Volume IX - Freu 5 lições - Leonardo Da Vinci - Amor
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Volume IX - Freu 5 lições - Leonardo Da Vinci - Amor


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um rosto como o de Mona Lisa esboçar-se na contextura de 
seus sonhos, parece convincente e merece ser acatada.
Vasari conta que `teste di femmine, che ridono\u2019 foi tema tratado em 
seus primeiros ensaios artísticos. Este trecho, do qual não 
necessitamos duvidar, já que nada pretende provar, está transcrito 
mais extensamente na versão de Schorn (19843, 3, 6): `Em sua 
juventude, modelou em barro algumas cabeças sorridentes de mulher, 
reproduzidas depois em gesso; e algumas cabeças de crianças, lindas 
como se houvessem sido modeladas por mãos de um mestre\u2026\u2019
Ficamos sabendo, assim, que ele começou sua carreira artística 
reproduzindo duas espécies de objeto; e estes infalivelmente nos 
fazem lembrar os dois tipos de objetos sexuais que deduzimos da 
análise de sua fantasia sobre o abutre. Se as lindas cabeças de 
criança eram a reprodução da sua própria pessoa, como ele era na sua 
infância, então as mulheres sorridentes nada mais seriam senão a 
reprodução de sua mãe Caterina, e começamos a suspeitar a 
possibilidade de que este misterioso sorriso era o de sua mãe \u2014 
sorriso que ele perdera e que muito o fascinou, quando novamente o 
encontrou na dama florentina.
O quadro de Leonardo mais próximo da Mona Lisa em ordem 
cronológica é o chamado `Sant\u2019Ana com Dois Outros\u2019, ou seja, 
Sant\u2019Ana com a Madona e o Menino. [Ver Frontispício.] Nele o sorriso 
leonardiano aparece evidente e lindo nas fisionomias de ambas as 
mulheres. Não é possível descobrir quanto tempo antes ou depois da 
Mona Lisa, Leonardo começou a pintar o quadro. Como os dois 
trabalhos o ocuparam durante anos, penso que podemos afirmar que o 
artista trabalhava em ambos ao mesmo tempo. Estaria mais de acordo 
com a nossa teoria admitirmos que foi a intensidade da concentração 
de Leonardo nas feições da Mona Lisa que o estimulou a criar a 
composição de Sant\u2019Ana como produto de sua imaginação. Porque, se 
é verdade que o sorriso de Gioconda lhe despertava recordações de 
sua mãe, fácil será compreender como isso o levou a criar uma 
glorificação da maternidade, e a restituir à sua mãe o sorriso que 
encontrara na nobre dama. Podemos, portanto, transferir o nosso 
centro de interesse do retrato da Mona Lisa para este outro quadro \u2014 
igualmente belo, e que hoje também se encontra no Louvre.
Sant\u2019Ana com sua filha e o neto é assunto que raramente foi tratado na 
pintura italiana. De qualquer modo, a composição de Leonardo difere 
enormemente de qualquer outra versão conhecida, segundo escreve 
Muther (1909, 1, 309):
`Alguns artistas como Hans Fries, Holbein, o velho, e Girolamo dai 
Libri, representaram Ana sentada ao lado de Maria, colocando o 
Menino entre as duas. Outros, como Jakob Cornelisz em seu quadro 
de Berlim, pintaram aquilo que realmente se poderia chamar de 
\u201cSant\u2019Ana com Dois Outros\u201d, em outras {#V11_P119}palavras, eles a 
representaram sustentando nos braços a figura menor de Maria, que 
por sua vez carrega no colo a figura menor ainda de Cristo menino. No 
quadro de Leonardo, Maria está sentada no colo de sua mãe e se 
debruça, com os braços estendidos para o Menino que brinca com um 
cordeirinho, talvez o tratando com pouca delicadeza. A avó apóia na 
cintura o braço visível e contempla o par com um sorriso de felicidade. 
A composição, na verdade, não aparenta muita naturalidade. O sorriso 
que paira nos lábios de ambas as mulheres, embora seja 
inegavelmente o mesmo da Mona Lisa, perdeu seu caráter estranho e 
misterioso; o que ele exprime aqui é sentimento íntimo e serena 
felicidade.
Depois de estudarmos o quadro por algum tempo, ocorre-nos 
subitamente a idéia de que somente Leonardo o poderia ter pintado 
assim como somente ele poderia ter criado a fantasia do abutre. O 
quadro contém a síntese da história de sua infância: os seus detalhes 
devem ser explicados relembrando as impressões mais pessoais da 
vida de Leonardo. Na casa de seu pai, ele encontrou não somente a 
sua boa madrasta Donna Albiera mas também a sua avó, mãe de seu 
pai, Monna Lucia, que \u2014 assim o supomos \u2014 foi para ele tão 
carinhosa quanto geralmente o são os avós. Essas circunstâncias 
podem muito bem ter influído para que representasse num quadro a 
imagem da criança vigiada pela mãe e pela avó. Outra característica 
evidente desse quadro é ainda mais significativa. Sant\u2019Ana, a mãe de 
Maria e a avó do Menino, que deveria ser uma matrona, é 
representada como um pouco mais madura e mais séria do que a 
Virgem Maria, porém ainda uma mulher jovem e de inalterável beleza. 
Na verdade, Leonardo deu ao Menino duas mães; uma que lhe 
estende os braços e outra no segundo plano; ambas deixando 
transparecer o sorriso bem-aventurado da alegria maternal. Essa 
característica do retrato sempre chamou a atenção daqueles que o 
descrevera. Muther, por exemplo, é de opinião que Leonardo nunca 
procurava pintar a velhice, com suas marcas e rugas, e por esse 
motivo pintou Ana também como uma mulher de radiante beleza. Mas 
será que nos poderemos satisfazer com esta explicação? Outros tem 
negado haver qualquer similaridade de idade entre mãe e filha. Mas a 
explicação dada por Muther mostra bem que a impressão que se tem 
de que Sant\u2019Ana foi pintada mais jovem provém mesmo do quadro e 
não constitui nenhuma invenção para justificar objetivo posterior. 
A infância de Leonardo teve característica igual à que o quadro 
reproduz. Teve duas mães: primeiro, sua verdadeira mãe Caterina, de 
quem o separaram quando tinha entre três e cinco anos; e depois uma 
madrasta moça e carinhosa, Donna Albiera, esposa de seu pai. Pela 
combinação dessa situação de sua infância com a outra que 
mencionamos acima (a presença da mãe e da avó) e pela composição 
que fez reunindo os três personagens numa unidade, o desenho de 
`Sant\u2019Ana com Dois Outros\u2019 veio a concretizar-se para ele. A figura 
maternal mais afastada do Menino \u2014 a avó \u2014 corresponde à primeira 
e verdadeira mãe, Caterina, tanto em sua aparência quanto em sua 
relação especial com o menino. O artista parece ter usado o sorriso 
bem-aventurado da Sant\u2019Ana para negar e encobrir a inveja que sentiu 
a pobre mulher quando foi obrigada a entregar o filho à sua rival 
nascida em berço mais nobre, assim como já lhe havia outrora 
entregado o pai.
Encontramos também uma confirmação, em outro trabalho de 
Leonardo, de nossa suspeita de que o sorriso de Mona Lisa del 
Giocondo havia despertado nele, já homem feito, a lembrança da mãe 
que tivera em sua 
Fig. 2.
primeira infância. Dessa época em diante, as madonas e as senhoras 
aristocráticas dos quadros italianos passaram a ser pintadas com a 
humilde inclinação da cabeça e sorrindo o estranho e bem-aventurado 
sorriso de Caterina, 
Fig. 3.
a pobre camponesa que dera à luz o magnífico filho cujo destino seria 
pintar, pesquisar e sofrer. 
Se Leonardo teve sucesso ao reproduzir nas feições de Mona Lisa a 
dupla significação contida naquele sorriso, a promessa de ternura 
infinita e ao mesmo tempo a sinistra ameaça (segundo a frase de Pater 
[ver em [1]]), manteve-se também fiel ao conteúdo de sua lembrança 
mais distante. Porque a ternura de sua mãe foi-lhe fatal; determinou o 
seu destino e as privações que o mundo lhe reservava. A violência das 
carícias evidentes em sua fantasia sobre o abutre eram muito naturais. 
No seu amor pelo filho, a pobre mãe abandonada procurava dar 
expansão à lembrança de todas as carícias recebidas e à sua ânsia 
por outras mais. Tinha necessidade de fazê-lo, não só para 
consolar-se de não ter marido mas também para compensar junto ao 
filho a ausência de um pai para acarinhá-lo. Assim, como todas as 
mães frustradas, substitui o marido pelo filho pequeno, e pelo precoce 
amadurecimento de seu erotismo privou-o de uma parte de sua 
masculinidade. O amor da mãe pela criança que ela mesma amamenta 
e cuida é muito mais profundo que o que sente, mais tarde, pela 
criança em seu período de crescimento.