411-Manual_de_Economia
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caminho da que sofreu a elevação de custos e das suas concorrentes não
eram fiéis a nenhuma fornecedora. Após a elevação dos preços da \u201cPadaria Central\u201d, contudo, eles
abriram mão da alternância e se tornaram fiéis compradores da padaria alternativa mais próxima. E o
desdobramento é que se as padarias alternativas subissem os seus preços, mas o fizessem em um
patamar inferior à \u201cPadaria Central\u201d, a maioria dos novos clientes continuaria comprando nas mesmas.
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Ainda que este movimento expulsasse uma parte dos consumidores tradicionais (que se deslocariam
para concorrentes diretos das \u201cpadarias periféricas\u201d, mas não da \u201cPadaria Central\u201d), ele ainda seria
lucrativo enquanto a elevação de preços garantisse um crescimento da receita total superior ao
crescimento dos custos totais137. Só que, como \u2013 por hipótese \u2013 o custo marginal das \u201cpadarias
periféricas\u201d continua o mesmo, de forma que a receita marginal de equilíbrio deve ser a mesma de
antes. Só que, agora, esta receita marginal estável está associada a um preço mais elevado. O que
significa dizer que a elasticidade da demanda destas \u201cpadarias\u201d caiu, e seu grau de monopólio se
elevou.
Ora, a elevação dos preços das concorrentes vai impactar a função demanda da \u201cPadaria
Central\u201d. No exemplo da Tabela 4, acima, havíamos encontrado um novo preço de equilíbrio em R$
14, com uma elevação de preços significativamente inferior aos custos, porque supúnhamos que a
função demanda da \u201cPadaria Central\u201d não variaria, uma vez que o preço dos bens substitutos (os
pães das concorrentes) não seria alterado. Mas já vimos que esta não é uma hipótese legítima. Com
a elevação do preço das concorrentes, mesmo que inferior à elevação do preço da nossa \u201cPadaria
Central\u201d, alguns clientes (os que moram mais próximos à mesma, bem como os que identificam
alguma vantagem qualitativa expressiva em seus produtos) vão ser \u201crefidelizados\u201d, de forma que, a
elasticidade e a receita marginal vão cair ao preço de R$ 14, estimulando-a a operar uma nova
elevação de preços com vistas a igualar receita e custos marginais.
É impossível prever até onde estes movimentos adaptativos podem ir, mas eles não devem
conduzir a uma elevação de preços proporcional à elevação de custos da \u201cPadaria Central\u201d. E isto na
medida em que a participação no mercado da \u201cPadaria Central\u201d não deve ser tão expressiva a ponto
da alteração em seu preço ter um impacto tão significativo sobre a função demanda de suas concorrentes
a ponto de permitir significativas elevações de seus preços. Na verdade, cada uma das padarias no
entorno da \u201cCentral\u201d tem que levar em consideração o preço de um conjunto de concorrentes de seu
próprio entorno, e não apenas os preços da \u201cCentral\u201d.
De outro lado, se os custos marginais de todas as padarias subissem simultaneamente
e na mesma proporção, o resultado seria outro e bem determinado. Neste caso, é de se esperar
uma elevação de preços na mesma proporção dos custos marginais. E isto porque, nos termos de
Kalecki, se todas sofrem o mesmo impacto de custos e elevam seus preços proporcionalmente, não
se altera o poder competitivo de nenhuma, nem o grau de imperfeição do mercado. Mesmo que a
\u201cPadaria Central\u201d não soubesse que as concorrentes sofreram elevação em seus custos marginais - o
137 Na verdade, nesta hipótese os custos totais não precisam se elevar. Eles podem até diminuir se houver uma diminuição da
produção. E é isto que ocorrerá se o número de clientes que abandonam as \u201cpadarias periféricas\u201d for maior do que os que se
agregam. Não obstante, esta elevação da capacidade ociosa das \u201cpadarias periféricas\u201d poderá ser lucrativa, se a receita total
estiver crescendo ou, pelo menos, estiver decrescendo a uma taxa inferior ao decréscimo dos custos totais.
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que é muito pouco provável, pois elevações dos custos marginais resultam, via de regra, de
elevações nos preços dos insumos (farinha, açúcar, mão-de-obra, etc.) e tendem a ser universais
- o processo de convergência para o novo preço seria paulatino, mas inexorável. Após elevar seus
preços a uma taxa inferior à elevação dos seus custos (de R$ 13 para R$ 14), baseada na função
demanda anterior, veria que todos os concorrentes também elevaram os preços. Mas se os concorrentes
também elevaram seus preços, então a função demanda da \u201cPadaria Central\u201d foi deslocada para
cima de forma não isoelástica. O que permite ao nosso padeiro \u2013 bem como a todos os demais \u2013
elevar(em) mais uma vez os seus preços. E assim por diante, até que os novos preços de equilíbrio
fossem tais que a relação entre preços e custo marginal se mantivesse constante, em conformidade
com a estabilidade do grau de monopólio de cada firma e do mercado. Nos termos de Kalecki:
\u201cThe market imperfection is given if the elasticity of demand for the product of each firm ek
is a determinate function of the ratio of its price pk to the average price pm or:
ek = ek (pk / pm) (1)
the shape of the function ek representing the state of market imperfection. If the shape of the
function ek changes so that to the same pk / pm there corresponds a smaller ek we say that te
market imperfection increases, and vice-versa.
This amounts to considering imperfection of the market constant if (i) with given average
price pm the elasticity of demand for the product of a firm ek is uniquely correlated with its
price pk; (ii) when the average price pm and the firm\u2019s price pk change in the same proportion,
this elasticity remains unaltered.\u201d (Kalecki, 1990a, pp. 50 e 51).
Ora, o que Kalecki está propondo é tão somente que se reconheça a particularidade
do mercado de concorrência imperfeita. E esta particularidade não se reduz ao fato de as firmas
se deparam com funções demanda individuais. Igualmente importante e característico destes
mercados é que os bens \u201csubstitutos\u201d são tão similares ao produto da firma em consideração
que seus preços \u2013 expressos, aqui, no preço médio pm - têm que ser incorporados explicitamente
como uma variável da função oferta. E devem ser incorporados a partir da relação entre o preço
de cada firma e o preço médio vigente no mercado. De forma que a elasticidade da demanda de
cada firma vai variar não apenas com a variação do seu preço, mas com a variação da relação
entre seu preço e o preço médio. Dado este último, a elasticidade sobe quando o preço da firma
se eleva. Mas se o preço médio varia, a elasticidade \u2013 e, por conseqüência, a receita marginal -
da firma a cada preço só fica constante se os seus preços se elevarem na mesma proporção.
Kalecki vai concluir, então que
\u201cIt is easy to show that if \u2026 the marginal-cost curves of all firms change in the same proportion,
all prices change in this proportion, while outputs remain unaltered. Indeed, if all marginal
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costs and all prices change in the same proportion, the curves mk / pm do not alter and the
short-period equilibrium is established at the same level of output.\u201d (Kalecki, 1990a, p.
57138.)
Em síntese: Kalecki apresenta uma proposta de modelagem da concorrência imperfeita que
parte de Cambridge, mas que avança sobre as primeiras formulações desta vertente, no sentido de
adaptar seus resultados aos dois mais importantes e desconcertantes fatos descobertos pelos estudos
empíricos acerca da formação dos preços em mercados urbanos: a estabilidade dos preços diante de
flutuações de demanda e a estabilidade da relação entre preços e custos marginais (ou diretos).
6.3. A VERTENTE OXFORDIANA
6.3.1. O Princípio do Custo Total e os fundamentos empiristas da Vertente Oxfordiana
Enquanto os cambridgeanos buscavam enfrentar as inconsistências entre as práticas
observadas de precificação e as práticas previstas no modelo de concorrência perfeita através do
desenvolvimento de uma nova e mais sofisticada modelagem teórico-analítica formalmente
rigorosa, um outro conjunto de pesquisadores se voltou para uma estratégia distinta: o resgate e
sistematização das práticas de precificação tal