Volume IX - Freu 5 lições - Leonardo Da Vinci - Amor
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Volume IX - Freu 5 lições - Leonardo Da Vinci - Amor


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letra miúda (escrevendo da direita para a 
esquerda) somente para seu próprio uso. É digno de nota que naquele 
diário ele tratava a si próprio na segunda pessoa. `Aprende a 
multiplicação de raízes com Mestre Luca.\u2019 (Solmi, 1908, 152). `Faze 
com que o Mestre d\u2019Abacco te ensine a quadratura do círculo.\u2019 (Loc. 
cit.) Ou, durante uma viagem: `Estou indo para Milão tratar de assuntos 
referentes a meu jardim\u2026 Manda fazer duas malas. Faze com que 
Boltraffio te mostre o torno e faze-o polir uma pedra. Deixa o livro para 
Mestre Andrea il Todesco.\u2019 (Ibid., 203) Ou, então, uma resolução de 
importância bem diversa: `Deves mostrar em teu tratado que a terra é 
uma estrela, como a lua ou coisa parecida, e assim provar a nobreza 
de nosso mundo.\u2019 (Herzfeld, 1906, 141.)
No referido diário, que, igual ao que acontece nos diários de outros 
mortais, muitas vezes comenta em poucas palavras os acontecimentos 
mais importantes do dia ou mesmo nem os menciona, existem algumas 
notas que, pela sua estranheza, são relatadas por todos os biógrafos 
de Leonardo. São apontamentos de pequenas quantias de dinheiro, 
gastas pelo artista \u2014 anotadas com uma precisão minuciosa como se 
houvessem sido feitas por um austero ou parcimonioso chefe de 
família. No entanto nada há sobre qualquer extravagância maior ou 
nenhuma evidência de que fizesse parte de sua natureza anotar 
sempre suas despesas. Uma destas anotações refere-se a uma capa 
nova que comprou para seu aluno Andrea Salaino:
Brocado de prata 15 lire 4 soldi
Enfeite de veludo vermelho 9 lire \u2014 soldi
Galões 9 soldi
Botões 12 soldi
Outra nota muito detalhada soma todas as despesas que fez por causa 
do mau caráter e do costume de furtar de outro aluno: `No dia vinte e 
um de abril de 1940 comecei este livro e recomecei o cavalo. Jacomo 
procurou-me no dia se Santa Madalena, em 1940: ele tem dez anos.\u2019 
(Nota à margem: `gatuno, mentiroso, egoísta, voraz.\u2019) `No segundo dia, 
mandei cortar-lhe duas camisas, um par de calças e uma jaqueta e, 
quando separei o dinheiro para o pagamento, ele o roubou de minha 
bolsa e jamais consegui fazê-lo confessar, embora tivesse certeza 
disso.\u2019 (Nota à margem: 4 lire\u2026\u2019) O relatório sobre as faltas do menino 
continua por aí a fora e termina com a demonstração das despesas: 
`No primeiro ano, uma capa, 2 lire; 6 camisas, 4 lire; 3 jaquetas, 6 lire; 
4 pares de meias, 7 lire; etc.\u2019
Os biógrafos de Leonardo não desejam de modo algum procurar a 
solução dos problemas mentais de seu personagem partindo de suas 
pequenas fraquezas e peculiaridades; e o comentário que 
habitualmente fazem sobre essas contas estranhas são para 
ressaltar-lhes a gentileza e a consideração para com os alunos. 
Esquecem-se de que o que carece de explicação não é o 
comportamento de Leonardo mas sim o fato de ter deixado, acerca 
dele, esses testemunhos. Como é impossível acreditar que seu motivo 
tenha sido deixar provas de sua bondade, devemos pressupor ter sido 
outra razão, de natureza afetiva, que o levou a fazer esses 
apontamentos. Será difícil adivinhar qual o motivo e nós nada 
poderíamos sugerir, não fora o fato de ter sido encontrado outro 
apontamento de despesas, entre os papéis de Leonardo, que 
esclarece essas estranhas notas, tão pouco importantes, sobre as 
roupas de seus alunos etc.: 
Despesas com o funeral de Caterina 27 florins
2 libras de cera 18 florins
Para o transporte e levantamento da cruz 12 florins
Essa 4 florins
Carregadores 8 florins
4 padres e 4 sacristãos 20 florins
Para soar o sino 2 florins
Para os escavadores 16 florins
Pela licença \u2014 para os funcionários 1 florim
Total 108 florins
Despesas anteriores
Médico 4 florins
Açúcar e castiçais 12 florins
Total 16 florins
Total completo 124 florins
O escritor Merezhkovsky é o único que nos diz quem foi essa Caterina. 
Baseado em duas breves notas ele concluiu que a mãe de Leonardo a 
pobre camponesa de Vinci, foi a Milão em 1493 para visitar seu filho, 
que tinha, então, 41 anos; que lá adoeceu e Leonardo a internou num 
hospital, e quando morreu foi homenageada por ele com esse custoso 
enterro.
Esta interpretação feita pelo escritos psicólogo não pode ser provada 
mas é tão verossímil e está tão de acordo com tudo o que conhecemos 
da atividade emocional de Leonardo, que não posso deixar de aceitá-la 
como correta. Ele conseguira sujeitar seus sentimentos ao domínio da 
pesquisa e reprimir a sua livre expressão; mas para si mesmo havia 
ocasiões em que o que suprimira forçava um meio de expressão. A 
morte da mãe, a quem tanto amara em certa época, foi uma delas. O 
que temos diante de nós nesses apontamentos sobre as despesas do 
enterro é a expressão, sob um disfarce quase irreconhecível, de sua 
tristeza pela morte da mãe. Ficamos pensando o porquê desse 
disfarce, e na verdade não o podemos entender se o consideramos um 
processo mental normal. Porém, processos semelhantes são por nós 
bem conhecidos nas condições anômalas da neurose, sobretudo na 
que é conhecida como `neurose obsessiva\u2019. Nestes casos podemos 
observar como a expressão de sentimentos intensos, que se haviam 
tornado inconscientes graças à repressão, é deslocada para ações 
triviais e às vezes mesmo tolas. A expressão desses sentimentos 
reprimidos foi de tal modo enfraquecida pelas forças que a eles se 
opõem, que seríamos levados a considerá-los insignificantes; mas a 
compulsão imperativa que leva a executar esse ato trivial revela a 
verdadeira força dos impulsos \u2014 força que se origina no inconsciente e 
que a consciência gostaria de negar. Somente comparando esta 
situação com a que ocorre na neurose obsessiva é que poderemos 
explicar as anotações de Leonardo relativas às despesas com o 
enterro de sua mãe. Em seu inconsciente, ele ainda se achava ligado a 
ela por sentimentos de matiz erótico, como acontecera em sua 
infância. A oposição que se originou na subseqüente repressão deste 
amor infantil não lhe permitiu reverenciar sua mãe em seu diário, de 
modo diferente e melhor. Mas o que emergiu como um compromisso 
desse conflito neurótico tinha de ser externado; e foi assim que esta 
anotação veio a fazer parte de seu diário e chegou ao conhecimento 
da posteridade como coisa ininteligível.
Não nos parece muito ousado aplicar às notas sobre as despesas com 
os alunos aquilo que descobrimos nas notas sobre o enterro. Seriam 
elas, portanto, outro testemunho dos esparsos remanescentes dos 
impulsos libidinais de Leonardo, que encontravam assim expressão, de 
maneira compulsiva e sob forma distorcida. Sob esse ponto de vista, 
sua mãe e seus alunos, que representavam a imagem de sua própria 
beleza infantil, haviam sido seus objetos sexuais \u2014 tanto quanto a 
repressão sexual que dominava sua natureza nos permite 
reconhecê-los \u2014 e a compulsão a anotar detalhadamente os seus 
gastos com eles revelava, desse modo estranho, seus conflitos 
rudimentares. Assim, pareceria que a vida erótica de Leonardo 
pertencia realmente ao tipo de homossexualidade cujo 
desenvolvimento psíquico conseguimos desvendar, e a emergência da 
situação homossexual em sua fantasia do abutre tornar-se-ia inteligível 
para nós; porque seu significado era exatamente o que já havíamos 
afirmado relativamente a esse tipo. Teríamos de traduzi-lo assim: `Foi 
através dessa relação erótica com minha mãe que me tornei um 
homossexual.\u2019
IV
Ainda não demos por terminada a análise da fantasia do abutre de 
Leonardo. Com palavras que tão claramente sugerem a descrição de 
um ato sexual (`e fustigou muitas vezes sua cauda contra meus 
lábios\u2019), Leonardo acentua a intensidade das relações eróticas entre 
mãe e filho. Da ligação desta atividade de sua mãe (o abutre) com a 
dominância da zona bucal, não será difícil adivinhar que a fantasia