setores de preços rígidos, como a Indústria e os Serviços. No caso da Agricultura, a igualdade se impõe
porque, se a quantidade produzida exceder a quantidade demandada, os preços caem e, com ele, o valor da produção. No caso
da Indústria e dos Serviços os preços não apresentam a mesma flexibilidade, mas o ajuste se dá no mesmo sentido, da demanda
para a oferta. E isto na medida em que o processo de produção nestes setores pode ser interrompido a qualquer momento, de
forma que, quando a demanda cai, a produção diminui para se adequar àquela. Pequenas discrepâncias podem ocorrer (em
particular no setor industrial), mas elas se resolvem pela ampliação dos estoques internos às firmas o que, contabilmente, é
registrado como uma demanda da firma sobre si mesma. Voltaremos a tratar destes pontos mais adiante, seja nos capítulos
sobre formação de Preços (na seção dedicada à Microeconomia), seja nos capítulos sobre determinação da Renda Agregada (na
seção dedicada à Macroeconomia).
80
quando, enquanto proprietários das firmas (sejam elas familiares, como no nosso exemplo, ou firmas
capitalistas), compram máquinas para a substituição das depreciadas ou para a ampliação da
capacidade produtiva. Assim, a demanda das famílias se divide, na verdade, em duas partes: demanda
de consumo e demanda de investimento. E como o Produto é igual à Renda que é igual à Demanda,
temos que o Produto da Economia é igual ao somatório do Consumo e do Investimento. Em termos
formais,
PIB = Y = C + I (1)
Onde Y é a notação usual para a renda das famílias, C é a notação para a demanda de
consumo e I a notação para a demanda de investimento. Vale observar ainda que a equação acima
não expressa rigorosamente uma igualdade, mas uma identidade contábil. Ou seja, ela não representa
uma situação de equilíbrio - da qual a economia poderia eventualmente se apartar - mas uma situação
na qual qualquer economia mercantil se encontra sempre e necessariamente81. E isto pela razão já
exposta: o valor da produção é igual ao valor das vendas (mais a variação dos estoques dos produtores).
E o valor das vendas é necessariamente igual à demanda total (consumo intermediário mais demanda
final). Se se subtrai do valor das vendas o valor do consumo intermediário, tem-se o valor agregado,
que é igual ao produto da Economia.
Mas, se é assim, cabe perguntar qual a utilidade da distinção categorial entre renda, produto
e demanda final. E a resposta é que, para além destas serem dimensões hierarquicamente distintas de
uma mesma e única realidade (é a demanda que estimula a produção, que, por sua vez, viabiliza a
apropriação de rendas), estas distinções se mostram mais expressivas quando os modelos analíticos
se tornam mais complexos. Em particular, como se verá mais adiante, com a introdução do governo,
o produto continuará sendo igual à renda, mas não será mais igual à renda disponível, pois a tributação
subtrai uma parcela da renda global aos cidadãos. Da mesma forma, com a introdução das relações
internacionais, o produto interno vai se diferenciar da renda nacional, pois nem tudo o que é produzido
no país é apropriado por cidadãos do país.
Em segundo lugar, cabe fazer um comentário sobre o valor (100 u.m.) que aparece na
intersecção entre a linha \u201cRenda das Famílias\u201d e a coluna \u201cDemanda das Famílias\u201d no Quadro 2,
acima. Trata-se, aí, da remuneração dos serviços prestados às famílias (empregados domésticos). O
interessante desta categoria de rendimento é que ela só é computada na medida em que existe um
81 Evidentemente, as relações contábeis se tornam mais complexas quando se abre mão das hipóteses simplificadoras adotadas
acima e se avança no sentido de uma economia propriamente capitalista, onde as categorias de rendimento são mais complexas
(com a emergência de categorias como salários, juros, aluguéis, lucro líquido, etc.) e existem outros agentes econômicos (como
o governo e os demandantes externos). Incorporaremos estes elementos na seção destinada à Macroeconomia.
81
desembolso financeiro. Vale dizer: se em nossa economia hipotética todas as atividades domésticas
fossem realizadas pelos membros da família, não haveria qualquer desembolso e, por conseqüência,
o sistema de contas nacionais não reconheceria esta atividade como geradora de produto e renda82.
Mas, se ela é realizada por terceiros que recebem uma remuneração monetária pela mesma, então ela
tem que ser computada como um serviço e, como tal, como geradora de um produto e de uma renda
específica. Por mais que isto seja estranho \u2013 e, de fato, é! \u2013 esta é a regra de contabilização consagrada.
O que nos faz ver, mais uma vez, o quanto o sistema de Contabilidade Social é uma fonte rica, mas
questionável de avaliação de produção efetiva e de bem-estar econômico.
3.4 UMA AVALIAÇÃO DE INDICADORES SELECIONADOS DE ATIVIDADE E BEM-ESTAR ECONÔMICOS
Como anunciamos na primeira seção deste capítulo, selecionamos \u2013 para além do PIB e da
Renda Agregada \u2013 outros seis Indicadores de Atividade e Bem-Estar Econômicos para fazer uma
breve apresentação de sua estrutura e avaliar sua pertinência e consistência interna. Malgrado já
havermos abordado as principais limitações das categorias irmãs PIB / Renda enquanto indicadores
de atividade, iniciaremos pela crítica das mesmas enquanto indicadores de Bem-Estar, para tratar, na
seqüência, das categorias: 1) PIB / Renda per capita; 2) Taxas de crescimento do PIB / Renda; 3)
Taxas de Emprego e Desemprego; 4) Variação da Taxa de Desemprego; 5) Índice de Desenvolvimento
Humano.
3.4.1. PIB e Renda
Estas categorias são utilizadas por vezes como medidas da capacidade produtiva de uma
nação e, por extensão, como indicadores da riqueza e do Bem-Estar de sua população. É isto que
ocorre \u2013 ainda que subliminarmente \u2013 quando se valoriza o ranking de um país em termos do seu
PIB e se diz, por exemplo, que o Brasil é (ou deixou de ser) a oitava economia do mundo. Desde
logo, o que não se leva em conta neste ranqueamento é o tamanho do país e de sua população.
Assim, o fato do Brasil apresentar um PIB superior ao da Suíça ou da Finlândia não significa mais do
que o fato do Brasil ser um país muito maior do que estes dois. Além disso \u2013 e este ponto é ainda mais
grave e complexo \u2013 estes ranqueamentos são feitos a partir da conversão do valor do PIB (contabilizado,
originalmente em moeda nacional) para um padrão internacional qualquer