Volume IX - Freu 5 lições - Leonardo Da Vinci - Amor
184 pág.

Volume IX - Freu 5 lições - Leonardo Da Vinci - Amor


DisciplinaPsicanálise20.658 materiais327.512 seguidores
Pré-visualização50 páginas
o oposto de qualquer idéia 
maternal.
As teorias sexuais infantis explicam-nos isso. Existe uma época em 
que o genital masculino é compatível com a imagem da mãe. Quando 
um menino começa a ter curiosidade pelos enigmas da vida sexual, 
fica dominado pelo interesse que tem pelo seu próprio genital. Passa a 
considerar essa parte de seu corpo valiosa e importantíssima para ele 
e crê que ela deve existir nas outras pessoas com as quais ele se acha 
parecido. Como não pode adivinhar a existência de outra conformação 
genital igualmente importante, é forçado a forjar a hipótese de que 
todos os seres humanos, tanto os homens quanto as mulheres, 
possuem um pênis igual ao seu. Este preconceito se torna de tal 
maneira imbuído no investigador infantil que não desaparece nem 
mesmo quando, pela primeira vez, chega a observar o genital das 
meninas. Sua percepção mostra-lhe que há alguma coisa diferente do 
que ele possui mas é incapaz de admitir que o conteúdo de sua 
percepção é que ele não pode encontrar um pênis nas meninas. A sua 
falta parece-lhe uma coisa sinistra e intolerável e procurando uma 
solução de compromisso chega à conclusão de que as meninas 
também possuem um pênis, somente que é ainda muito pequeno; e 
que, depois, ele crescerá. Mais tarde, quando percebe que isso não 
acontece, encontra outra explicação: as meninas também tinham um 
pênis, mas ele foi cortado e em seu lugar ficou apenas uma ferida. 
Este avanço teórico já implica experiências pessoais de caráter 
penoso: nesse intervalo o menino já terá ouvido ameaças de lhe 
cortarem o órgão que tanto preza, caso venha a demonstrar um 
interesse demasiadamente ostensivo por ele. Sob a influência dessa 
ameaça de castração, ele agora interpreta de modo diferente o 
conhecimento adquirido sobre os genitais femininos; daí em diante 
receará por sua masculinidade e, ao mesmo tempo, menosprezará as 
infelizes criaturas que já receberam o cruel castigo, conforme ele 
presume.
Antes de a criança ser dominada pelo complexo de castração \u2014 isto é, 
numa época em que a mulher ainda conserva para ela todo o seu valor 
\u2014 ela começa a exteriorizar um intenso desejo visual, como atividade 
erótica instintiva. Quer ver os genitais de outras pessoas, a princípio 
provavelmente para compará-lo com o seu próprio. A atração erótica 
que sente por sua mãe logo se transforma em um desejo pelo seu 
órgão genital, que supõe ser um pênis. Com a descoberta que fará, 
mais tarde, de que as mulheres não possuem pênis, este desejo 
muitas vezes se transforma no seu oposto, dando origem a um 
sentimento de repulsa que, na época da puberdade, poderá ser a 
causa de impotência psíquica, misoginia e homossexualidade 
permanente. Porém a fixação no objeto antes tão intensamente 
desejado, o pênis da mulher, deixa traços indeléveis na vida mental da 
criança, quando esta fase de sua investigação sexual infantil foi 
particularmente intensa. Um culto fetichista cujo objeto é o pé ou 
calçado feminino parece tomar o pé como mero símbolo substitutivo do 
pênis da mulher, outrora tão reverenciado e depois perdido. Sem o 
saber, os `coupeurs de nattes\u2018 desempenham o papel de pessoas que 
executam um ato de castração sobre o órgão genital feminino.
Enquanto as pessoas se mantiverem na atitude ditada pela nossa 
civilização de desprezo pelos órgãos genitais e pelas funções sexuais, 
não poderão absolutamente compreender as atividades da sexualidade 
infantil e provavelmente fugirão ao assunto afirmado ser incrível o que 
aqui dissemos. Para compreender a vida mental das crianças 
necessitamos recorrer a analogias encontradas nos tempos primitivos. 
Para nós, durante muitas gerações os genitais foram sempre as partes 
`pudendas\u2018, motivo de vergonha e até mesmo (devido a posterior 
repressão sexual bem sucedida) de repugnância. Se fizermos um 
histórico extenso da vida sexual de nossa época e sobretudo das 
classes que são o sustentáculo da civilização humana, seremos 
tentados a declarar que é a contragosto que a maioria daqueles que 
vivem nos dias de hoje obedecem à lei de propagar a espécie; 
sentem-se, nesse processo, diminuídos em sua dignidade humana. 
Entre nós, somente a classe menos culta de nossa sociedade difere 
desse ponto de vista sobre a vida sexual. Para a classe mais alta e 
refinada, ela constitui uma coisa que se oculta, desde que é 
considerada culturalmente inferior, e quando se permitem dar-lhe 
vazão, fazem-no contra a sua consciência. Nos tempos primitivos da 
raça humana, a concepção era diferente. Dados trabalhosamente 
compilados por estudiosos da civilização apresentam testemunho 
irrefutável de que primitivamente os genitais eram o orgulho e a 
esperança dos seres humanos; eram adorados como deuses e 
transmitiam a essência divina de suas funções a todas as novas 
atividades humanas. Como resultado da sublimação de sua natureza 
básica criaram-se inúmeras divindades: e quando a conexão entre a 
religião oficial e a atividade sexual se tornou oculta da consciência 
geral, cultos secretos se dedicavam a conservá-la viva entre um certo 
número de iniciados. Durante o decurso do desenvolvimento cultural 
tanta coisa divina e sagrada foi, em última essência, extraída da 
sexualidade, que o remanescente, quase esgotado, foi desprezado. 
Mas, dado o caráter indelével de todos os processos mentais, não é de 
admirar que mesmo as formas mais primitivas do culto genital 
existissem até bem pouco tempo e que a linguagem, os costumes e as 
superstições da humanidade de hoje contenham ainda remanescentes 
de todas as fases deste processo de desenvolvimento.
Notáveis analogias biológicas levam-nos a descobrir que o 
desenvolvimento mental do indivíduo repete, de modo abreviado, o 
processo do desenvolvimento humano; e as conclusões a que 
chegaram as pesquisas psicanalíticas acerca da mente infantil, 
referentes à importância concedida aos genitais na infância, não são 
tão inverossímeis. A hipótese infantil de que sua mãe tem um pênis 
será, portanto, a origem comum de que derivam tanto a mãe-deusa 
andrógina como a Mut egípcia, e a `coda\u2018 do abutre na fantasia infantil 
de Leonardo. Na verdade, ao classificar de hermafroditas, no sentido 
médico, essas representações de deuses, cometemos realmente uma 
impropriedade. Em nenhuma delas existe realmente a combinação dos 
genitais dos dois sexos \u2014 uma combinação que se observa em 
algumas malformações e que constituem uma deformação repulsiva; a 
única coisa que acontecia era que o órgão masculino era acrescentado 
as seios, que são a característica da mãe, como se dá também na 
representação infantil do corpo materno. Esta forma do corpo materno, 
criação reverenciada da fantasia primitiva, foi conservada fielmente 
pela mitologia. Podemos apresentar agora a seguinte interpretação da 
ênfase dada à cauda do abutre na fantasia de Leonardo: `Isso foi numa 
época em que a minha curiosidade afetuosa era toda dirigida à minha 
mãe, e que eu pensava ter ela um órgão genital igual ao meu.\u2019 
Constitui mais uma evidência das precoces pesquisas sexuais de 
Leonardo que, em nossa opinião, tiveram influência decisiva sobre toda 
a sua vida futura.
Neste ponto, um pouco de reflexão mostrará que não nos satisfaz 
ainda o modo pelo qual foi explicada a cauda do abutre na fantasia 
infantil de Leonardo. Parece haver nela alguma coisa mais que não 
conseguimos ainda compreender. A mais notável de todas elas foi ter 
sido transformado o ato de mamar no seio materno em ser 
amamentado, isto é, em passividade, portanto, numa situação cuja 
natureza é indubitavelmente homossexual. Quando nos lembramos da 
probabilidade histórica de Leonardo ter-se comportado em sua vida 
como uma pessoa emocionalmente homossexual, ocorre-nos 
perguntar se esta fantasia não indicaria a existência de uma relação 
causal entre as relações infantis de Leonardo com a mãe e sua 
posterior homossexualidade manifesta,