411-Manual_de_Economia
452 pág.

411-Manual_de_Economia


DisciplinaEconomia I32.599 materiais245.395 seguidores
Pré-visualização50 páginas
à relevância dos mais indicadores de atividade e bem-estar econômicos, sejam os tradicionais (como
PIB e sua variações), sejam os \u201calternativos\u201d, como os índices de desemprego oculto e o IDH. Mas não
é para tanto. Todos estes indicadores e índices são relevantes e trazem informações ricas acerca da
realidade. O que não significa que devamos tomar qualquer um deles como a expressão rigorosa e
suficiente daquilo que eles pretendem avaliar/mensurar de forma apenas aproximada. Se aprendemos a
utilizá-los com a criticidade que eles solicitam, eles se mostram instrumentos valiosos. E, de forma
particular, é preciso saber operar com todos, recusando o dogmatismo, seja dos tradicionalistas ortodoxos
que não conseguem ir além da Contabilidade Social consolidada, seja daqueles que, por não entenderem
as potencialidades da Contabilidade Social e os limites dos índices da família do IDH, virtualmente
sacralizam os últimos e demonizam as medidas tradicionais. Assim como todas as escolas do Pensamento
Econômico têm algo a nos ensinar, da mesma forma os mais distintos indicadores de atividade e bem-
estar econômicos têm algo a nos ensinar sobre a realidade que buscamos interpretar.
89
I.2 MICROECONOMIA
Capítulo 4. Introdução à Microeconomia: Princípios Gerais da Determinação dos Preços
Qualquer doutrina chã e simples sobre as relações entre o custo de produção,
a procura e o valor é necessariamente falsa; e quanto maior a aparência de
simplicidade se lhe emprestar por uma hábil exposição, mas perniciosa será.
Um homem será provavelmente melhor economista se confia no seu
bom senso e nos seus instintos práticos do que se, pretendendo
estudar a teoria do valor, está predeterminado a achá-la fácil.
Alfred Marshall, Princípios de Economia
4.1 INTRODUÇÃO: O OBJETO DA MICROECONOMIA
Ao iniciar nossa caminhada por uma das principais áreas da Economia, impõe-se definir o
objeto específico da mesma. Como é usual em uma ciência pluriparadigmática como a nossa87, não
existe uma definição única e rigorosamente consensuada do escopo e objeto da \u201cMicroeconomia\u201d. E
as determinações desta ambigüidade são as mais diversas.
Em primeiro lugar, é preciso que se entenda que a Microeconomia é o objeto preferencial
de um dos três paradigmas estruturantes da nossa Ciência: o Neoclassicismo. Na verdade, na fase
áurea da hegemonia neoclássica \u2013 entre o último quartel do século XIX e o primeiro do século XX ,
o que hoje chamamos de Microeconomia era virtualmente identificado à Ciência Econômica.
É somente a partir da Crise de 1929 e, em particular, da publicação da Teoria Geral de
Keynes88, que os economistas da linhagem neoclássica vão reconhecer que seu objeto preferencial
correspondia a apenas uma parte do objeto geral da Economia, e passam a aceitar sua divisão em
dois segmentos: a Microeconomia \u2013 que trataria da consolidação das decisões de aquisição, produção
e venda de bens e serviços nos diversos mercados - e a Macroeconomia \u2013 que trataria da determinação
do produto e da renda agregadas da Economia e da evolução do nível geral de preços.
87 Tratamos dos determinantes do caráter pluriparadigmático da Economia no capítulo primeiro do livro.
88 Keynes foi o mais influente dentre os economistas da linhagem estruturalista do século XX. Sua influência entre os
economistas das mais distintas escolas de pensamento ainda se faz sentir na atualidade, malgrado a importante reação
Neoclássico-cartesiana (expressa na onda neo-liberal) do final do século passado.
90
Mas \u2013 a despeito do que podem pretender neoclássicos e estruturalistas \u2013 a Economia não
se divide apenas em \u201cMicro\u201d e \u201cMacro\u201d. Para os institucionalistas históricos \u2013 como Smith e Marx \u2013
a Economia Política também tem como objeto o desenvolvimento das formas de produção e intercâmbio
social. O que significa dizer que, para além do que os neoclássicos e estruturalistas tomam como o
objeto desta Ciência \u2013 como se determinam os preços ou o emprego no sistema mercantil-capitalista
tal como estruturado hoje \u2013 existe um outro nível de investigação que diz respeito aos fundamentos
sócio-históricos e à evolução previsível das categorias econômicas tais como \u201cpreços\u201d e \u201cemprego\u201d.
Ou, para ser mais claro: questões do tipo \u201ccomo surgem e em que circunstâncias se impõem os
mercados e os preços?\u201d, \u201cque padrão(ões) de sociabilidade se desdobram dos mesmos?\u201d, \u201cde que
forma os preços se desdobram no dinheiro, no capital, no juro e no lucro?\u201d não cabem dentro do
escopo da Microeconomia. O que é o mesmo que dizer que a Microeconomia é parte de uma Teoria
Geral dos Preços e dos Mercados, mas não se confunde com ela. Mais exatamente:
Microeconomia é a parte da Economia que se volta ao estudo e sistematização dos
distintos padrões de produção e determinação dos preços dos bens e serviços
transacionados nos mais diversos mercados.
O tema é, evidentemente, amplo. Não será gratuito que os neoclássicos o tenham confundido
com a própria Ciência Econômica por tanto tempo. Mas, a despeito de sua amplitude, a Microeconomia
tem um núcleo objetal: o processo de determinação dos preços. E a despeito desta determinação
não ser homogênea, mas marcada por profundas diferenças nos mercados organizados sobre bases
distintas, ele comporta uma dimensão universal: todo o processo de determinação de preços se
realiza a partir da interação de compradores (ou demandantes) e vendedores (ou ofertantes). Passemos,
pois, à análise dos princípios mais gerais que orientam a ação destes inter-agentes. E, seguindo a
tradição neoclássica (e cartesiana), vamos começar nossa análise acompanhando a ação mais simples
- a de demanda - do agente econômico mais simples - o consumidor.
4.2 A FUNÇÃO DEMANDA E A TEORIA DO CONSUMIDOR
Normalmente, quando perguntamos a um leigo em Economia o que é a \u201cdemanda\u201d ele responde:
é a quantidade de um determinado bem que os compradores adquirem (ou estão dispostos a adquirir) no
mercado. Esta resposta é muito distinta daquela que os economistas dão à pergunta. Para os economistas,
a demanda não se confunde com a quantidade efetivamente demandada. Ela é, antes, uma função do tipo:
91
1) ),,...,,,...,,,,( 1121 czxxcx
D
x EPPPPPPRPfQ +\u2212=
Nesta função, a quantidade demandada do bem x \u2013 expressa por QDx \u2013 pode assumir os
mais diversos valores, a depender dos valores das variáveis explicativas: o preço do bem x (Px), a
renda dos consumidores (RC), os preços dos demais bens (P1 .... Pz), e a estrutura de preferências e
gostos dos consumidores (EPC). Dentre as diversas variáveis independentes, contudo, uma ocupa
absoluta centralidade na explicação da quantidade demandada: o preço do bem x. Por isto mesmo,
muitas vezes a função demanda é expressa em sua forma simplificada, em que se deixa explícita tão
somente a relação entre a quantidade demandada e o preço do próprio bem. Neste caso, as demais
variáveis explicativas são tomadas como dadas \u2013 vale dizer, tomamo-as como parâmetros, como
variáveis que se encontram estabilizadas \u2013 e a expressão formal da função demanda passa a ser:
2) )( x
D
x PfQ =
Neste caso, a demanda por um determinado bem ou serviço se define como \u201cas
distintas quantidades que os consumidores estão dispostos a adquirir do mesmo por período
de tempo aos seus diversos preços possíveis\u201d.
Quando o neófito em Economia se depara pela primeira vez com esta definição ele usualmente
resiste à mesma. O motivo é que, no dia a dia, utilizamos a expressão \u201cdemanda\u201d como sinônimo de \u201cquantidade
demandada\u201d. De forma que, à pergunta - \u201cqual é a demanda deste bem?\u201d - tendemos a responder: \u201cx
unidades\u201d. Mas esta resposta pressupõe que o preço seja dado e conhecido. O que só é verdadeiro se nos
colocamos na condição de indivíduos consumidores cujas decisões não afetam os preços.
Para que se entenda a limitação desta perspectiva, é preciso olhar a questão de um outro
ângulo. Imagine que você é um empresário e está tentando definir se vale a pena