Volume IX - Freu 5 lições - Leonardo Da Vinci - Amor
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Volume IX - Freu 5 lições - Leonardo Da Vinci - Amor


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Sforza, chamado II 
Moro, um homem ambicioso e amante do esplendor, diplomata astuto, 
porém de caráter inconsciente e em quem não se podia confiar. Na sua 
corte em Milão, Leonardo passou o período mais brilhante de sua vida, 
a seu serviço seu poder criador atingiu o mais alto grau de realização, 
como o atestam a Última Ceia e a estátua eqüestre de Francesco 
Sforza. Ele deixou Milão antes da desgraça de Ludovido Sforza, que 
morreu prisioneiro numa fortaleza na França. Quando teve a notícia do 
destino de seu patrono, Leonardo escreveu em seu diário: `O duque 
perdeu seu ducado, sua propriedade e sua liberdade, e nunca terminou 
nenhuma das obras que empreendeu.\u2019 É interessante, e sobretudo 
significativo, que ele fizesse ao seu patrão a mesma acusação que a 
posterioridade lhe viria fazer. Era como se quisesse fazer de alguém 
que pertencesse à categoria paternal, responsável por ter deixado 
suas obras inacabadas. Na verdade, não errou no que afirmou acerca 
do duque.
Se sua imitação do pai o prejudicou como artista, sua rebeldia contra 
ele foi a determinante infantil do que foi talvez uma realização 
igualmente sublime no campo da pesquisa científica. Segundo a 
comparação admirável de Merezhkovsky (1903, 348), era como um 
homem que despertara cedo demais, na escuridão, enquanto os outros 
ainda dormiam. Ele teve a coragem de fazer a declaração que contém 
a justificação de toda pesquisa independente: `Aquele que apela para 
a autoridade quando existe diferença de opinião, está fazendo mais 
uso da memória do que da razão.\u2019 Foi assim que se tornou o primeiro 
cientista natural moderno e uma abundância de descobertas e de 
idéias sugestivas recompensaram sua coragem de ter sido o primeiro 
homem, desde o tempo dos gregos, a indagar os segredos da natureza 
baseando-se unicamente na observação e em seu próprio julgamento. 
Mas quando ensinava que a autoridade deveria ser desprezada e que 
a imitação dos `antigos\u2019 deveria ser repudiada, e ao afirmar 
constantemente que o estudo da natureza era a fonte de toda verdade, 
não fazia senão repetir \u2014 na mais alta sublimação que o homem pode 
atingir \u2014 o ponto de vista resoluto que já se impusera ao menino, 
quando fitava atônito o mundo em redor. Se transformarmos 
novamente a abstração científica em experiência individual concreta, 
veremos que os `antigos\u2019 e a autoridade correspondem simplesmente a 
seu pai, e a natureza vem a ser novamente a mãe gentil e carinhosa 
que o amamentou. Na maioria dos seres humanos \u2014 tanto hoje como 
nos tempos primitivos \u2014 a necessidade de se apoiar numa autoridade 
de qualquer espécie é tão imperativa que o seu mundo se desmorona 
se essa autoridade é ameaçada. No entanto, Leonardo pôde dispensar 
esse apoio; não teria podido fazê-lo se nos primeiros anos de sua vida 
não tivesse aprendido a viver sem o pai. Sua ulterior investigação 
científica, caracterizada por sua ousadia e independência, pressupõe a 
existência de pesquisas sexuais infantis não inibidas pelo pai e 
representa uma prolongação das mesmas com a exclusão do elemento 
sexual.
Quando alguém, como aconteceu com Leonardo, escapa à intimidação 
pelo pai durante a primeira infância e rompe as amarras da autoridade 
em suas pesquisas, muito nos admiraríamos se continuasse sendo um 
crente, incapaz de se desfazer dos dogmas religiosos. A psicanálise 
tornou conhecida a íntima conexão existente entre o complexo do pai e 
a crença em Deus. Fez-nos ver que um Deus pessoal nada mais é, 
psicologicamente, do que uma exaltação do pai, e diariamente 
podemos observar jovens que abandonam suas crenças religiosas logo 
que a autoridade paterna se desmorona. Verificamos, assim, que as 
raízes da necessidade de religião se encontram no complexo parental. 
O Deus todo-poderoso e justo e a Natureza bondosa aparecem-nos 
como magnas sublimações do pai e da mãe, ou melhor, como 
reminiscência e restaurações das idéias infantis sobre os mesmos. 
Biologicamente falando, o sentimento religioso origina-se na longa 
dependência e necessidade de ajuda da criança; e, mais tarde, quando 
percebe como é realmente frágil e desprotegida diante das grandes 
forças da vida, volta a sentir-se como na infância e procura então 
negar a sua própria dependência, por meio de uma regressiva 
renovação das forças que a protegiam na infância. A proteção contra 
doenças neuróticas, que a religião concede a seus crentes, é 
facilmente explicável: ela afasta o complexo paternal, do qual depende 
o sentimento de culpa, quer no indivíduo quer na totalidade da raça 
humana, resolvendo-o para ele, enquanto o incrédulo tem de resolver 
sozinho o seu problema.
O caso de Leonardo não parece desmentir este ponto de vista relativo 
à religião. Enquanto vivo, foram-lhe feitas acusações de heresia e de 
apostasia contra o Cristianismo (o que, na época, significava a mesma 
coisa) que foram claramente descritas na primeira biografia que Vasari 
[1550] escreveu sobre ele. (Müntz, 1889, 292ss.) Na segunda edição 
(1568) de sua Vite, Vasari suprimiu estas observações. Devido à 
suceptibilidade enorme de sua época no tocante a questões religiosas, 
bem podemos compreender por que Leonardo, até mesmo em seus 
cadernos evitou qualquer comentário direto à sua posição face ao 
Cristianismo. Em suas pesquisas, jamais se deixou induzir em erro por 
influência dos relatos sobre a Criação, contidos nas Sagradas 
Escrituras; pôs em dúvida, por exemplo, a possibilidade de um dilúvio 
universal, e em geologia fez cálculos em termos de centenas de 
milhares de anos sem hesitação maior do que a dos homens dos 
tempos modernos.
Entre as suas `profecias\u2019 existem algumas que certamente teriam 
ofendido a sensibilidade de um crente cristão. Assim, por exemplo, em 
`Sobre o hábito de rezar defronte às imagens de santos\u2019:
`Os homens falarão com homens que nada percebem, que têm os 
olhos abertos mas que nada vêem; falarão com eles e não terão 
resposta; implorarão as graças daqueles que têm orelhas mas nada 
ouvem; acenderão luzes para quem é cego.\u2019 (Segundo Herzfeld, 1906, 
292.)
Ou, então, `Sobre o luto na Sexta-feira Santa\u2019:
`Em toda a Europa, inumeráveis povos chorarão a morte de um único 
homem que morreu no Oriente.\u2019 (ibid., 297.)
Sobre a arte de Leonardo, já foi dito que ele despiu as sagradas figuras 
de todos os vestígios de sua ligação com a Igreja, tornando-as 
humanas, para nelas representar grandes e belas emoções humanas. 
Muther o elogia por libertar-se do ambiente de decadência que 
prevalecia na época e por restituir ao homem o seu direito à 
sensualidade e à alegria de viver. Nas anotações que nos mostram 
Leonardo, entregue à sondagem dos grandes mistérios da natureza, 
há um número enorme de passagens onde ele manifesta a sua 
admiração pelo Criador, última causa de todos esses nobres segredos; 
mas nada existe que possa indicar que desejou manter relações 
pessoais com esse divino poder. As reflexões que encerram a profunda 
sabedoria dos últimos anos de sua vida exalam a conformação do 
homem que se entrega ao \u391\u3bd\u3b1\u3b3\u3ba\u3b7, às leis da natureza, e que 
nenhuma misericórdia espera da bondade ou da graça de Deus. 
Parece não haver dúvida de que Leonardo superou tanto a religião 
dogmática quanto a pessoal, e que afastou-se muito da concepção 
cristã do mundo, através do seu trabalho de pesquisa.
As descobertas, anteriormente mencionadas [ver a partir de [1]], que 
fizemos sobre o desenvolvimento da vida mental infantil, levam-nos a 
crer que no caso de Leonardo também as suas primeiras pesquisas na 
infância se orientaram para os problemas da sexualidade. Ele próprio 
se denuncia, sob disfarce transparente, ao relacionar sua ânsia de 
pesquisa à fantasia do abutre e ao destacar o problema do vôo das 
aves como assunto para o qual se sentia fatalmente impelido por uma 
série de circunstâncias. Um trecho sobremodo obscuro de suas 
anotações referentes ao vôo das aves, e que