Volume IX - Freu 5 lições - Leonardo Da Vinci - Amor
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Volume IX - Freu 5 lições - Leonardo Da Vinci - Amor


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As mulheres vivem com mulheres, os homens, com 
homens; a vida de família, como a entendemos, parece quase não 
existir em muitas tribos primitivas. Esta separação vai às vezes tão 
longe que não se permite a um sexo pronunciar em voz alta os nomes 
próprios dos membros do outro sexo e as mulheres criam uma 
linguagem com um vocabulário especial. As necessidades sexuais 
podem, de tempos a tempos, derrubar novamente essas barreiras de 
separação mas, em algumas tribos, mesmo os encontros entre marido 
e mulher têm de se realizar fora de casa e às escondidas.
Toda vez que o homem primitivo tem de estabelecer um tabu, ele teme 
algum perigo e não se pode contestar que um receio generalizado das 
mulheres se expressa em todas essas regras de evitação. Talvez este 
receio se baseie no fato de que a mulher é diferente do homem, 
eternamente incompreensível e misteriosa, estranha, e, portanto, 
aparentemente hostil. O homem teme ser enfraquecido pela mulher, 
contaminado por sua feminilidade e, então, mostra-se ele próprio 
incapaz. O efeito que tem o coito de descarregar tensões e causar 
flacidez pode ser o protótipo do que o homem teme; e a representação 
da influência que a mulher adquire sobre ele através do ato sexual, a 
consideração que ela em decorrência do mesmo lhe exige pode 
justificar a ampliação desse medo. Em tudo isso, não há nada 
obsoleto, nada que não permaneça ainda vivo em nós mesmos.
Muitos estudiosos das raças primitivas, que ainda vivem hoje, 
formularam a teoria de que seus impulsos no amor são relativamente 
fracos e nunca atingem o grau de intensidade que estamos 
acostumados a encontrar nos homens civilizados. Outros observadores 
contestaram esta opinião, mas, de qualquer modo, a prática de tabus, 
que descrevemos, testemunha a existência de uma força que se opõe 
ao amor pela rejeição de mulheres por serem estranhas e hostis.
Crawley, numa linguagem que difere apenas ligeiramente da 
terminologia habitual da psicanálise, afirma que cada indivíduo é 
separado dos demais por um `tabu de isolamento pessoal\u2019 e que 
constitui precisamente as pequenas diferenças em pessoas que, 
quanto ao resto, são semelhantes, que formam a base dos 
sentimentos de estranheza e hostilidade entre eles. Seria tentador 
desenvolver essa idéia e derivar desse `narcisismo das pequenas 
diferenças\u2019 a hostilidade que em cada relação humana observamos 
lutar vitoriosamente contra os sentimentos de companheirismo e 
sobrepujar o mandamento de que todos os homens devem amar ao 
seu próximo. A psicanálise acredita que descobriu grande parte do que 
fundamenta a rejeição narcísica das mulheres pelos homens, a qual 
está tão entremeada com o desprezo por elas, ao chamar a atenção 
para o complexo da castração e sua influência sobre a opinião em que 
são tidas as mulheres.
Podemos ver, no entanto, que estas últimas considerações nos 
levaram a pesquisar muito além do nosso tema. O tabu geral das 
mulheres não deita nenhuma luz sobre as regras especiais em relação 
ao primeiro ato sexual com a virgem. No que lhes diz respeito, não 
fomos além das duas primeiras explicações, baseadas no horror ao 
sangue e no medo das primeiras ocorrências e, mesmo estas, 
devemos assinalar, não vão ao âmago do tabu em questão. É 
perfeitamente claro que a intenção que motiva este tabu é negar ou 
repudiar precisamente o futuro marido, o que não pode ser dissociado 
do primeiro ato sexual, muito embora, de acordo com nossas 
observações preliminares, exatamente essa relação levaria a mulher a 
se tornar especialmente ligada a esse único homem.
Não nos cabe nesta oportunidade examinar a origem e a significação 
definitiva das observâncias de tabus. Fi-lo em meu livro Totem and 
Taboo (Totem e Tabu) [1912-13], em que dediquei a devida 
consideração ao papel desempenhado pela ambivalência primitiva na 
determinação da formação de tabus e em que delineei a gênese dos 
mesmos nos acontecimentos pré-históricos que levaram à fundação da 
família humana. Já não podemos mais reconhecer uma significação 
original desta espécie nos tabus observados entre tribos primitivas de 
nossos dias. Esquecemos tudo muito facilmente, na expectativa de 
encontrar alguma coisa que, mesmo os povos mais primitivos 
existentes em uma cultura muito distante daquela dos tempos 
primevos, a qual é tão velha quanto a nossa própria cultura, do ponto 
de vista do tempo e, como a nossa, corresponde a um estágio de 
desenvolvimento posterior, embora diferente.
Hoje, encontramos, entre os povos primitivos, tabus já elaborados em 
um sistema complicado exatamente da mesma espécie dos que os 
neuróticos de nosso meio desenvolvem com suas fobias e observamos 
velhos temas substituídos por novos que se adaptam uns aos outros 
de forma harmoniosa. Deixando de lado esses problemas genéticos, 
então, podemos voltar ao conceito de que o homem primitivo institui 
um tabu quando teme algum perigo. De modo geral, esse perigo é de 
natureza física, pois o homem primitivo, a essa altura, não é impelido a 
estabelecer duas distinções que, para nós, não podem ser ignoradas. 
Ele não separa o perigo material do psíquico, nem o real do imaginário. 
Em sua concepção animista do universo consistentemente aplicada, 
todo perigo decorre da intenção hostil de algum ser dotado de alma 
como ele próprio, e isto se aplica tanto aos perigos que o ameaçam, 
procedentes de alguma força natural, como aos perigos procedentes 
de outros seres humanos ou animais. Mas, por outro lado, ele está 
acostumado a projetar seus próprios impulsos internos de hostilidade 
no mundo exterior, isto é, a atribuí-los aos objetos que sente como 
desagradáveis ou mesmo, meramente, estranhos. Desta maneira, as 
mulheres também são consideradas como sendo desses perigos, e o 
primeiro ato sexual com a mulher destaca-se como um perigo de 
especial intensidade.
Eu, por exemplo, acredito que encontraremos alguma indicação sobre 
o que é esse perigo intensificado e por que ele ameaça, precisamente, 
o futuro marido, se examinarmos mais detidamente o comportamento, 
nas mesmas circunstância, de mulheres de nosso próprio estágio atual 
de civilização. Submeter-me-ei antecipadamente como resultado desse 
exame, que tal perigo realmente existe, de modo que, no caso do tabu 
da virgindade, o homem primitivo está se defendendo de um perigo 
corretamente pressentido, apesar de psíquico.
Consideramos como reação normal que a mulher, em subseqüência à 
introdução do pênis, abrace o homem, apertando-o contra ela no auge 
da satisfação, e observamos essa atitude como expressão de sua 
gratidão e prova de sujeição duradoura. Mas sabemos que não é regra, 
de maneira alguma, que a primeira ocasião do ato sexual conduza a 
esse comportamento; muito freqüentemente significa apenas 
desapontamento para mulher, que permanece fria e insatisfeita e, 
geralmente, requer bastante tempo e freqüente repetição do ato 
sexual, antes que também comece a encontrar satisfação no mesmo. 
Há uma sucessão ininterrupta dos casos de simples frigidez inicial que 
logo desaparece, até a triste manifestação de permanente e obstinada 
frigidez que nenhum esforço carinhoso da parte do marido pode 
vencer. Acredito que essa frigidez nas mulheres ainda não é 
suficientemente compreendida e, exceto para aqueles casos que 
devem ser atribuídos à potência insuficiente do homem, clama por 
elucidação, possivelmente através de fenômenos coligados.
Não quero introduzir, a esta altura, as tentativas \u2014 que são freqüentes 
\u2014 de fugir da primeira ocasião de relação sexual, porque estão abertas 
a diversas interpretações e são, na maioria das vezes, conquanto nem 
sempre, compreendidas como expressão da tendência geral feminina a 
tomar uma atitude defensiva. Em oposição a este conceito, acredito 
que se pode esclarecer o enigma da frigidez da mulher por 
determinados casos patológicos nos quais, depois da primeira, e por 
certo,