DELEUZE, Gilles - Clínica e Crítica
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DELEUZE, Gilles - Clínica e Crítica

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se transforma,
converte-se no trovao de uma afirmar;ao pura, 0 modo polemico e
hidico de uma vontade que afirma e se poe a servir;o de urn excedente
da vida. 0 niilismo "vencido por si mesmo". Nossa inteiwao nao e
analisar tal transmutar;ao do niilismo, essa dupla conversao, mas s6
investigar como °mito de Ariadne 0 exprirne. Abandonada por Teseu,
Ariadne sente que Dioniso se aproxima. Dioniso-tauro e a afirmar;ao
pura e multipla, a verdadeira afirmar;ao, a vontade afirmativa; ele nada
carrega, nao se encarrega de nada, mas alivia tudo 0 que vive. Sabe
fazer aquilo que 0 hornem superior nao sabe: rir, brincar, dartr;ar, isto
e, afirrnar. Ele e 0 Leve, que nao se reconhece no homem, sobretudo
no hornem superior ou no heroi sublime, mas so no alem-do-homem,
no alem-do-her6i, em outra coisa que nao 0 homem. Era preciso que
Ariadne fosse abandonada por Teseu: "E este, com efeito, 0 segredo
da Alma: somente depois que 0 her6i a deixou, dela se acerca, em sonho
- 0 alem-do-her6i!"7 Sob a carfcia de Dioniso, a alma torna-se ati-
5 La Volante de puissance, Ed. Gallimard (rrad. ft. Bianquis), II, Livro 3, §
408.
6 ]eanmaire, Dionysos, Payor, p. 233.
7 Zarathoustra II, "Les Sublimes".
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va. Era tao pesada com Teseu, mas se alivia com Dioniso, descarregada,
adelga<;ada, al<;ada ao ceu. Sabe que aquilo que outrora acreditava ser
uma atividade nao passava de urn empreendimento de vinganc;a, des-
confianc;a e vigilancia (0 fio), reaC;ao da rna consciencia e do ressenti-
mento; e, mais profundamente, 0 que acreditava ser uma afirmac;ao
nao passava de urn disfarce, uma manifestac;ao do pesadume, uma
maneira de acreditar-se forte porque se carrega e se assume. Ariadne
compreende sua decepc;ao: Teseu nem sequer era urn verdadeiro grego,
mas antes uma especie de alemao - mesmo que 0 termo nao existisse
ainda- quando se pensava que se ia encontrar urn greg08. Mas Ariadne
compreende sua decep<;ao num momento em que ja deixou de preo-
cupar-se: Dioniso, que e urn verdadeiro grego, se aproxima; a Alma
torna-se ativa, ao mesmo tempo que 0 Espfrito revela a verdadeira
natureza da afirma<;ao. A can<;ao de Ariadne adquire entao todo 0 seu
sentido: transmuta<;ao de Ariadne diante da aproxima<;ao de Dioniso,
sendo Ariadne a Anima que agora corresponde ao Espfrito que diz sim.
Dioniso acrescenta uma ultima estrofe acanc;ao de Ariadne, que se tor-
na ditirambo. Conforme 0 metodo geral de Nietzsche, a can<;ao muda
de natureza e de sentido conforme quem a cante, 0 feiticeiro sob a
mascara de Ariadne, a propria Ariadne no ouvido de Dioniso.
Por que Dioniso tern necessidade de Ariadne, ou de ser amado?
Ele canta uma canc;ao de solidao, reclama uma noiva9. Eque Dioniso
e 0 deus da afirmac;ao; ora, e necessaria uma segunda afirmac;ao para
que a pr6pria afirma<;ao seja afirmada. E preciso que ela se desdobre
para poder redobrar. Nietzsche distingue claramente as duas afirma-
c;oes quando diz: &quot;Eterna afirmac;ao do ser, eternamente sou tua afir-
mac;ao,,10. Dioniso e a afirmac;ao do Ser, mas Ariadne e a afirmac;ao
da afirmac;ao, a segunda afirmac;ao ou 0 devir-ativo. Desse ponto de
vista, todos os simbolos de Ariadne mudam de sentido quando sao re-
feridos a Dioniso, em vez de serem deformados por Teseu. Nao so a
canc;ao de Ariadne deixa de ser a expressao do ressentimento para
tornar-se uma pesquisa ativa, uma questao que ja afirma (&quot; Quem es...
Ea mim que tu queres, a mim? A mim - totalmente?&quot;); mas ° labi-
8 Fragrnento de urn prefacio a Humain, trap humain, 10. Cf. tarnbem a in-
terven~ao de Ariadne em La Volonte de puissance, I, Livro 2, § 226.
9 Zarathoustra II, &quot;Le Chant de la nuit&quot;.
10 Dithyrambes dionysiaques, &quot;Gloire et eternite&quot;.
rinto ja nao e0 labirinto do conhecimento e da moral, 0 labirinto ja
nao e0 caminho tornado por quem, segurando 0 fio, vai matar 0 tou-
ro. 0 labirinto tornou-se 0 proprio touro branco, Dioniso-touro: &quot;Sou
o teu labirinto&quot;. Mais precisamente, 0 labirinto agora e a orelha de
Dioniso, a orelha labirintica. Ariadne precisa ter orelhas como as de
Dioniso, a fim de ouvir a afirmaC;ao dionisfaca, mas tambern precisa
responder a afirmac;ao ao ouvido do proprio Dioniso. Dioniso diz a
Ariadne: &quot;Tens pequenas orelhas, tens minhas orelhas, poe af uma
palavra sensata&quot;, sim. Ocorre ainda a Dioniso dizer a Ariadne, por
brincadeira: &quot;Por que tuas orelhas nao sao ainda mais 10ngas?&quot;11.
Dioniso the recorda assim seus erros, quando ela amava Teseu: acre-
ditava que afirmar era carregar urn peso, fazer como 0 asno. Na ver-
dade, porem, com Dioniso Ariadne adquiriu pequenas orelhas: a ore-
lha redonda, propkia ao eterno retorno.
o labirinto ja nao e arquitet6nico, tornou-se'sonoro e musical.
Schopenhauer definia a arquitetura em fun<;ao de duas for<;as, a de
sustentar e ser sustentado, suporte e carga, mesmo se tendem a con-
fundir-se. Mas a musica surge no p610 oposto, amedida que Nietzs-
che vai se separando do velho falsario, Wagner, 0 feiticeiro: ela e a Leve,
pura ausencia de gravidade12 Toda a hist6ria triangular de Ariadne
nao daria testernunho de uma leveza antiwagneriana, rnais 'proxima
de Offenbach e Strauss do que de Wagner? Cabe essencialmente a
Dioniso rnusico fazer danc;arem os tetos, oscilarem as vigas13 . Sem
duvida, tambern do lado de Apolo existe musica, bern como do de
Teseu; mas e uma musica que se distribui segundo os territorios, as
meios, as atividades, as etas: urn canto de trabalho, urn canto de mar-
cha, urn canto de danc;a, urn canto ao repouso, urn canto abebida, uma
cantiga de ninar... , quase pequenos &quot;refroes&quot;, cada urn com seu pro-
prio peso14. Para que a musica se libere sera preciso passar para 0 ou-
tro lad0, ali onde os territorios tremem au as arquiteturas desmoro-
nam, onde as etas se misturam, onde se desprende urn poderoso can-
11 Crepuscule des Idoles, &quot;Ce que les Allemands sont en train de perdre&quot;, 19.
12 Le Cas Wagner.
13 Cf. Marcel Detienne, Dionysos aciel ouvert, Hachette, pp. 80-81 (e Les
Bacchantes de Euripides).
14 Aos pr6prios anima is Zaratustra diz: 0 Eterno Retorno, &quot;voces ja fize-
ram disso urn refrao&quot; (III, &quot;Le Convalescent&quot;, § 2).
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to da Ter~a, 0 grande ritornelo que transmuta todas as toadas que leva
consigo e faz retornarl5. Dioniso jd nao conhece outra arquitetura se-
nao ados percursos e traietos.]a nao era proprio do lied sair do terri-
torio ao apelo ou ao sopro da Terra? Cada urn dos homens superiores
abandona seu dominio e se dirige rumo agruta de Zaratustra. Mas
s6 0 ditirambo se estende sobre a Terra e a esposa por inteiro. Dioniso
ja nao tern territ6rio porque por toda parte esta sobre a Terra16. 0
labirinto sonoro e 0 canto da Terra, 0 Ritornelo, 0 eterno retorno em
pessoa.
Mas por que opor os dois lados como 0 verdadeiro e 0 falso? Nao
se trata, em ambos os lados, da mesma potencia do falso, e nao sera
Dioniso urn grande falsario, 0 maior &quot;de verdade&quot;, 0 Cosmopolita?
Acaso nao e a arte a mais elevada potencia do falso? Entre 0 alto e 0
baixo, de urn lado a outro, ha uma diferenc;a consideravel, uma dis-
rancia que deve ser afirmada. Eque a aranha sempre refaz sua teia, e
o escorpiao nao deixa de picar; cada homem superior esta preso a
propria proeza, que ele repete como urn numero de circo (e exatamente
como 0 livro IV de Zaratustra esta organizado, amaneira de uma gala
dos Incomparaveis em Raymond Roussel, ou urn espetaculo de mario-
netes, uma opereta). Eque cada urn desses mimicos tern urn modelo
invariavel, uma forma fixa, que sempre podemos chamar de verdadeira,
embora ela seja tao ~'falsa&quot; quanto suas reprodw;6es. Ecomo 0 falsa-
rio em pintura: 0 que ele copia do pintor original e uma forma de-
terminavel tao falsa quanto as capias; 0 que ele deixa escapar e a me-
tamorfose ou a transforma~ao do original, a impossibilidade de atri-
buir-Ihe uma forma qualquer, em suma, a