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Ricardo Vieira 
Capítulo 7 
Lipídios 
 
 L ipídios são biomoléculas carac-terizadas pela baixa solubilida-de em água e outros solvente 
polares e alta solubilidade em solventes apo-
lares. São vulgarmente conhecidos como gor-
duras e suas propriedades físicas estão rela-
cionadas com esta natureza hidrófoba. 
São moléculas que possuem uma 
grande variedade de formas estruturais, tendo 
em comum somente o fato de serem hidrofó-
bicas e serem biosintetizadas a partir da ace-
til-CoA. Este fato coloca os lipídios como 
uma importante molécula dentro do metabo-
lismo energético, uma vez que a acetil-CoA é 
a molécula que inicia os principais processos 
bioenergéticos. 
De certa forma, os lipídios possuem 
uma função energética mais reservada ao ar-
mazenamento do que o aproveitamento puro e 
simples de seu poder energético, uma vez que, 
justamente pelo fato de serem muito calóri-
cos, possuem vias metabólicas alternativas ao 
metabolismo energético que, muitas vezes, 
levam a danos ao organismo gerando doenças 
graves, denominadas dislipidemias (ver 
Capítulo sobre metabolismo Lipídico). 
Os lipídios não são biomoléculas poliméricas 
como os ácidos nucléicos, proteínas e os prin-
cipais carboidratos, mas possuem uma capa-
cidade de agrupar-se em moléculas complexas 
e possuem, muitas vezes, longas cadeias car-
bonadas responsáveis pelas suas propriedades 
hidrofóbicas. 
Na verdade, todas as considerações 
acerca do metabolismo lipídio advêm da ca-
racterística hidrófoba das moléculas. Esta 
propriedade não é uma desvantagem biológi-
ca, mesmo o corpo possuindo cerca de 60% 
de água. Justamente por serem insolúveis, os 
lipídios são fundamentais para estabelecer 
uma interface entre o meio intracelular e o 
extracelular, francamente hidrófilos. 
A membrana celular corresponde a es-
ta barreira lipídica onde o impedimento de 
fluxo livre de compostos hidrossolúveis, co-
loca as proteínas de membrana como os por-
tais de controle da composição celular. 
 Possuem funções importantíssimas 
para o metabolismo celular tanto de eucario-
tas como procariotas (Figura 7-1), podendo-se 
relacionar como principais as seguintes: 
 
Figura 7-1 \u2013 Os lipídios exercem as mais variadas e importantes funções no metabolismo dos seres vivos. 
Fundamentos de Bioquímica \u2013 Capítulo 7: Lipídios 80
\u2022 Composto bioquímico mais calórico em 
animais e sementes oleaginosas sendo a 
principal forma de armazenamento (trigli-
cerídeos) e geração de energia metabólica 
através de via metabólica específica (\u3b2-
oxidação de ácidos graxos); 
\u2022 Componentes das membranas celulares, 
juntamente com as proteínas (fosfolipí-
dios, esfingolipídios e colesterol); 
\u2022 Componentes de sistema de transporte de 
elétrons no interior da membrana mito-
condrial (umbiquinona); 
\u2022 Formam uma película protetora (isolante 
térmico) sobre a epiderme de muitos ani-
mais (tecido adiposo); 
\u2022 Funções especializadas como hormônios, 
sinalizadores celulares, antioxidantes. 
 
São vários os usos dos lipídios, seja na 
alimentação (óleos de grãos, margarina, man-
teiga, maionese), seja como produtos manufa-
turados (sabões, resinas, cosméticos, lubrifi-
cantes). Várias pesquisas nacionais recentes 
indicam os lipídios como importantes com-
bustíveis alternativos, como é o caso do óleo 
vegetal transestereficado que corresponde a 
uma mistura de ácidos graxos vegetais trata-
dos com etanol e ácido sulfúrico que substitui 
o óleo diesel, não sendo preciso nenhuma 
modificação do motor, além de ser muito me-
nos poluente e isento de enxofre. 
A única propriedade química comum 
aos lipídios é seu caráter hidrofóbico e a pre-
sença de uma extremidade na molécula que 
possui certa polaridade e que possibilita sua 
ligação com compostos polares, que vão tor-
nar possível seu transporte em meio solúveis. 
 Caracteriza-se na molécula dos lipí-
dios, assim, uma cabeça polar e uma cauda 
apolar, terminologia utilizada aqui exclusi-
vamente com objetivo didático (Figura 7-2). 
A cabeça polar é, geralmente, a carboxila 
(p.ex.: nos ácidos graxos), a hidroxila (p.ex.: 
no colesterol) ou outro composto polar (p.ex.: 
o grupamento fosfato nos fosfolipídios). A 
cauda apolar é todo o restante da molécula, 
formada, predominantemente de carbono e 
hidrogênio, podendo haver ou não duplas li-
gações (cadeia insaturada). 
 Os lipídios em solução aquosa tendem 
a agregar-se pela cauda apolar deixando a 
cabeça polar em contato com o meio aquoso, 
formando uma molécula globosa denominada 
micela que será tanto mais solúvel, quanto 
maior for a polaridade da cabeça polar. 
 
 
Figura 7-2 \u2013 Representação didática de uma molé-
cula de lipídio evidenciando a parte polar e a apolar 
de sua molécula. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 Vários arranjos micelares são possí-
veis, sendo a própria camada bi-lipídica das 
membranas celulares um produto deste arran-
jo (Figura 7-3). Os lipídios com a cabeça po-
lar com pouquíssima capacidade de solubili-
zação (p.ex.: os triglicerídeos, os ésteres do 
colesterol), necessitam, freqüentemente da 
adição de compostos emulsificantes (solubi-
lizantes de gorduras) para incrementar a for-
mação das micelas. Esses emulsificadores 
podem ser proteínas (lipoproteínas), carboi-
dratos (glicoproteínas) ou emulsificantes di-
gestivos (sais biliares). 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Figura 7-3 \u2013 Arranjo estrutural micelar dos lipídios em solução
aquosa. A) micela globosa; B) bicamada lipídica; C) bicamada
lipídica em forma de membrana separando dois ambientes lí-
quidos distintos. 
Ricardo Vieira 
Fundamentos de Bioquímica \u2013 Capítulo 7: Lipídios 81
 
Classificação 
 
 Devido a grande variabilidade estrutu-
ral dos lipídios, muitos tipos de classificações 
são propostas dependendo do ponto de vista, 
se químico ou biológico. 
Adotaremos uma classificação didáti-
ca que atende a ambos ponto de vistas, que 
agrupa os lipídios de acordo com a presença 
ou não de ácidos graxos em sua molécula. 
 Os lipídios que possuem ácidos gra-
xos (ácidos carboxílicos com grande cadeia 
carbonada) são saponificáveis, uma vez que 
reagem com bases fortes formando sabões. 
São lineares em sua maioria, podendo ser 
saturados ou insaturados. Possuem função 
energética e estrutural. São os acilgliceróis, 
fosfolipídios, esfingolipídios e ceras. 
Os lipídios que não possuem ácidos 
graxos em sua molécula, não são saponificá-
veis e não são energéticos. A maioria possui 
função estrutural ou especializada (hormô-
nios, vitaminas, anti-oxidantes), desempe-
nhando papel chave em várias vias metabóli-
cas. São os terpenos, esteróides e Eixosa-
nóides. 
 A seguir, passaremos a apresentar as 
principais características de cada tipo de lipí-
dios, a começar por aqueles que os caracteri-
zam, os ácidos graxos. 
 
Ácidos Graxos 
 
Os ácidos graxos são ácidos carboxíli-
cos de cadeia longa que pode ser saturada ou 
insaturada e quase sempre de número par de 
carbonos e de cadeia não linear. 
A grande freqüência de ácido graxos 
de número par de carbonos dá-se ao fato da 
síntese ocorrer por adição de acetil-CoA, que 
possui dois carbonos (ver Capítulo sobre me-
tabolismo lipídico). A maioria dos ácidos 
graxos são lineares, porém existem alguns, 
(principalmente de origem vegetal) que são 
ramificados, geralmente com grupamentos 
metil como ramificação (p.ex.: o fitol, com-
ponente da clorofila), mas são agrupados den-
tro de um grupo a parte denominados terpe-
nos, que serão estudados ainda neste capítulo. 
Outros ácidos graxos ramificados mais sim-
ples são sintetizados em animais, como é o 
caso do ácido isovalérico que está presente 
no aparelho auditivo de mamíferos marinhos 
Os ácidos carboxílicos