DELEUZE, Gilles - Clínica e Crítica
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DELEUZE, Gilles - Clínica e Crítica

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pensa-
mento oq.p1ovimento intensivo da alma: uma especie de tempo espi-
ritual e monaeal. a cogito de Descartes opera sua seculariza<;ao, sua
laiciza<;ao: 0 eu penso e urn ato de determina<;ao instantanea, que im-
phca uma existencia indeterrninada (eu sou) e que a deterrnina como
a de uma subsrancia pensante (eu sou uma coisa que pensa). Mas como
a determina<;ao poderia incidir sobre 0 indeterminado se nao se diz de
que maneira ele e &quot;deterrninavel&quot;? Ora, esse protesto kantiano nao
deixa outra saida: e somente no tempo, sob a forma do tempo, que a
existencia indeterrninada torna-se determinavel. Assim, 0 '''eu penso&quot;
afeta 0 tempo e s6 determina a existencia de urn eu que muda no tem-
po e apresenta a cada instante urn grau de consciencia. a tempo como
forma da determinabilidade nao depende, pois, do movimento inten-
sivo da alma, mas, ao contrario, a prodm;ao intensiva de urn grau de
consciencia no instante eque depende do tempo. Kant opera uma se-
gunda emancipa<;ao do tempo e completa sua laicidade.
o Eu [Moi] esta no tempo e nao para de mudar: e urn eu passi-
va, au antes, receptivo, que experimenta as mudan<;as no tempo. a
Eu Ue] e urn ato (eu penso) que determina ativamente minha existen-
cia (eu sou), mas s6 pode determina-Ia no tempo, como a existencia
de urn eu [moil passivo, receptivo e cambiante que representa para si
tao somente a atividade de seu proprio pensamento. a Eu e 0 Eu es-
tao, pois, separados pela linha do tempo que os reporta urn ao outro
sob a condi<;ao de uma diferen<;a fundamental. Minha existencia ja-
mais pode ser determinada como a de urn ser ativo e espontaneo, mas
como a de urn eu passivo que representa para si a Eu, isto e, a espon-
taneidade da determinac;ao, como urn Outro que 0 afeta (&quot;paradoxo
do sentido intimo&quot;). Edipo, segundo Nietzsche, define-se par uma ati-
tude puramente passiva, mas aqual se reporta uma atividade que se
prolonga para alem de sua mones. Com mais razao, Hamlet anuncia
seu carater eminentemente kantiano cada vez que se apresenta como
uma existencia passiva que, tal como 0 ator au 0 dormente, recebe a
atividade de seu pensamento como urn Outro, capaz, contudo, de dar-
Ihe urn poder perigoso que desafia a razao pura. E a &quot;metabulia&quot; de
Murphy em Beckett6. Hamlet nao e 0 homem do ceticismo ou da du-
vida, mas 0 homem da Crftica. Estou separado de mim mesmo pela
forma do tempo e, contudo, sou urn, pois 0 Eu afeta necessariamente
essa forma ao operar sua sintese, nao so de uma parte sucessiva aoutra,
mas a cada instante e porque 0 Eu e necessariamente <1fetado por ele
enquanto contido nessa forma. A forma do determinavel faz com que
o Eu determinado represente para si a determina<;ao como urn Outro.
Em suma, a loucura do sujeito corresponde ao tempo fora dos seus
gonzos. E como urn duplo afastamento do Eu e do Eu no tempo, que
os reporta urn ao outro, cose-os urn ao outro. E0 fio do tempo.
De certa maneira, Kant vai mais lange que Rimbaud, pois a gran-
de f6rmula deste s6 adquire toda a sua for<;a gra<;as a recorda<;6es es-
colares. Rimbaud da de sua formula uma interpreta<;ao aristotelica:
&quot;Tanto piar para a madeira que se descobre violino! ... Se 0 cobre des-
perta como clarim, a culpa nao e sua... &quot; Ecomo uma relaC;ao concei-
to-objeto, onde 0 conceito e uma forma em ato, mas 0 objeto uma
materia somente em potencia. Eurn molde, uma moldagem. Para Kant,
ao contrario, 0 Eu nao eurn conceito, mas a representac;ao que acom-
panha todo conceito; e 0 Eu nao e urn objeto, mas aquilo a que todos
s Nietzsche, Origine de fa tragedie, § 9.
6 Beckett, Murphy, Minuit, ch. VI, p. 85.
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os objetos se reportam como it varia,ao continua de seus proprios es-
tados suceSSlVOS e it modula,ao infinita de seus graus no instante. A
rela,ao conceito-objeto subsiste em Kant, mas encontra-se duplicada
pela relat;ao Eu-Eu, que constitui uma modulaqao, nao mais uma mol-
dagem. Nesse sentido, a distin,ao compartimentada das formas como
conceitos (clarim-violino), ou das materias como objetos (cobre-ma-
deira) da lugar it continuidade de urn desenvolvimento linear sem re-
torno que necessita do estabelecimento de novas re1a\6es formais (tem-
po) e da disposi,ao de urn novo material (fenameno); e como se em
Kant ja se ouvisse Beethoven e em breve a varia<;ao continua de Wagner.
~e 0 Eu determina nossa existencia como a de urn eu passive e
camblante no tempo, 0 tempo e essa rela,ao formal segundo a qual 0
espirito se afeta a si meSillO, au a maneira pela qual somas interior-
mente afetados por nos mesmos. 0 tempo, portanto, podera ser defi-
mdo como 0 Afeto de si por si, ou pelo menos como a possibilidade
formal ,de ser afetado por si mesmo. E nesse sentido que 0 tempo, como
forma Iffiutavel que ja nao podia ser definido pela simples sucessao,
aparece como a forma de interioridade (sentido intimo), ao passo que
o espac;o, que ja nao podia sef definido pela coexistencia au simul-
t~neidade, aparece por sua vez como forma de exterioridade, possibi-
hdade formal de ser afetado por outra coisa enquanto objeto exter-
~o. ~orma de interioridade nao significa simplesmente que 0 tempo e
mtenor ao espfrito, visto que 0 espa~o tambern 0 e. Forma de exte-
rioridade tampouco significa que 0 espa~o supoe &quot;outra coisa&quot;, visto
~ue e ele, ao contra.rio, que torna possfve1 toda representa~aode ob-
J~to~ como outros ou exteriores. Mas isso equivale a dizer que a exte-
nO~ldade comporta tanta imanencia (ja que 0 espa~o permanece in-
tenor ao meu espfrito) quanto a interioridade comporta transcenden-
cia (ja que meu espfrito em rela~ao ao tempo se encontra representa-
do como outro distinto de mim). Nao e0 tempo que nos e interior,
ou .ao menos ele nao nos e especialmente interior, nos e que somos in-
tenores ao tempo e, a esse titulo, sempre separados por ele daquilo que
nos determina afeta-lo. A interioridade nao para de nos escavar a nos
mes~os, de nos cindir a nos mesmos, de nos duplicar, ainda que nos-
sa umda~e permane,a. Uma duplica,ao que nao vai ate 0 fim, pois 0
tempo nao tern £tm, mas uma vertigem, uma oscilafiio que constitui 0
tempo, assim como urn deslizamento, uma flutua~aoconstitui 0 espa~o
ilimitado.
&quot;Que supHcio ser governado por leis que nao se conheceL.. Pois 0
cadter das leis tern necessidade assim do segredo sabre seu conteudo... &quot;
Kafka, A muralha da China
Vale dizer a lei, ja que leis que nao se conhecem quase nao se dis-
tinguem. A consciencia antiga fala das leis porque elas nos fazem conhe-
cer 0 Bern, ou 0 melhor em tais ou quais condi~oes: as leis dizem 0 que
eo Bern do qual elas decorrem. As leis sao urn &quot;segundo recurso&quot;, urn
representante do Bern num mundo abandonado pelos deuses. Quando
o verdadeiro Polftico esta ausente, deixa diretrizes gerais que os homens
devem conhecer para se conduzirem. As leis sao, pois, como a imita-
,ao do Bern em tal ou qual caso, do ponto de vista do conhecimento.
Ao contrario, na Critica da razclO pratica Kant opera a reversao
da rela~aoentre a lei e 0 Bern, e assim eleva a lei aunicidade pura e vazia:
o que diz a Lei esta bern, e 0 bern que depende da lei, e nao 0 inverso.
A lei como primeiro principio nao tern interioridade nem conteudo, ja
que todo conteudo a reconduziria a urn Bern do qual ela seria a imita~ao.
Ela epura forma e nao possui objeto, nem sensfvel nem mesmo inte1i-
gfvel. Ela nao nos diz 0 que epreciso fazer, mas a qual regra subjetiva
e preciso obedecer, seja qual for a nossa a,ao. sera moral toda a,ao cuja
maxima puder ser pensada sem contradi~ao como universal e cujo movel
so tiver como objeto essa maxima (por exemplo, a mentira nao pode
ser pensada como universal, visto implicar pelo menos algumas pessoas
que ne1a acreditam e que nao mentem ao acreditar). A lei se define,
portanto, como pura forma de universalidade. Nao nos diz qual obje-
to a vontade deve perseguir para ser boa, mas qual forma deve tomar
para ser