411-Manual_de_Economia
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se o mercado não lhe oferece alternativas melhores para a alocação de sua força de trabalho e de seu
(escasso) capital. O que significa dizer que o custo de oportunidade \u2013 vale dizer, o rendimento mínimo
exigido - para o ingresso em tais atividades é o salário e os juros que o empresário \u201cabre mão\u201d de
receber no mercado vendendo sua potência de trabalho e alugando seu capital. Simultaneamente \u2013 e de
outro lado \u2013 o fato de que os consumidores não são indiferentes à firma da qual compram (quanto mais
não seja, pela preguiça de caminhar), determina que cada empresário possa impor um preço superior
àquele que se estabeleceria se todas as (por exemplo) padarias fossem igualmente próximas da minha
casa e eu me dispusesse a comprar na que oferecesse o menor preço. Em outras palavras: o preço de
qualquer mercadoria em concorrência imperfeita é (em maior ou menor grau, a depender do mercado)
superior ao que se estabeleceria em concorrência perfeita. Este excedente de preço conduziria à
apropriação de um \u201clucro puro\u201d (lucro que supera todos os custos de oportunidade, inclusive o juro
pelo capital próprio) por parte dos empresários. Mas, se emerge um lucro puro em atividades de livre
entrada, todos os \u201cempresários potenciais\u201d \u2013 assalariados que fazem poupança para garantir a manutenção
do seu padrão de vida quando saírem do mercado de trabalho - vão preferir abandonar seus empregos
e ingressar em tais atividades. Uma \u201csobreacumulação\u201d que se resolverá, em parte, na diminuição do
excedente de preço (depressão geral do mark-up) e, em parte, na universalização da capacidade ociosa.
Na verdade, uma certa ociosidade passa a ser condição de equilíbrio nestes mercados: é ela
que impõe a elevação do custo total médio necessário à extinção do lucro puro133; extinção
esta que é condição sine qua non para que cessem os ingressos de novos empresários e cesse
a ampliação da capacidade instalada e da oferta potencial.
132 Kalecki vai demonstrar que este princípio também é válido para o caso da concorrência imperfeita propriamente oligopólica
(que se dá entre um número restrito de empresas). Mas como o tratamento sistemático da capacidade ociosa em oligopólio é
objeto privilegiado de alguns dos mais proeminentes teóricos da Vertente Oxfordiana, preferimos apresentar as suas
determinações na seção terceira deste capítulo.
133 Pelo menos o lucro puro apropriado universalmente. Mesmo em mercados de livre entrada existe espaço para a conquista de lucro
puro por parte daquela parcela (necessariamente, minoritária) de empresários de competência e capacidade inovativa excepcional.
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Mas se a capacidade ociosa é estrutural em concorrência imperfeita e, enquanto há capacidade
ociosa o custo marginal é constante nos setores produtivos caracterizados por este padrão de
organização mercantil, então não se pode pretender que a ampliação da demanda (pelo menos até o
nível da plena utilização da capacidade) tenha efeitos inflacionários. \u2026 Sem dúvida. Não se pode
pretender que tenha tais efeitos. Mas também não se pode afirmar categoricamente que não tenha.
Afinal, nós já sabemos muito sobre concorrência imperfeita. Mas, surpreendentemente, ainda não
sabemos como é a sua função oferta. Melhor: nem sabemos se ela existe e qual o papel que ela
cumpre. E, assim, não temos como afirmar nada sobre as consequências de deslocamentos na
demanda. Pelo menos não antes de lermos as próximas seções.
6.2.3 A Curva de Oferta em Concorrência Imperfeita e a contribuição de Kalecki
Como vimos acima, o preço de equilíbrio da firma que opera em concorrência imperfeita é
definido exclusivamente pela função demanda com a qual se depara (donde se deriva a função RMg)
e pela função custo marginal da firma. Mas esta última função \u2013 ao contrário do que ocorrem em
concorrência perfeita - não é a função oferta da firma. E isto não apenas no sentido trivial de que o
preço é mais elevado que o custo marginal, mas no sentido muito mais substantivo de que, alterações
na função demanda podem afetar o preço de equilíbrio mesmo se a função custo marginal é constante.
Mas se não temos uma função oferta, então nada pode ser dito acerca dos impactos
presumíveis de alterações na demanda. O fato de que haja capacidade ociosa e os custos marginais
sejam constantes até a plena utilização não nos habilita a pretender que elevações de demanda não
venham a se traduzir em elevações dos preços.
Como se isto não bastasse, o modelo de formação de preços em concorrência imperfeita,
tal como desenvolvido por Robinson e Chamberlin, também não vai ser capaz de explicar a estabilidade
do mark-up quando os custos marginais são alterados. O que significa dizer que o modelo não é
capaz de explicar os dois fenômenos empíricos que mais chamaram a atenção dos economistas
acerca do padrão de precificação das empresas urbanas e que estimularam todo o movimento de
crítica à concorrência perfeita nos anos 20 e 30: a estabilidade dos preços quando a demanda se
altera, e a estabilidade do mark-up quando os custos se alteram.
Estas duas insuficiências da modelagem especificamente cambridgeana da concorrência
imperfeita vão estar na base do desenvolvimento da vertente crítica oxfordiana, cuja característica
mais marcante é, justamente, o apego à empiria e a pretensão que a observação é o ponto de partida
necessário da teoria. Na contramão desta perspectiva (que será apresentada e analisada mais adiante),
Kalecki vai propor, em 1940, uma nova versão do modelo de Cambridge em que os dois problemas
supra-referidos são solucionados de uma forma particular. Para que se entenda a solução de Kalecki
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é preciso que, primeiro, entendamos adequadamente o problema. Para tanto, vamos apelar para
novos exemplos. Seja uma firma qualquer que se depara uma queda em sua função demanda sem
alterar seu custo marginal (por hipótese, R$ 5) ou seu custo fixo (R$ 10). Por razões que serão
explicitadas adiante, este tipo de variação de demanda é denominada \u201cNão-Isoelástica\u201d.
Variação de Demanda Não Isoelástica
Q1 = 25 \u2013 P Q2 = 21 - P
P1 = 25 \u2013 Q P2 = 21 - Q
RT1 = Q * P = Q * (25 - Q) RT2 = Q * (21 - Q)
RT1 = 25*Q \u2013 Q2 RT2 = 21*Q - Q2
RMg1 = 25 - 2*Q RMg2 = 21 - 2*Q
Tabela 2 \u2013 Variação não Isoelástica de Demanda
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Gráfico 3 - Variação não-isoelástica de Demanda
Desde logo vale notar que o padrão de variação de demanda é tal que caiu o seu
preço limite superior: antes, era preciso chegar ao preço de 25 reais para que o último
comprador abrisse mão de adquirir pelo menos um produto da firma. Agora, com o preço
de 21 já não há mais compradores interessados em adquirir sequer uma unidade do produto
da firma.
Para Kalecki, esta redução do intercepto vertical da função demanda representada,
não está expressando outra coisa do que a depressão do \u201cpoder de monopólio\u201d da firma.
Uma depressão que também se expressa na elevação da elasticidade da demanda a cada
alternativa de preço de oferta para o produto da firma. Ao preço de R$ 15, que correspondia
ao preço inicial de maximização de lucro da firma, a elasticidade da demanda era de 1,5
originalmente, mas passou a ser de 2,5 após a alteração da função demanda. No novo equilíbrio,
o preço teve que ser reduzido para R$ 13. E a este preço a elasticidade (antes de 1,08)
passou a ser de 1,63. De forma que o grau de monopólio também cai de 0,667 para 0,615.
Ora, argumenta Kalecki, este padrão de variação de demanda \u2013 não-isoelástico
- é possível; mas não corresponde ao padrão que caracteriza as flutuações cíclicas ou
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sazonais de demanda. O que está ocorrendo aqui é uma alteração no padrão competitivo
do mercado, de forma que a firma \u2013 isoladamente, ou não \u2013 está perdendo poder de
precificação. Isto ocorre, ou quando as concorrentes conseguiram baixar significativamente
seus custos de produção e estão repassando as vantagens para os preços, ou quando as
concorrentes desenvolveram novos e mais eficientes substitutos à produção da firma