411-Manual_de_Economia
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pois não há como determinar de forma rigorosamente
objetiva o número destes \u201cdesempregados\u201d. Ao contrário do desemprego aberto, que é avaliado a
84 Vale observar que as taxas supra-referidas são, usualmente, apresentadas em termos percentuais. Omitimos o sinal de
percentagem nas equações acima por conveniência expositiva. O leitor deve notar que o símbolo \u201c%\u201d significa \u201cdividido por
cem\u201d (ou \u201cpor cento\u201d). Desta forma, 60% = 0,6 assim como 5% = 0,05, e etc.
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partir da busca efetivamente realizada pelos trabalhadores por uma colocação no mercado de trabalho,
as demais formas de desemprego são calculadas a partir de declarações dos trabalhadores potenciais.
3.4.5 Variação da Taxa de Desemprego
Em função das ambigüidades das medidas de desemprego, a variação da taxa de desemprego
nem sempre é uma boa medida de melhora ou piora das condições de vida dos trabalhadores. Um
exemplo poderá ajudar na compreensão deste ponto.
Suponhamos uma População em Idade Ativa (PIA) de 100.000 pessoas85, e uma PEA de
70.000, com 7.000 desempregados. Neste caso a taxa de desemprego seria de 10%, afinal:
Taxa de Desemprego 1 = Desempregados / PEA = 7.000 / 7.0000 = 10%
Imaginemos, agora, que o governo adota algumas políticas de apoio ao emprego e à renda,
abrindo frentes de trabalho (que oferecem 5000 novos postos de trabalho) e um salário desemprego
para todos aqueles que demonstrarem haver procurado emprego nos últimos 30 dias sem alcançar
obtê-lo.
Suponhamos, ainda, que com os novos 5.000 postos de trabalho oferecidos pelo governo
o número de desempregados caia imediatamente para 2.000. Mais: imaginemos que, na seqüência, o
consumo dos novos trabalhadores assalariados estimule a criação de mais 2000 postos de trabalho,
prontamente ocupados por aqueles que ainda se encontravam desempregados na situação original.
Será que se pode deduzir daí que o desemprego cessou?
Não necessariamente. Na verdade, a política governamental de estímulo ao emprego e à
geração/distribuição de renda muito provavelmente estimulará uma elevação da busca por postos de
trabalho. E isto não apenas porque novas oportunidades de ocupação foram disponibilizadas,
estimulando o retorno ao mercado de trabalho daqueles desempregados que não apareciam nas
estatísticas oficiais em função do desalento. A política de salário desemprego estimula a busca de
emprego inclusive da parte daqueles que sabem que não encontrarão postos disponíveis, mas que
85 A PIA \u2013 População em Idade Ativa - é mais uma dentre as inúmeras categorias econômicas passíveis de polêmica. E isto na
medida em que ela depende do que se considera socialmente como a idade adequada de ingresso e saída do mercado de trabalho.
Em alguns países, considera-se que a idade ativa tem início aos 10 anos de idade; em outros, aos 14; em outros, aos 16, ou
mesmo aos 18. Da mesma forma, não há um limite consensuado para o encerramento da idade ativa. Com o aumento da
longevidade e da qualidade de vida dos idosos, a idade ativa (pelo menos no plano potencial) vem se tornando mais larga. Não
obstante, é fácil perceber que esta é primordialmente uma categoria social e cultural, e apenas secundariamente uma categoria
biológica. O que importa entender aqui é que nem todos os cidadãos em idade ativa fazem parte da PEA. Alguns, por opção
(porque estão estudando, por exemplo; ou simplesmente porque vivem de rendas), não fazem parte da PEA, seja como
ocupados, seja como desempregados.
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vêem na transferência governamental uma alternativa de apropriação de renda. De forma que se
poderia imaginar um crescimento expressivo da PEA \u2013 de, por exemplo, 70.000 para 85.000 pessoas.
Neste caso, a nova taxa de desemprego seria:
Taxa de Desemprego 2 = 15.000 / 85.000 = 17,65%
Evidentemente, este exemplo é meramente ilustrativo. Mas ele é menos irrealista do que se
poderia pensar. Ao longo dos anos 1990, por exemplo, a Taxa de Desemprego espanhola era uma das
maiores do mundo, atingindo quase 20% da PEA. Esta taxa \u2013 muito superior à Taxa de Desemprego
apresentada pelo mesmo país na década anterior \u2013 não expressava outra coisa do que o acelerado
crescimento do país \u2013 que estimulava a busca de emprego por parte daqueles que, antes, não o buscavam
por desalento e pela inserção informal \u2013 e as novas políticas sociais de apoio aos desempregados.
3.4.6 Índice de Desenvolvimento Humano
Na tentativa de enfrentar as ambigüidades das medidas tradicionais de atividade e bem-
estar econômicos, diversas instituições voltadas à análise e acompanhamento dos processos de
desenvolvimento buscaram constituir índices alternativos aos da Contabilidade Social. Dentre estes,
salienta-se o Índice de Desenvolvimento Humano, criado pelo Programa das Nações Unidas para o
Desenvolvimento (PNUD). Este índice é uma composição de três indicadores básicos: a) renda
monetária disponível média da população86; b) expectativa de vida ou longevidade média; e c) número
médio de anos de estudo.
Desde logo é preciso reconhecer a importância de um tal índice; assim como de índices
similares que buscam resgatar outras variáveis para além do produto e do emprego na avaliação da
qualidade de vida. Não obstante, também é preciso um olhar crítico sobre este índice, bem como
sobre as alternativas ao mesmo, baseadas em metodologias similares. E isto, antes de mais nada,
porque os indicadores que lhes servem de base são médias que não nos informam nada sobre a
desigualdade e a dispersão subjacente às mesmas. Este é o caso, em particular, do componente
renda no IDH. Tal como o PIB per capita, uma renda monetária disponível per capita elevada pode
estar mascarando níveis de pobreza elevadíssimos se a concentração da renda for expressiva. Além
disso, o fato de que se leva em consideração apenas a renda monetária tende a sobrestimar a pobreza
daquelas parcelas da população que obtém parcela não desprezível de sua renda real da produção
86 Que, por oposição à renda média total, não leva em consideração os tributos e os serviços fornecidos gratuitamente pelos
governos.
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para o próprio consumo (como é caso de parcela expressiva da população rural, em particular em
comunidades onde a agricultura familiar é dominante).
De outro lado, há que se reconhecer que as variáveis longevidade e anos de estudo são
menos passíveis de mascaramento que a variável renda, no sentido aludido acima. Afinal, se a
mortalidade infantil é expressiva entre a parcela mais pobre e majoritária da população, a longevidade
média será baixa, independentemente de quão longevos forem os indivíduos dos estratos ricos, mas
minoritários. Não obstante, também aqui podem emergir resultados ilusórios. E isto na medida em
que a depressão da mortalidade infantil e a elevação da expectativa de vida não se faz acompanhar,
necessariamente, de uma melhoria nos padrões de sanidade e atendimento médico nas demais faixas
etárias. Além disso \u2013 e este é o fator mais importante \u2013 a elevação dos anos médios de estudo não nos
diz nada acerca da qualidade deste estudo. A partir de programas sociais em que a freqüência à
escola é estimulada pela distribuição de alimentos e/ou recursos monetários (merenda gratuita, bolsa-
escola, etc.), os anos médios de estudo podem crescer significativamente sem que, necessariamente,
se imponha uma diminuição expressiva no analfabetismo funcional ou uma elevação efetiva no nível
cultural da população \u201ceducada\u201d. Um fenômeno que tende a se manifestar de forma particularmente
intensa quando se adotam, simultaneamente, medidas legais que restringem a repetência escolar e
quando os dispêndios com os programas sociais de estímulo à freqüência à escola são compensados
pela diminuição das verbas voltadas à manutenção e melhoria da qualidade do ensino.
3.5 CONCLUSÃO
Muito provavelmente, ao término deste capítulo, o leitor menos acostumado às polêmicas a
ambigüidades da Economia deve se encontrar algo desesperançado no que diz respeito à consistência e