DELEUZE, Gilles - Clínica e Crítica
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DELEUZE, Gilles - Clínica e Crítica

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a encena<;:ao do mundo e dada por bla-
sonarias, e a decora<;:ao, par escudos: 0 tema do Quadripartito aparece nitidamente
(Pleiade I, pp. 286-288). Em toda a obra de larry, a Cruz quadripartida aparece
COmo 0 grande signo. 0 valor da Bicicleta provem do fato de larry invocar uma
bicicleta original, atingida pelo esquecimento, cujo quadro e uma cruz, &quot;dois tu-
bas perpendicularmente brasonados urn sobre 0 outro&quot; (La Passion consideree
comme course de cote, Pleiade II, pp. 420-422).
portadora do signo artista, quando faz cruz consigo mesma &quot;a cada
quarto de cada uma de suas revolw;oes&quot;.
o pensamento de Jarry e antes de tudo teoria do Signo: 0 signo
nao designa nem significa, mas mostra... Eo mesmo que a coisa, porem
nao e identico a ela, mostra-a. Toda a questao esaber como e por que
o signo assim compreendido e necessariamente lingiiistico, ou melhor,
em quais condi<;oes e ole linguagem21 . A primeira condi<;ao e que se fa<;a
uma concep~ao poetica da linguagem, e nao tecnica ou cientifica. A
ciencia supoe a ideia de uma diversidade, torre de Babel das linguas,
em que seria preciso por ordem, apreendendo suas rela~6es virtuais.
Porem, ao comd.rio, em principio ca be considerar apenas duas Hnguas,
como se fossem unicas no mundo, uma viva e a outra morta, a segunda
trabalhando a primeira - aglutina<;oes na segunda inspirando surgi-
mentes ou ressurgimentos na primeira. Dir-se-ia que a lingua morta cria
anagramas na lingua viva. Heidegger atem-se estritamente ao alemao
e ao grego (ou ao alto-alemao): faz urn grego antigo ou urn alemao antigo
trabalharem 0 alemao atual, mas a fim de obter urn novo alemao... A
antiga lingua afeta a atual, que produz sob essa condi<;ao uma lingua
ainda por vir: as tres estases. 0 gregG antigo etornado em aglutina~6es
do tipo &quot;lego-digo&quot; e &quot;lego-coleto, recolho&quot;, de modo que 0 alemao
&quot;sagen-dizer&quot; recria &quot;sagan-mostrar ajuntando&quot;. Ou entao a aglutina~ao
&quot;lethe-o esquecimento&quot; e &quot;alethes-o verdadeiro&quot; produzira no alemao
a par obsedante &quot;velamento-desvelamento&quot;: 0 exemplo mais celebre.
Ou tambem &quot;chrao-cheir&quot; [tocar-a mao], quase bretao. Ou ainda 0
antigo saxao &quot;wuon&quot; (residir) em aglutina~ao com &quot;freien&quot; (poupar,
preservar) dara &quot;bauen&quot; (habitar em paz) a partir do senrido corrente
de &quot;bauen&quot; [construir]. Parece claro que Jarry nao procedia de modo
diferente: mas, embora invocasse com freqiiencia 0 grego, como 0 atesta
a Pataflsica, de preferencia fazia intervir no frances 0 latim, ou 0 frances
antigo, ou uma glria ancestral, ou talvez 0 bretao, para descobrir urn fran-
ces do futuro, que encontrava num simbolismo proximo a Mallarme e
a Villiers algo de analogo ao que Heidegger encontrara em Hiilderlin22.
21 Michel Arrive insisriu particularmente na teoria do signa em Jarry
(Introduction, Pleiade I).
22 Cf. Henri Behar, Les Cultures de larry, PUF (especialmente Cap. I sobre
a &quot;cultura celta&quot;). Ubu s6 da uma ideia restrita do estilo de larry: estilo de carater
suntuoso, tal como 0 que se ouve desde 0 inicio de Cesar-Antechrist nos tn~s Cristos
enos quatro Passaros de Ouro.
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~, II
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E injetado no frances, &quot;si vis pacem&quot; dara &quot;civil&quot;, e &quot;industria&quot;, &quot;1, 2,
3&quot;: contra a torre de Babel, s6 duas linguas, em que uma trabalha ou
intervem na outra para produzir a lfngua do futuro, Poesia por exce-
lencia que reluz singularmente na descri,ao das ilhas do Dr. Faustroll,
com suas palavras-musiea e suas harmonias sonoras23 .
Chegou ate n6s a noticia de que nem sequer uma etimologia de
Heidegger, nem mesmo Lethe e Alethes, era exata24 Mas sera que 0
problema esta bern colocado? Acaso todo criterio cientifico de eti-
mologia nao foi reeusado de antemao, em favor de uma pura e sim-
ples Poesia? Ede born rom dizer-se que se trata apenas de jogos de
palavras. Nao seria eontradit6rio esperar uma eorrec;ao lingiiistica
qualquer de urn projero que se propoe explicitamente superar 0 ente
cientifieo e teenico rumo ao ente poetico? Nao se trata de etimologia
propriamente dita, mas de operar aglurina,oes na outra-lingua a fim
de obter surgimentos em a-lingua. Nao e com a lingiiistiea que cabe
comparar empreendimentos como os de Heidegger ou larry, mas de
preferencia com os empreendimentos analogos de Roussel, Brisset ou
Wolfson. A diferen,a consiste no seguinte: Wolfson mantem a torre
de Babel e se utiliza de rodas as linguas menos de uma para constituir
a lingua do futuro na qual aquela deve desaparecer; Roussel, ao con-
tra.rio, emprega uma unica lfngua, mas nela eseava series hom6fonas,
como 0 equivalente de uma outra lfngua, que diria coisas inteiramen-
te diferentes com sons semelhantes; e Brisset se utiliza de uma lfngua
para dela extrair elementos silabicos ou f6nieos eventualmente presen-
tes em outras linguas, mas que dizem a mesma coisa e que formam por
sua vez a lingua secreta da Origem ou do Futuro. Jarry e Heidegger
tern ainda urn outro proeedimento, visto que operam em princfpio em
duas linguas, fazendo intervir na lingua viva uma morta, de modo a
transformar, transmudar a viva. Se chamamos elemento urn abstrato
capaz de receber valores muito variaveis, diremos que urn elemento
23 Convem reportar-se a um artigo de La Chandelle verte, &quot;Ceux pour qui
il n'y eut point de Babel&quot; (Pleiade II, pp. 441-443). larry resenha urn livro de Victor
Fournie cujo principio ele destaca: &quot;0 mesmo som ou a mesma silaba tern sempre
o mesmo sentido em todas as linguas&quot;. Mas larry, por sua vez, nao adota exata~
mente esse principio: como Heidegger, ele trabalha antes com duas linguas, uma
morta e uma viva, uma lingua do ser e uma lingua do ente, que nao se distinguem
realmente, porem nao deixam de ser eminentemente diferentes.
24 Cf. as analises de Meschonnic, Le Langage de Heidegger, PUF.
,
lingiifstico A vern afetar 0 elemento B de maneira a faze-Io produzir
urn elemento C. 0 afecto (A) produz na lingua corrente (B) uma espe-
cie de arrastamento, de gagueira, de tam-tam obsedante, como uma
repeti,ao que criasse incessantemente algo novo (C). Sob 0 impulso
do afecto, nossa lingua poe-se a turbilhonar e forma uma lingua do
futuro ao turbilhonar: pareceria uma lingua estrangeira, eterno re-
pisamento, mas que salta e pula. Patinamos na questao que gira, mas
esse torvelinho e 0 avan,o da lingua nova. &quot;Isto Ii gregG ou negro, Pai
Ubu?,,25. De urn elemento a outro, entre a lingua antiga e a atual que
por ela eafetada, entre a atual e a nova que se forma, entre a nova e a
antiga, distancias, vazios, preenehidos porem por vis6es imensas, ce-
nas e paisagens insensatas, desdobramento do mundo de Heidegger,
desfile das ilhas do Dr. Faustroll ou cadeia das gravuras da [evista
&quot;1'Ymagier&quot; .
Esta ea resposta: a lingua nao disp6e de signos, mas adquire-os
criando-os, quando uma lingua' age no interior de uma lingua&quot; para
nela produzir uma lingua''', lingua ins6lita, quase estrangeira. A pri-
meira injeta, a segunda gagueja, a terceira sobressalta. A lingua tor-
nou-se entao Signo, poesia, e ja nao se pode distinguir entre lingua,
fala au palavra. E a lingua nao esea em candi,oes de produzir em seu
seio uma lingua nova sem que toda a linguagem seja por sua vez con-
duzida a urn limite. 0 limite da linguagem e a Caisa em sua mudez-
a visao. A eoisa e 0 limite da linguagem, como 0 signa e a lingua da
coisa. Quando a lingua se escava girando na lingua, a lingua cumpre
por fim sua missao, 0 Signo mostra a Coisa e efetua a enesima poten-
cia da linguagem, pois
&quot;coisa alguma seja, ali ande a palavra falha&quot;26
2S larry, Almanach illustre du Pere Ubu, Pleiade I, p. 604.
26 Cita~ao frequente em Acheminement de la parole, Gallimard.
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Dioniso canta:
12.
MISTERIO DE ARIADNE SEGUNDO NIETZSCHE
&quot;Se prudente, Ariadne! ...
Tens pequenas orelhas, tenS minhas orelhas:
Poe at uma palavra sensata!
NaG e precise primeiro