DELEUZE, Gilles - Clínica e Crítica
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DELEUZE, Gilles - Clínica e Crítica

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virada em Heidegger,
uma para tds, a outra para frente: Heidegger et les paroles de l'origine, Vrin, pp.
260-273.
1J Heidegger, Questions IV, "Temps et etre", Gallimard: "sem considera-
~ao pela metafisica", nem sequer "inten~ao de suped-la".
12 H. Bordillon, Preface, Pleiade II: Jarry "quase nunca utiliza 0 termo pa-
tafisica, entre 1900 e sua morte", salvo em textos que se referem a Ubu. (Desde
Etre et vivre, larry dizia: "0 Ser, subsupremo da Ideia, pois menos compreensivo
que 0 Possivel...", Pleiade I, p. 342).
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de uma possibilidade de ser - 0 aviao como possibilidade de voar em
todas as suas partes -, Jarry por sua vez considera a ciencia e a tecni-
ca como a ascensao de urn &quot;frer&quot;, au 0 desvelamento de tra<;ados que
correspondem as porencialidades ou virtualidades moleculares de to-
das as partes do obieto: a bicicleta, 0 quadro da biciclera constitui
precisamente urn excelente modelo atomico, vista ser constitufdo &quot;de
barras rfgidas articuladas e guidaos animados por urn d.pido movi-
menta de rotac;ao,,13. 0 &quot;bastao de fisica&quot; e0 eote ttenico por exce-
lencia que descreve 0 conjunto de suas linhas virtuais, circulares, re-
tilfneas, cfuzadas. Nesse sentido, a pataffsica ja comparta uma pode-
rosa tearia das ffiaquinas e ja ultrapassa as virtualidades do eote em
dire<;ao a possibilidade de ser (Ubu envia seus inventos recnicos a urn
escrit6rio cujo chefe e 0 Senhor Possivel), segundo uma tendencia que
culminara Com 0 Supermacho.
A tecnica planetaria epais 0 lugar de reviravoltas, convers6es
au viradas eventuais. A ciencia, com efeito, trata 0 tempo como varia-
vel independente; por isso as maquinas sao essencialmente maquinas
de explorar 0 tempo, &quot;tempom6vel&quot; mais do que locom6vel. Tendo
em vista esse carater tecnico, a ciencia primeiramente torna possivel
uma reversao patafisica do tempo: a sucessao das tres estases, pas-
sado, presente, futuro, da lugar aco-presenra au simultaneidade das
tres estases, ser do passado, ser do presente, ser do futuro. A presen-
<;a e 0 ser do presente, mas tambern 0 ser do passado e do futuro. A
itherniti, a iternidade, nao designa 0 eterno, mas a doa<;ao ou a
excre<;ao do tempo, a temporaliza<;ao do tempo tal como se efetua
simultaneamente nessas tres dimens6es (Zeit-Raum). Por isso a ma-
quina come<;a transformando a sucessao em simultaneidade, antes de
chegar aultima transforma<;ao &quot;em reversao&quot;, quando 0 ser do tem-
po em sua totalidade se converte em Poder-ser, em possibilidade de
ser enquanto Porvir. larry talvez se recorde de seu professor Bergson
quando retoma 0 tema da Dura<;ao, que ele primeiramente define por
uma imobilidade na sucessao temporal (conserva<;ao do passado),
depois como uma explora<;ao do futuro ou uma abertura do porvir:
&quot;A Dura<;ao e a transforma<;ao de uma sucessao em reversao - isto
e: 0 devir de uma memoria&quot;. Euma reconcilia<;ao profunda entre a
13 Cf. a defini~ao da patafisica, Faustroll: ciencia &quot;que atribui simbolicamente
aos lineamentos as propriedades dos objetos descritos por sua virtualidade&quot;. E La
Construction pratique: sobre 0 quadro, Pleiade I, pp. 739-740.
Maquina e a Dura<;ao14. Essa reversao constitui igualmente uma re-
viravolta na rela<;ao entre 0 homem e a maquina: nao s6 os indices
de ve10cidade virtual se invertem ao infinito, a bicicleta tornando-se
mais rapida que a trem, como na grande corrida do Supermacho, mas
a rela<;ao do homem com a maquina da lugar a uma rela<;ao da ma-
quina com 0 ser do homem (Dasein ou Supermacho), dado que 0 ser
do homem e rnais possante que a rnaquina e consegue &quot;carrega-la&quot;.
o Supermacho e esse ser do homem que ja nao conhece a disrin<;ao
entre homem e mulher, uma vez que a mulher inteira passou para a
maquina, sendo absorvida por e1a, e s6 0 homem sobrevem como
potencia celibataria ou poder-ser, emblema da cissiparidade, &quot;longe
dos sexos terrestres&quot; e &quot;0 primeiro do porvir&quot;15.
III. 0 ser se mostra, mas enquanto nao para de retrair-se (passa-
do); °Mais e Menos que ser advem, mas enquanto nao para de recuar,
de se possibilitar (futuro)16. Isto significa dizer que 0 ser nao se mos-
tra s6 no ente, mas em algo que mostra seu inevitavel retraimento; e 0
rnais e menos que ser, em alguma coisa que mostre sua inesgotave1
possibilidade. Esse alguma coisa, ou a Coisa, e 0 Signa. Com efeito,
se e verdade que a ciencia ou a tecnica ja contem uma possibilidade
de salva<;ao, continuam sendo incapazes de desdobra-la e~em de dar
lugar ao Belo e aArte, que ora prolongam a tecnica, coroando-a, como
nos gregos, ora a transmutam, a convertem. Segundo Heidegger, 0 ente
tecnico (a maquina) ja era mais que urn objeto, vista que fazia ascen-
der 0 fundo; mas 0 ente poetico (a Coisa, 0 Signo) e ainda mais, pois
14 La Construction pratique, que expoe 0 conjunto da teoria do tempo de
larry: eurn texto obscuro e muito belo, que deve ser relacionado tanto com Bergson
quanto com Heidegger.
15 Reportar-se a descril;ao das maquinas de larry, e a seu teor sexual, em
Les Machines cilibataires de Carrouges, Ed. Arcanes. Reportar-se igualmente ao
comenrario de Derrida, quando supoe que 0 Dasein segundo Heidegger compor-
ta uma sexualidade, porem irredutlvel adualidade que aparece no ente animal ou
humano (&quot;Difference sexuelle, difference ontologique&quot;, in Heidegger, L'Herne).
16 Segundo Heidegger, 0 retraimento nao concerne s6 ao ser, mas, num outro
sentido, ao Ereignis, ao acontecimento. (&quot;0 Ereignis e0 retraimento nao 56 en-
quanto destinar mas enquanto Ereignis&quot;, Temps et etre, p. 56). Sobre 0 Mais e 0
Menos, sobre 0 &quot;Menos-em-Mais&quot; e &quot;Mais-em-Menos&quot;, d. larry, Cesar-Antichrist,
Pleiade I, p. 290.
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faz sobrevir um mundo enquanto sem-fundo17. Nessa passagem da
ciencia para a arte, nessa reversao da ciencia em arte, Heidegger tal-
vez reencontre urn problema familiar ao fim do s;;culo XIX e que se
encontrava de maneira diferente em Renan, outro precursor bretao de
Heidegger, no neo-impressionismo, no proprio Jarry. Era igualmente
o caminho de Jarry quando desenvolvia sua tese extravagante sobre a
anarquia: no fazer-desaparecer, a anarquia so pode operar tecnicamen-
te, com maquinas, ao passe que larry prefere 0 estadio estetico do crime
e coloca Quincey acima de Vaillant18 . Em termos mais gerais, segun-
do larry, a maquina tecnica faz surgir linhas virtuais que reunem os
componentes atomicos do ente, ao passo que 0 signo poetico desdo-
bra todas as possibilidades ou potencias de ser que, reunidos em sua
unidade original, constituem &quot;a coisa&quot;. Sabemos que Heidegger iden-
tificara essa grandiosa natureza do signo com 0 Quadripartito, espelho
do mundo, quadratura do ane!, Cruz, Quadrante ou Quadro19. Mas
Jarry ja desdobrava 0 grande Ato heraldico dos quatro arautos, com
as blasonarias como espelho e organiza~ao do mundo, Perhinderion,
Cruz de Cristo ou Quadro da Bicicleta original, que assegura a passa-
gem da tecnica ao Poetico20 - e que apenas faltou a Heidegger reco-
nhecer no jogo do mundo e nas quatro veredas. Era 0 caso igualmen-
te do &quot;bastao de fisica&quot;; de maquina ou de engenho, torna-se a coisa
17 5 b d \u2022 . . do re as passagens a tecOica a arte, a arte sen 0 aparentada aessencia
da tecnica, ainda que completamente diferente; d. &quot;La Question de la technique&quot;,
Heidegger, Essais et conferences, pp. 45-47.
18 Cf. larry, Visions actuelles et futures e Etre et vie: 0 interesse de larry pela
anarquia e fortalecido por suas rela<;:6es com Laurent Tailhade e Feneon; mas ele
censura a anarquia por substituir &quot;a arte pela ciencia&quot; e par confiar a maquina
explosiva &quot;0 Gesto Belo&quot; (Pleiade I, sobretudo p. 338). Pode-se dizer que tambem
Heidegger ve na maquina nacional-socialista uma passagem em dire<;:ao aarte?
19 Heidegger, Essais et con(erences, &quot;La Chose&quot;, pp. 214-217 (Fedier verte
Das Geviert par cadre [&quot;quadro&quot;], e Marlene Zarader, par cadran [quadranre].
20 No teatro de Cesar-Antechrist,