Volume IX - Freu 5 lições - Leonardo Da Vinci - Amor
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Volume IX - Freu 5 lições - Leonardo Da Vinci - Amor


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ainda que ideal [sublimada]. 
Não nos atreveríamos a inferir qualquer conexão dessa natureza da 
reminiscência confusa de Leonardo se não soubéssemos, pelos 
estudos psicanalíticos de pacientes homossexuais, que tal ligação 
existe de fato e é, na verdade, condição intrínseca e necessária.
Os homossexuais, que em nossos dias se têm defendido 
energicamente das restrições impostas por lei às suas atividades 
sexuais, gostam de ser apresentados, por intermédio de seus teóricos 
defensores, como pertencendo a uma espécie diferente, como um 
estágio sexual intermediário ou como um `terceiro sexo.\u2019 Eles se 
declaram homens inatamente compelidos, por disposições orgânicas, a 
achar prazer com outros homens, o que não conseguem com 
mulheres. Por maior que seja a nossa vontade, por motivos 
humanitários, de acatar suas declarações, devemos analisar as suas 
teorias com reservas, pois foram feitas sem levar em conta a gênese 
psíquica da homossexualidade. A psicanálise oferece meios para 
preencher essa lacuna e para testar as afirmativas dos homossexuais. 
Embora só tenha conseguido colher dados de um número reduzido de 
pessoas, todas as investigações empreendidas até agora produziram o 
mesmo resultado surpreendente. Em todos os nossos casos de 
homossexuais masculinos, os indivíduos haviam tido uma ligação 
erótica muito intensa com uma mulher, geralmente sua mãe, durante o 
primeiro período de sua infância, esquecendo depois esse fato; essa 
ligação havia sido despertada ou encorajada por demasiada ternura 
por parte da própria mãe, e reforçada posteriormente pelo papel 
secundário desempenhado pelo pai durante sua infância. Sadger 
chama atenção para o fato de as mães dos seus pacientes 
homossexuais serem muitas vezes masculinizadas, mulheres com 
enérgicos traços de caráter e capazes de deslocar o pai do lugar que 
lhe corresponde. Observei ocasionalmente a mesma coisa, porém me 
impressionei mais com os casos em que o pai estava ausente desde o 
começo, ou abandonara a cena muito cedo, deixando o menino 
inteiramente sob a influência feminina. Na verdade, parece que a 
presença de um pai forte asseguraria, no filho, a escolha correta de 
objeto, ou seja, uma pessoa do sexo oposto.
Depois desse estágio preliminar, estabelece-se uma transformação 
cujo mecanismo conhecemos mas cujas forças determinantes ainda 
não compreendemos. O amor da criança por sua mãe não pode mais 
continuar a se desenvolver conscientemente \u2014 ele sucumbe à 
repressão. O menino reprime seu amor pela mãe; coloca-se em seu 
lugar, identifica-se com ela, e toma a si próprio como um modelo a que 
devem assemelhar-se os novos objetos de seu amor. Desse modo ele 
transformou-se num homossexual. O que de fato aconteceu foi um 
retorno ao auto-erotismo, pois os meninos que ele agora ama à medida 
que cresce, são, apenas, figuras substitutivas e lembranças de si 
próprio durante sua infância \u2014 meninos que ele ama da maneira que 
sua mãe o amava quando era ele uma criança. Encontram seus 
objetos de amor segundo o modelo do narcisismo, pois Narciso, 
segundo a lenda grega, era um jovem que preferia sua própria imagem 
a qualquer outra, e foi assim transformado na bela flor do mesmo nome.
Considerações psicológicas mais profundas justificam a afirmativa de 
que um homem que assim se torna homossexual, permanece 
inconscientemente fixado à imagem mnêmica de sua mãe. Reprimindo 
seu amor à sua mãe, conserva-o em seu inconsciente e daí por diante 
permanece-lhe fiel. Quando parece perseguir outros rapazes e 
tornar-se seu amante, na realidade está fugindo das outras mulheres 
que o possam levar à infidelidade. Em casos individuais, a observação 
direta tem-nos permitido demonstrar que o homem que dá a impressão 
de ser sensível somente aos encantos de outros homens sente-se, na 
verdade, atraído pelas mulheres, como qualquer homem normal; mas 
em cada ocasião procura transferir imediatamente a excitação 
provocada pela mulher para um objeto masculino e, desse modo, 
repete incessantemente o mecanismo pelo qual adquiriu sua 
homossexualidade.
Estamos longe de querer exagerar a importância dessas explicações 
sobre a gênese psíquica da homossexualidade. É óbvio que elas 
discordam completamente das teorias adotadas pelos defensores dos 
homossexuais, mas sabemos também que não são bastante claras 
para chegar a uma conclusão definitiva sobre esse problema. Aquilo 
que, por motivos práticos, é geralmente chamado de 
homossexualidade poderá ser o resultante de uma variedade enorme 
de processos inibitórios psicossexuais; o processo particular que 
destacamos é, talvez, apenas um entre muitos outros e talvez 
corresponda a um único tipo de `homossexualidade\u2019. Devemos 
também admitir que o número de casos de homossexualismo deste 
tipo, em que podemos reconhecer as causas determinantes 
assinaladas por nós, é bem maior do que aqueles em que ele de fato 
se concretiza. Portanto, nós também não podemos negar a influência 
exercida por fatores constitucionais desconhecidos, aos quais 
geralmente se atribui toda a homossexualidade. Não teríamos tido 
motivo algum para entrar na gênese psíquica da forma de 
homossexualidade que estudamos se não houvesse um forte 
pressentimento de que Leonardo, cuja fantasia sobre o abutre foi o 
nosso ponto de partida, fosse, na verdade, um homossexual 
exatamente desse tipo.
Conhecem-se poucos detalhes sobre o comportamento sexual do 
grande artista e cientista, mas devemos crer na possibilidade de as 
afirmativas de seus contemporâneos não terem sido totalmente 
erradas. À luz de tais afirmativas, portanto, ele nos parece ter sido um 
homem cujas necessidades e atividades sexuais eram 
excepcionalmente reduzidas, como se uma aspiração mais elevada o 
houvesse colocado acima das necessidades animais comuns da 
humanidade. Haverá sempre uma dúvida quando se trata de saber se 
ele terá alguma vez procurado a satisfação sexual direta e, se o fez, de 
que maneira; ou teria ele prescindido completamente de qualquer ato 
dessa natureza? Achamos justo, no entanto, procurar nele também as 
forças emocionais que impulsionam outros homens imperativamente à 
prática do ato sexual; pois não podemos imaginar a vida mental de 
nenhum ser humano sem que tivesse havido em sua formação o 
desejo sexual em seu sentido mais amplo \u2014 libido \u2014 mesmo que tal 
desejo se tivesse afastado de sua finalidade original, ou fosse refreado, 
e não chegasse a exercer-se.
Não podemos esperar encontrar em Leonardo senão indícios de 
inclinação sexual não-transformada. Estes indícios, porém, apontam 
uma direção que nos faz reconhecer nele um homossexual. Sempre foi 
notório que ele somente admitia como alunos meninos e rapazes que 
fossem belos. Tratava-os com gentileza e consideração, tomava conta 
deles e, quando doentes, cuidava-os ele próprio como uma mãe cuida 
de seus filhos, e assim como o teria tratado a sua própria mãe. Como 
os escolhia pela beleza e não pelo talento, nenhum deles \u2014 Cesare da 
Sesto, Boltraffio, Andrea Salaino, Francesco Melzi e outros mais \u2014 
veio a tornar-se um pintor de importância. Geralmente não eram 
capazes de se libertar de seu mestre e, após a sua morte, 
desapareceram sem terem deixado qualquer marca definitiva na 
história da arte. Quanto a outros, como Luini e Bazzi, chamado 
Sodoma, cujos trabalhos lhes permitem classificar-se como seus 
discípulos, talvez jamais os tivesse conhecido pessoalmente.
Ser-nos-á provavelmente alegado que a conduta de Leonardo para 
com seus alunos nada tem a ver com motivos de ordem sexual, e que 
portanto não justifica deduções sobre a sua particular inclinação 
sexual. Respondendo a isso, gostaríamos de demonstrar, com o 
devido cuidado, que o nosso ponto de vista explica algumas 
características peculiares do comportamento do artista que de outro 
modo permaneceriam um mistério. Leonardo mantinha um diário onde 
fazia anotações com sua