DELEUZE, Gilles - Clínica e Crítica
85 pág.

DELEUZE, Gilles - Clínica e Crítica

Pré-visualização50 páginas
fazer existir, nao julgar. Se julgar e tao repugnante, naO :
porque tudo se equivale, mas ao contrario. p~rque tud? ?que val~ so
pode fazer-se e distinguir-se desafiando 0 JUlZO. ,Qual JUlZO de pento,
em arte poderia incidir sobre a obra futura? Nao temos por que Jul-
, d '
gar os demais existentes, mas sentir se eles nos con~em.?~ .esconvem,
isto e, se nOS trazem for~as ou entao nos remetem as rnlsenaS da g~er­
ra as pobrezas do sonho, aos rigores da organiza~ao. Como dlsse
S;inoza, eurn problema de·amor e 6dio, nao de juizo: "Minha alm~ e
meu corpo formam urn todo... 0 que minha alma a~a, :u ta~bem
amo 0 que minha alma odeia, eu odeio ... Todas as suns simpatlaS da
, , . ~. d ,,27
alma inumer:ivel, do mais amarg~OdlO ao arnor malS apalxona 0 .
Nao esubjetivisrno, pois colocar 0 problema nesses termoS de for~a,
e nao em outroS termos, j:i supera qualquer subjetividade.
-,
25 Kafka, citado por Canetti, p. 119: "Duas possibilidades, fazer-se infini-
tamente pequeno ou se-Io. A segunda seria 0 consumado, portanto a ina~ao; a
primeira, 0 come~o, portanto a a~ao". EDickens quem fez da miniaturiza~ao urn
procedimento literario (a rapariga enferma); Kafka retoma 0 procedimento em a
Processo, onde os dais policiais apanham dentro do armario como criancinhas em
a Castelo, quando as adultos se banham na selha e enlameiam as crian~as.
26 Lawrence, Apocalypse.
152 Gilles Deleuze
27 Lawrence, Etudes sur la litterature classique americaine, p. 217.
153
Critica e Clinica
16.
PLATAo, OS GREGOS
o platonismo aparece como doutrina seletiva, selet;ao dos pre-
tendentes, dos rivais. Tocla coisa au todo sef pretendem cerras quali-
dades. Trata-se de julgar da pertinencia ou da legitimidade das pre-
tensoes. A Ideia e colocada por Platao como aquilo que possui uma
qualidade em primeiro lugar (necessaria e universalmente); ela deve-
ni permitir, grac;as a algumas provas, determinar aquila que pos5ui a
qualidade em segundo lugar, em terceiro, conforme a natureza cia par-
ticipa<;ao. Tal e a doutrina do juizo. 0 pretendente legitimo e 0 parti-
cipante, aquele que possui em segundo lugar, aquele cuja pretensao e
validada pela Ideia. 0 platonismo e a Odisseia filos6fica que se pro-
longa no neoplatonismo. Ora, ele afronta a sofistica como seu inimi-
go, mas tambem como seu limite e seu dupla: por pretender tudo au
qualquer coisa, 0 sofista corre serio risco de confundir a selec;a.o, de
perverter 0 juIZQ.
Esse problema tern sua fonte na cidade. Por recusarem qualquer
transcendencia imperial barbara, as sociedades gregas, as cidades (mes-
rna no caso das tiranias) formam campos de imanencia. Estes sao preen-
chidos, povoados por sociedades de amigos, isto e, rivais livres, cujas
pretensoes entram a cada vez num agon de emulac;ao e se exercem nos -
dominios mais diversos: amor, atletismo, politica, magistraturas. Tal
regime acarreta, obviamente, uma importancia determinante da opi-
niao. Isso eparticularmente evidente no caso de Atenas e de sua de-
mocracia: autoctonia, philia, doxa sao os tres trac;os fundamentais e
as condi<;oes em que nasce e se desenvolve a filosofia. A filosofia pode
em espirito criticar esses trac;os, supera,-los, corrigi-Ios, mas continua
atrelada a eles. 0 fil6sofo grego invoca uma ordem imanente ao cos-
mos, como 0 mostrou Vernant. Ele se apresenta como 0 amigo da sa-
bedoria (e nao como urn sabio amaneira oriental). Propoe-se &quot;retifi-
car&quot;, tornar segura a opiniao dos homens. Sao essas as caracteristicas
que sobrevivem nas sociedades ocidentais, ainda que ai ganhem urn
novo sentido, e que explicam a permancia da filosofia na economia
154 Gilles Deleuze
j
de nosso muncio democd.tico: campo de imanencia do &quot;capital&quot;, 50-
ciedade dos irmaos ou dos c<tmaradas que cada revolw;ao invoca (e
livre concord:ncia entre irmaos), reino cia opiniao.
Mas 0 que pla-tao critica na democracia ateniense equ.e todo
mundo ai pretende nao importa 0 que. Donde seu ~emp~eendlme~t?
de restaurar criterios de selec;ao entre rivais. Ele se vera obngado a en~lr
urn novo tipa de transcendencia, ciiferente cia transce~dencia imper~al
au mitica (ainda que ao utilizar 0 mito Platao the atnbua uma func;ao
especial). Ted. de inventar uma transcendencia que ~e exerce e ~e en-
contra no proprio campo de imanencia: tal e0. sent1~o da teona das
Ideias. E a filosofia moderna nao cessani de segUlr Platao nesse aspecto:
reencontrar uma transcendencia no seio do imanente como tal. 0&quot; pr~­
sente envenenado do platonismo foi ter introduz.ido a. tra~~cendencl~
em filosofia, ter dado a transcendencia urn senndo fdosofIco plausl-
vel (triunfo do juizo de Deus). Esse empreendimenta entra em choque
com muitos paradoxos e aporias que concernem preclsamente ao es-
tatuto da doxa (Teeteto), a natureza da amizade e do amar (Banque-
te), a irredutibilidade de uma imanencia da Terra (Timeu) ..
Qualquer reac;ao contra 0 platonismo eurn rest~beleC1mento da
imanencia em sua extensao e em sua pureza, que prOlbe ~ retorno ~e
urn transcendente. A questao esaber se tal reac;ao ab~ndona 0 ~roJe­
to de selec;ao dos rivais, ou, ao contnlrio, co~o acredlt~vamSpmoza
Nietzsche estabelece metodos de selec;ao intelramente dIferentes: esteSe , d' .
nao incidem sobre as pretensoes como atos de transcen enCla, mas
sobre a maneira pela qual 0 existente se enche de imanencia (0 Eterno
Retorno, como a capacidade de alguma coisa ou de a:guem de retar-
nar eternamente). A selec;ao'nao recai sobre a pretensao, mas sobre a
potencia. A potencia emodesta, con'~raria~ente~ pre:en~ao.Na. ver-
dade, s6 escapam ao platonismo as fllosoflas da ImanenCla pura. dos
est6icos a Spinoza ou Nietzsche.
155
Critica e Clinica
17.
SPINOZA E AS TRES &quot;ETIeAS&quot;
&quot;Nao sou nenhum Spinoza para fazer piruetas no ar.&quot;
Tchekhov, La noce, Pleiade I, p. 618.
A primeira leitura, a Elica pode parecer urn longo movimento
~ontfnuo, que vai quase em linha feta, de 'uma potencia e serenidade
mcompanivei~,~ue passa e repassa pelas defini<;6es, axiomas, postu-
ladas, prOposH;oes, demonstra<;6es, coroIarios e esc6lios, arrastando
o to~~ em seu ~urso grandioso. E como urn rio que ora se alarga, ora
se dIvIde em IDI.t bra<;os; as vezes ganha velocidade, aurras desacelera,
mas sempre afIrmando sua unidade radical. E 0 latim de Spinoza,
ap~rentementee~col:r, pa~ece constituir 0 navia sem idade que segue
o no ererno. Porem, a medtda que as emo<;6es vao invadindo 0 leitor
au gra<;as a uma segunda leitura, essas duas impress6es revelam-s~
erroneas. Esse livro, urn dos maiores do mundo, nao e como se acre-
ditava inicialmente: nao e homogeneo, retiHneo, continuo, Sereno na-
vegavel, linguagem pura e sem estilo. '
A Etica apresenta tres elementos que constituem nao s6 conteu-
dos, ~as formas de expressao: os Signos ou afectos; as No<;6es ou
conceltos;, as Essencias ou perceptos. Correspondem aos tres generos
de conheCl~ento, que tamb~m sao modos de existencia e de expressao.
Urn slgno, segundo Spmoza, pode ter varios sentidos. Mas esem-
pre urn efeito. Urn efeito e, primeiramente, 0 vestigio de urn corpo sobre
urn outro, 0 estado de urn corpo que tenha sofrido a a<;ao de urn ou-
tro corpo: e uma afteclio - por exemplo, 0 efeito do sol em nosso Cor-
po, que &quot;indica&quot; a natureza do corpo afetado e &quot;envolve&quot; apenas a
natureza do corpo afetante. Conhecemos nossas afec<;6es pelas ideias
que temos, sensa<;6es ou percep<;6es, sensar6es de calor de cor per-
- d f &quot; ,
ceP5ao e orma e de disrancia (0 sol esta no alto, eurn disco de ouro,
esta a duzentos pes... ). Poderiamos chama-los, por comodidade, de
slgnos escalares, ja que exprimem nosso estado num momento do tem-
po e se distinguem assim de urn outro tipo de signos: eque 0 estado
atual sempre e urn corte de nossa dura<;ao e determina, a esse titulo,
urn aumento ou uma diminui<;ao, uma expansao ou uma restri<;ao de
nossa existencia na dura<;ao em rela~ao ao estado precedente, por mais
proximo que