411-Manual_de_Economia
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lançar um novo
produto. Para decidir você tem que avaliar o \u201ctamanho do mercado\u201d para o mesmo, a sua \u201cdemanda\u201d.
O que envolve projetar as quantidades que (provavelmente) seriam demandadas por unidade de
tempo aos diversos preços. É este conjunto de combinações entre preços e quantidades que define o
\u201dperfil da demanda\u201d, as características do mercado, seu \u201ctamanho\u201d. Determinar a demanda é,
pois, avaliar o \u201ctamanho do mercado\u201d; o que só é possível se levamos em consideração as
conseqüências potenciais da variação e preços sobre as quantidades demandadas.
Antes de avançarmos neste trabalho de determinação, contudo, é preciso fazer três
considerações. Em primeiro lugar, é preciso frisar que a função demanda está definida para um
determinado intervalo de tempo. E isto na medida em que, dada um preço (e as demais variáveis), as
quantidades demandadas pelos consumidores variarão com o período de tempo considerado, seja
ele um dia, uma semana, um mês ou um ano.
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Em segundo lugar, é importante ter claro que nós não vamos trabalhar aqui com qualquer
função demanda, mas com a demanda do consumidor. E isto por dois motivos: 1) a funções demanda
das empresas sobre as demais na compra de insumos89 refletem, em grande parte, as funções demanda
dos consumidores dos bens finais, apresentando perfis e padrões de variação bastante similares; e 2)
as particularidades das funções demanda inter-empresariais são específicas de cada mercado, não
sendo o ponto de partida mais adequado para o tratamento da função demanda em sua generalidade.
Em terceiro lugar, gostaríamos de alertar desde já para o fato de que, a despeito da quantidade
demandada ser a variável dependente (ou explicada) da função demanda e o preço ser a sua variável
independente (ou explicativa), os economistas adotaram um padrão de representação gráfica em que
se inverte a posição tradicional (consagrada desde Descartes) das mesmas90. Assim, os preços são
representados nas ordenadas (\u201ceixo dos y\u201d) e as quantidades (a variável dependente), nas abscissas
(\u201ceixo dos x\u201d). Tal como abaixo:
Gráfico 1 \u2013 Função Demanda Padrão
O primeiro elemento que chama a atenção no gráfico acima é a inclinação negativa91 da
função demanda. O que esta inclinação nos diz é que, normalmente (trataremos logo adiante das
exceções), as quantidades demandadas sobem quando o preço de um bem qualquer cai, e as
quantidades demandadas caem quando o preço do bem se eleva. Por quê?92
89 Insumos são os diversos componentes de um determinado processo de produção, sejam eles matérias-primas agropecuárias
e minerais ou matérias já submetidas a processamento (peças, componentes químicos, energia, etc.).
90 Esta inversão tem bases convencionais. Mas ela nunca foi enfrentada porque ela facilita a confrontação da função demanda
com outras funções econômicas (como a Receita Total e a Receita Marginal) em que a quantidade é a variável independente e,
como tal, deve ser representada no eixo horizontal (a abscissa). Este ponto ficará mais claro nos dois próximos capítulos.
91 Que se manifesta independentemente da inversão dos eixos já referida: como se pode apreender com facilidade, a função
também seria negativamente inclinada se as quantidades fossem representadas nas ordenadas e os preços nas abscissas.
92 Por incrível que possa parecer aos leigos, muito se escreveu e muito se polemizou sobre este padrão de relação funcional
entre preços e quantidade demandada. E isto não tanto porque se ponha em dúvida o padrão propriamente dito, mas porque
os economistas buscam demonstrar sua pertinência quase universal com o menor número possível de hipóteses restritivas e
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Desde logo, é preciso entender que cada consumidor conta com uma renda limitada (ou, de
forma mais geral, com um orçamento restrito93) para a aquisição do conjunto dos bens que deseja. O
que envolve dizer que ele terá que fazer escolhas para definir a cesta de bens que irá, de fato, adquirir.
Supondo que o consumidor seja um agente racional-maximizador, a cesta de bens que ele vai adquirir
será aquela que lhe proporcionar a máxima satisfação possível.
Ora, os distintos bens proporcionam distintos graus de satisfação para os consumidores.
Mas \u2013 e este é o ponto realmente importante \u2013 este grau de satisfação não é fixo, não é dado, mas
varia inversamente com a quantidade já possuída/adquirida de um determinado bem por
unidade de tempo. Por exemplo: suponhamos que eu seja um consumidor contumaz de chocolate,
produto que me proporcionam grande satisfação. Uma barra por semana me traz grande satisfação;
duas, uma satisfação ainda maior; três, mais do que duas. Mas a cada adição de barras de chocolate,
ainda que a satisfação total cresça, a satisfação marginal \u2013 vale dizer: a diferença entre a satisfação
anterior e a nova, a satisfação acrescida, aquela que se deriva exclusivamente da aquisição da última
barra \u2013 será menor. Até o ponto em que a aquisição de uma nova barra não me trará mais qualquer
satisfação, seja porque fico enjoado com tanto consumo, seja porque as conseqüências secundárias
do consumo (obesidade, acne, etc.) me são particularmente desagradáveis.
Gráficos 2 \u2013 Utilidade Total Gráfico 3 \u2013 Utilidade Marginal
passíveis de questionamento. Não acreditamos ser necessário ingressar, aqui, nestas polêmicas. Na verdade, vamos apresentar
a versão mais simples (que é, também, a mais antiga e, num certo sentido, a mais rudimentar) de explicação para este padrão.
Para aqueles interessados em aprofundar seus conhecimentos sobre o tema, recomendamos a leitura de Varian, 1997.
93 A diferença entre renda e orçamento é que o último envolve, para além das remunerações auferidas pela venda de serviços
e/ou por transferências públicas ou privadas (que perfazem a renda do consumidor), as disponibilidades monetárias derivadas
da venda de patrimônio ou da tomada de empréstimos.
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Dada a sua renda (ou orçamento), o consumidor vai maximizar sua satisfação total
quando a utilidade marginal obtida com cada unidade monetária despendida for a maior possível.
Mais exatamente, o consumidor estará maximizando sua satisfação quando a utilidade obtida
com o último exemplar adquirido de um bem qualquer (a utilidade marginal deste bem) dividido
pelo preço do bem (o dispêndio monetário necessário à sua aquisição) for igual à relação
UMg / Preço de todos os demais bens adquiridos. Formalmente, o equilíbrio do consumidor é
tal que:
3)
A demonstração rigorosa desta equação não é trivial, mas sua demonstração intuitiva é
bastante simples. Para facilitar, vamos imaginar que os bens adquiridos sejam perfeitamente
divisíveis (são vendidos por gramas, metros, litros, etc.). Imaginemos também que a utilidade
marginal é continuamente decrescente para todo e qualquer bem. Por fim, imaginemos que o
consumidor tenha decidido comprar uma determinada quantidade do bem x tal que a utilidade
marginal da última unidade monetária despendida em sua aquisição (UMgx / Px) seja maior do
que a utilidade marginal dos dispêndios com os demais bens. Neste caso, se revisse suas decisões,
diminuindo as quantidades compradas de todo os demais bens (que podem ser pensados como
um único bem: a cesta de \u201coutros\u201d), o impacto negativo sobre a utilidade total seria inferior ao
impacto positivo associado à compra de mais unidades de X, pois enquanto \u201coutros\u201d foi adquirido
em excesso e apresenta utilidade marginal baixa, X foi adquirido insuficientemente, e sua utilidade
marginal é alta. Na verdade, a troca de \u201coutros\u201d por \u201cX\u201d só vai cessar quando os acréscimos na
utilidade total cessarem; vale dizer, quando a utilidade marginal acrescida por cada novo dispêndio
em X for igual à utilidade marginal perdida pela desistência em despender mais uma unidade
monetária em \u201coutros\u201d.
Ora, desta modelagem do comportamento do consumidor extrai-se uma conclusão muito
importante: a de que uma queda no preço de um bem X qualquer deve levar à elevação nas quantidades
adquiridas do