Volume IX - Freu 5 lições - Leonardo Da Vinci - Amor
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Volume IX - Freu 5 lições - Leonardo Da Vinci - Amor


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círculo familiar, o fato de que a mãe, ao pertencer ao pai, 
torna-se parte inseparável da essência da mãe, e que a terceira 
pessoa injuriada não é outra senão o próprio pai. Pode-se observar a 
característica de supervalorizar a pessoa amada, e de considerá-la 
como única e insubstituível, por recair, também, naturalmente no 
contexto da experiência da criança, pois ninguém possui mais de uma 
mãe, e a relação com ela baseia-se em um acontecimento que não 
pode ser exposto a qualquer dúvida e nem pode ser repetido.
Se quisermos entender os objetos amorosos escolhidos pelo tipo que 
descrevemos como sendo, sobretudo, substitutos da mãe, então a 
formação de uma série deles, que parece contradizer tão 
positivamente a condição de ser fiel a um, pode também, agora, ser 
compreendida. Aprendemos pela psicanálise, em outros exemplos, que 
a noção de algo insubstituível, quando é ativa no inconsciente, muitas 
vezes surge como subdividida em uma série infindável: infindável pelo 
fato de que cada substituto, não obstante, deixa de proporcionar a 
satisfação desejada. É esta a explicação do desejo insaciável de fazer 
perguntas, demonstrado pelas crianças de certa idade: têm apenas 
uma simples pergunta a fazer, mas nunca chegam a formulá-la. Explica 
também a garrulice de certas pessoas atingidas pela neurose; vêem-se 
sob a pressão de um segredo que estão ansiosos por divulgar, mas 
que, apesar de todas as tentações, nunca revelam.
Por outro lado, a segunda precondição para amar \u2014 a condição de 
que o objeto escolhido deva se assemelhar a uma prostituta \u2014 parece 
se opor, energicamente, à derivação do complexo materno. O 
pensamento consciente do adulto apraz-se em considerar a mãe como 
uma pessoa de pureza moral inatacável; e poucas idéias são para ele 
tão ofensivas, quando partem de outros, ou sente como tão 
atormentadoras, quando surgem de sua própria mente, como a que 
proclama esse aspecto de sua mãe. No entanto, exatamente essa 
relação do contraste agudo entre a `mãe\u2019 e a `prostituta\u2019 nos animará a 
investigar a história do desenvolvimento desses dois complexos e da 
relação inconsciente entre os mesmos, já que, há muito tempo, 
descobrimos que o que, no consciente, se encontra dividido entre dois 
opostos, muitas vezes ocorre no inconsciente como uma unidade. A 
investigação leva-nos, então, de volta a uma época na vida do menino 
em que ele adquire conhecimento mais ou menos completo das 
relações sexuais entre os adultos, aproximadamente em torno dos 
anos da pré-puberdade. Partes brutais de informação que são 
indiscriminadamente destinadas a suscitar desprezo e rebeldia, agora, 
lhe comunicam o segredo da vida sexual e destroem a autoridade dos 
adultos, que parece incompatível com a revelação de suas atividades 
sexuais. O aspecto dessas descobertas, que afetam mais 
profundamente a criança recém-instruída, é a maneira em que são 
aplicadas a seus próprios pais. Essa aplicação é, muitas vezes, 
francamente rejeitada por ela, mais ou menos nestas palavras: `Seus 
pais e outras pessoas podem fazer coisas como esta entre si, mas 
meus pais, possivelmente, não podem fazê-las.\u2019
Como um corolário praticamente invariável desse esclarecimento 
sexual, o menino adquire, ao mesmo tempo, o conhecimento da 
existência de certas mulheres que praticam relações sexuais como um 
meio de vida e, que, por esse motivo, são mantidas no desprezo geral. 
O menino, ele próprio, se encontra, evidentemente, longe de sentir 
esse desprezo: tão logo aprende que ele também pode ser iniciado por 
essas infelizes na vida sexual, que até então ele aceitava como 
estando exclusivamente reservadas para `a gente grande\u2019, ele, apenas, 
as considera como um misto de desejo e horror. Quando, depois disto, 
já não pode mais nutrir qualquer dúvida que tornem seus pais uma 
exceção às normas universais e odiosas da atividade sexual, diz-se a 
si próprio, com lógica cínica, que a diferença entre sua mãe e uma 
prostituta não é afinal tão grande, visto que, em essência, fazem a 
mesma coisa. A informação esclarecedora que recebeu, despertou, de 
fato, traços de lembrança das impressões e desejos de sua tenra 
infância que, por sua vez, levaram à reativação de certos impulsos 
psíquicos. Ele começa a desejar a mãe para si mesmo, no sentido com 
o qual, há pouco, acabou de se inteirar, e a odiar, de nova forma, o pai 
como um rival que impede esse desejo; passa, como dizemos, ao 
controle do complexo de Édipo. Não perdoa a mãe por ter concedido o 
privilégio da relação sexual, não a ele, mas a seu pai, e considera o 
fato como um ato de infidelidade. Se esses impulsos não desaparecem 
rapidamente, não há outra saída para os mesmos, senão seguir seu 
curso através de fantasias que têm por tema as atividades sexuais da 
mãe, nas mais diversas circunstâncias; e a tensão conseqüente leva, 
de maneira particularmente rápida; a buscar alívio na masturbação. 
Como resultado da ação combinada, constante, de duas forças 
impulsivas, desejo e sede de vingança, as fantasias acerca da 
infidelidade da mãe são, de longe, as que prefere; o amante com o 
qual ela comete o ato de infidelidade, quase sempre exibe as feições 
do próprio ego do menino, ou, mais extamente, de sua própria 
personalidade idealizada, adulta e, assim, elevada ao nível do pai. O 
que, em outra parte descrevi como o `romance familiar\u2019 comprende as 
várias ramificações dessa atividade imaginativa e a maneira pela qual 
elas se entrelaçam com os diversos interesses egoístas desse período 
da vida.
Agora que adquirimos a compreensão dessa parte do desenvolvimento 
psíquico, já não podemos mais considerar contraditório e 
incompreensível que a precondição de que a pessoa amada se 
assemelhe a prostituta derive diretamente do complexo materno. O tipo 
de amor masculino que descrevemos tem os traços dessa evolução e é 
fácil de compreender como uma fixação das fantasias formadas pelo 
menino na puberdade \u2014 fantasias que, afinal, mais tarde, encontraram 
vazão na vida real. Não é difícil admitir que a prática assídua da 
masturbação durante os anos da puberdade desempenhou seu papel 
na fixação das fantasias.
A ânsia de salvar a pessoa amada parece conduzir a uma relação, 
apenas, vaga e superficial, e plenamente explicada por motivos 
conscientes, com essas fantasias que acabaram por dominar o amor 
do homem na vida real. Devido a sua propensão a ser volúvel e infiel, a 
pessoa amada se coloca em situações perigosas e, assim, é 
compreensível que o amante tenha de se esforçar para protegê-la 
contra esses perigos, vigiando-lhe a virtude e combatendo-lhe as 
tendências más. Entretanto, o estudo das lembranças encobridoras 
das pessoas, fantasias e sonhos noturnos, revela que deparamos, 
aqui, com uma `racionalização\u2019 especialmente oportuna de um motivo 
inconsciente, um processo que pode ser comparado à elaboração 
secundária bem- sucedida de um sonho. No fato real, o 
`tema-salvamento\u2019 tem um significado e um histórico próprios, e é um 
derivativo independente do complexo materno ou, mais exatamente, do 
complexo parental. Quando a criança ouve dizer que deve sua vida aos 
pais, ou que sua mãe lhe deu a vida, seus sentimentos de ternura 
aliam-se a impulsos que lutam pelo poder e pela independência, e 
geram o desejo de retribuir essa dádiva aos pais e de compensá-los 
com outra de igual valor. É como se o desafio do menino o fizesse 
dizer: `Não quero nada de meu pai; devolver-lhe-ei tudo quanto gastou 
comigo. Ele cria, então a fantasia de salvar o pai de perigo e de 
proteger-lhe a vida; desse modo ajusta as contas com ele. Essa 
fantasia, via de regra, é muito deslocada em direção a um imperador, 
rei ou outro grande homem; depois de haver sido assim destorcida 
torna-se admissível à consciência, e pode até ser utilizada pelos 
escritores de ficção. Nessa aplicação ao pai do menino, o sentido 
desafiador da idéia de salvamento é de longe