411-Manual_de_Economia
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de amendoim dos nossos produtores),
de forma que a quantidade que o mercado está disposto a comprar ao preço de oferta PEs1 é de
apenas QDExO. A diferença entre QoExO e QDExO (quantidade demandada ao preço PEs1) é o
chamado \u201cexcedente de oferta\u201d.
Ora, é usual pretender-se que, neste caso, vai se impor uma depressão dos preços que
levará o sistema \u201cnovamente\u201d ao equilíbrio representado pela interseção \u201cQEq,PEq\u201d. A questão é:
como isto se dará?
Se o produto não for armazenável (como, usualmente não o são os hortifrutigranjeiros) ou
se os custos do armazenamento tornarem esta alternativa inviável (situação bastante comum quando
o produto passível de armazenamento é perecível e solicita temperatura e ambiente controlados), os
produtores se verão obrigados a colocar toda a safra no mercado. Ora, a quantidade produzida
QoExO só pode ser absorvida pelo mercado atual ao preço PExO (preço efetivo de excesso de
oferta). O que deve impor pesados prejuízos aos produtores.
99 Diga-se de passagem, esta hipótese não é gratuita. Como veremos nos próximos capítulos, a função oferta \u201cbem comportada\u201d
\u2013 vale dizer: ascendente ao longo de toda a sua extensão \u2013, só é provável nos mercados agrícolas.
101
O \u201cepisódio\u201d relatado pode, ou não, ter conseqüências sobre as expectativas de preço e as
decisões de plantio dos produtores de amendoim na próxima safra. Suponhamos que os produtores
projetem para o próximo ano o preço PEs2 (preço esperado 2), que é superior ao preço obtido no
ano corrente, mas ainda inferior ao preço de equilíbrio. Neste caso, produzirão QoExD (quantidade
ofertada em condições de excesso de demanda). Mas ao colocarem sua produção no mercado, vão
se deparar com uma demanda superior à projetada, o que resultará num preço efetivo de PExD
(preço efetivo de excesso de demanda). Se tomarem este preço como referência para sua produção
no próximo ano, ofertarão mais do que o mercado vai estar disposto a adquirir sem jogar o preço
para um patamar inferior ao de equilíbrio. O que acaba de pôr o sistema numa espécie de loop em
torno do equilíbrio que, de fato, nunca é alcançado.
Poder-se-ia contra-argumentar que esta conclusão está assentada na hipótese questionável
de que os produtores levam em consideração os preços recentes na formação das expectativas com
relação aos preços futuros. Diversos economistas defendem o ponto de vista de que as expectativas
dos produtores são formadas a partir de uma análise acurada do mercado, onde os equívocos recentes
são devidamente descontados, de forma que, a cada nova rodada, volta-se a tomar o preço de
equilíbrio \u2013 PEq \u2013 como referência de preço futuro esperado100. E é possível que, de fato, este seja
o processo de formação de expectativas em diversos mercados, particularmente naqueles mais antigos
e organizados, onde os produtores tiveram tempo para aprender com os erros (as expectativas mal
formuladas) do passado e contam com sistemas de informação confiáveis. Não obstante, mesmo se
for este o padrão expectacional, nada garante que o sistema convirja para o ponto de equilíbrio
QEq,PEq. E isto por diversos motivos.
Em primeiro lugar, porque num sistema competitivo \u2013 marcado pelo livre ingresso e pelo
grande número de produtores \u2013 não existe instrumento de regulação que garanta que o número de
produtores que sairá do mercado após um desequilíbrio de excesso de oferta (ou que ingressará após
um evento de excesso de demanda) seja exatamente o necessário para que a quantidade ofertada
corresponda à quantidade de equilíbrio. Além disso, as funções oferta e demanda não são estáticas,
mas se alteram (deslocando-se e mudando de forma e padrão) ao longo do tempo, de forma que o
preço e as quantidades de equilíbrio de ontem podem não ser os de hoje e provavelmente não serão
os de amanhã. Por fim, há que se considerar a possibilidade de intempéries climáticas ou da ocorrência
de outros eventos não rigorosamente projetáveis que alterem as condições objetivas de oferta, a
despeito da intenção e planejamento dos produtores.
O desdobramente necessário das considerações acima é que o \u201cequilíbrio\u201d é, antes, uma
referência do que uma situação efetiva ou mesmo um ponto para o qual o sistema \u201ctenda\u201d a curto,
100 Esta é a teoria defendida por Muth (1981) em seu clássico trabalho \u201cRational Expectations and the Theory of Price
Movements\u201d.
102
médio ou longo prazo. E isto, não porque o sistema seja caótico. Se o fosse, não alcançaria se
reproduzir. Antes pelo contrário: o sistema não tende ao equilíbrio porque é essencialmente dinâmico,
inclusive e particularmente no sentido positivo de ser propulsivo. O que significa dizer que não se
atinge o \u201cequilíbrio\u201d porque este \u2013 como a linha do horizonte - não para de se mover.
4.5 A ELASTICIDADE-PREÇO DA DEMANDA
Supondo uma curva de demanda padrão (negativamente inclinada), variações positivas da
função oferta (deslocamentos para a direita e para baixo) se resolvem em quedas dos preços e em
elevação das quantidades ofertadas e demandadas, enquanto variações negativas da função oferta
(deslocamentos para a esquerda e para cima) se resolvem em elevação dos preços e diminuição das
quantidades ofertadas e demandadas. Mas \u2013 cabe perguntar então \u2013 qual o padrão destas variações?
E \u2013 em particular \u2013 elas determinam uma elevação ou queda da receita total (RT) das firmas vendedoras?
O que é o mesmo que perguntar: quando os preços caem (sobem) as quantidades se elevam (caem)
na mesma proporção, em proporção maior, ou em proporção menor que a variação dos preços?
É fácil perceber que a resposta a estas questões é função da inclinação da função demanda.
Quanto mais inclinada ela é, quanto mais \u201cvertical\u201d ela aparece no gráfico de representação padrão (no
qual as quantidades demandadas são representadas nas abscissas), menores serão as chances de que uma
elevação da oferta (seu deslocamento para a direita e para baixo) se resolva em elevações da receita total.
Neste caso, os preços cairão significativamente, com pouco ou nenhum impacto sobre a quantidade
demandada, deprimindo a receita obtida pelos produtores. Inversamente, quanto mais \u201chorizontal\u201d for a
função demanda, tanto mais uma ampliação da oferta se resolve em ampliação das quantidades com pouca
ou nenhuma queda dos preços, o que leva a uma ampliação da receita total das firmas vendedoras.
Mas é preciso determinar melhor estas relações, indo além das impressões alimentadas pela
observação dos gráficos. E isto porque, a depender das unidades de medida utilizadas para avaliar as
quantidades, é possível construir-se, para um mesmo bem, funções demanda com padrões gráficos
de inclinação bastante distintos101. A determinação algébrica das questões postas acima passa pela
construção de uma nova categoria analítica: a elasticidade da demanda. Conceitualmente, a elasticidade
não é mais do que a relação entre a variação percentual das quantidades e dos preços, vale dizer:
101 Imagine um bem X qualquer cujo preço inicial é 2 unidades monetárias (um) e passa a ser vendido por 1 um. Suponhamos,
ainda, que a quantidade demandada do mesmo duplique com esta variação de preços, passando de uma tonelada por unidade
de tempo, para duas toneladas. Se a representação gráfica é feita com toneladas, temos uma função que passa por dois pontos
(2,1) e (1,2). Supondo (para simplificar) que a função demanda total seja linear, temos uma função demanda do tipo QDx
 = 3
\u2013 Px, com coeficiente angular \u20131. Porém, se representamos as quantidades por gramas, a função passa a ser Q
D
x
 = 3000000 \u2013
1000000 Px, com coeficiente angular de \u2013 1000000. Como o padrão de representação da função demanda é tal que a variável
dependente (QDx) é representada na abscissa, o coeficiente angular aparente será de -1/1000000, com a função demanda
apresentando-se quase horizontal.
103
4)
5)
Antes de prosseguirmos analisando a função elasticidade cabe fazer uma observação
importante. Na medida em que as variações