Volume IX - Freud
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Volume IX - Freud


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Os cerimoniais neuróticos consistem em pequenas alterações em 
certos atos cotidianos, em pequenos acréscimos, restrições ou 
arranjos que devem ser sempre realizados numa mesma ordem, ou 
com variações regulares. Essas atividades, meras formalidades na 
aparência, afiguram-se destituídas de qualquer sentido. O próprio 
paciente não as julga diversamente, mas é incapaz de renunciar a 
elas, pois a qualquer afastamento do cerimonial manifesta-se uma 
intolerável ansiedade, que o obriga a retificar sua omissão. Tão triviais 
quanto os próprios atos cerimoniais são as ocasiões e as atividades 
ornamentadas, complicadas e sempre prolongadas pelo cerimonial \u2014 
por exemplo, vestir e despir-se, o ato de deitar-se ou de satisfazer as 
necessidades fisiológicas. O cerimonial é sempre executado como se 
tivesse de obedecer a certas leis tácitas. Tomemos, por exemplo, um 
cerimonial relativo ao ato de deitar-se: a cadeira deve ficar numa 
determinada posição ao lado da cama, as roupas colocadas sobre a 
mesma numa determinada ordem, o cobertor preso embaixo do 
colchão e o lençol bem esticado, os travesseiros arrumados de 
maneira especial, e o corpo da pessoa deve adotar uma posição bem 
determinada. Só depois disso tudo ela poderá dormir. Em casos leves, 
o cerimonial parece ser nada mais do que a intensificação de hábitos 
ordeiros muito justificáveis; é a especial consciência que cerca sua 
execução e a ansiedade que surge com qualquer falha que lhe dão o 
caráter do \u2018ato sagrado\u2019. Em geral se suporta mal qualquer interrupção 
no cerimonial, sendo quase sempre excluída a presença de outras 
pessoas durante sua realização.
Toda atividade pode converter-se em um ato obsessivo, no sentido 
mais amplo do termo, se for complicada por pequenos acréscimos ou 
se adquirir um caráter rítmico através de pausas e repetições. Não 
esperemos encontrar uma distinção nítida entre \u2018cerimoniais\u2019 e \u2018atos 
obsessivos\u2019. Em geral os atos obsessivos derivam-se de cerimoniais. 
Além desses, o conteúdo do distúrbio abrange proibições e 
impedimentos (abulias), que na realidade apenas levam adiante o 
trabalho dos atos obsessivos, portanto algumas coisas são 
completamente vedadas ao paciente e outras só permitidas após a 
realização de um determinado cerimonial.
É singular que tanto as compulsões como as proibições (ter de fazer 
isso e não ter de fazer aquilo) aplicam-se inicialmente só às atividades 
solitárias do sujeito, e por muito tempo não afetam seu comportamento 
social. Conseqüentemente, os que sofrem dessa enfermidade são 
capazes de manter o seu mal como um assunto particular, ocultando-o 
por muitos anos. Na verdade, o número de pessoas que sofrem dessas 
formas de neurose obsessiva é muito maior do que o que chega ao 
conhecimento dos médicos. Além disso, para muitas vítimas a 
ocultação se torna fácil tendo em vista que são capazes de 
desempenhar seus deveres sociais durante parte do dia, desde que 
devotem certo número de horas a suas atividades secretas, longe de 
olhares, como Mélusine.
É fácil perceber onde se encontram as semelhanças entre cerimoniais 
neuróticos e atos sagrados do ritual religioso: nos escrúpulos de 
consciência que a negligência dos mesmos acarreta, na completa 
exclusão de todos os outros atos (revelada na proibição de 
interrupções) e na extrema consciência com que são executados em 
todas as minúcias. Mas as diferenças são igualmente óbvias, e 
algumas tão gritantes que tornam qualquer comparação um sacrilégio: 
a grande diversidade individual dos atos cerimoniais [neuróticos] em 
oposição ao caráter estereotipado dos rituais (as orações, o curvar-se 
para o leste, etc.), o caráter privado dos primeiros em oposição ao 
caráter público e comunitário das práticas religiosas, e acima de tudo o 
fato de que, enquanto todas as minúcias do cerimonial religioso são 
significativas e possuem um sentido simbólico, as dos neuróticos 
parecem tolas e absurdas. Sob esse aspecto a neurose obsessiva 
parece uma caricatura, ao mesmo tempo cômica e triste, de uma 
religião particular, mas é justamente essa diferença decisiva entre o 
cerimonial neurótico e o religioso que desaparece quando penetramos, 
com o auxílio da técnica psicanalítica de investigação, no verdadeiro 
significado dos atos obsessivos. No decurso dessa investigação, 
dilui-se completamente o aspecto tolo e absurdo de que se revestem 
os atos obsessivos, sendo explicada a razão de tal aspecto. 
Descobre-se que todos os detalhes dos atos decisivos possuem um 
sentido, que servem a importantes interesses da personalidade, e que 
expressam experiências ainda atuantes e pensamentos catexizados 
com afeto. Fazem isso de duas formas: por representação direta ou 
simbólica, podendo, conseqüentemente, ser interpretados histórica ou 
simbolicamente.
Devo ilustrar com alguns exemplos essa minha asserção. Os que estão 
familiarizados com os achados da investigação psicanalítica das 
psiconeuroses não se surpreenderão ao saber que o que está sendo 
representado em atos obsessivos e em cerimoniais deriva das 
experiências mais íntimas do paciente, principalmente das sexuais.
(a) Uma jovem que esteve sob minha observação sofria da compulsão 
de fazer a água revolutear na bacia várias vezes após se lavar. O 
significado desse ato cerimonial prendia-se ao seguinte ditado: \u2018Não 
jogue fora a água suja até obter uma limpa\u2019. Com esse ato pretendia 
advertir a irmã, a quem era muito afeiçoada, e impedi-la de se divorciar 
de um marido pouco satisfatório até que firmasse uma relação com um 
homem melhor.
(b) Uma mulher que estava vivendo separada do marido via-se sob a 
compulsão de deixar intacta a melhor porção de tudo aquilo que comia: 
por exemplo, só aproveitava as beiradas de uma fatia de carne assada. 
A explicação dessa renúncia foi encontrada por meio da data de sua 
origem. Ela surgiu no dia seguinte àquele em que se recusara a ter 
relações maritais com seu marido \u2014 isto é, após ter renunciado ao 
melhor.
(c) A mesma paciente só podia sentar-se em uma determinada 
cadeira, da qual se levantava com dificuldade. Devido a certos 
aspectos de sua vida de casada, a cadeira simbolizava o marido, a 
quem ela permanecia fiel. Essa mulher encontrou a explicação para 
sua compulsão na seguinte frase: \u2018É tão difícil nos separarmos de 
alguma coisa (um marido, uma cadeira) a que já nos fixamos.\u2019
(d) Durante algum tempo ela repetiu um ato obsessivo especialmente 
singular e absurdo: saía correndo do seu quarto para outro onde havia 
uma mesa de centro; arrumava a toalha dessa mesa duma 
determinada forma e, tocando a sineta, chamava a criada; fazia com 
que esta se aproximasse da mesa e a despedia após incumbi-la de 
alguma tarefa sem importância. Tentando encontrar uma explicação 
para tal compulsão, lembrou-se de que a toalha da mesa estava 
manchada e de que sempre a arrumava de maneira a que a mancha 
fosse forçosamente vista pela criada. Essa cena era a reprodução de 
uma experiência de sua vida conjugal que muito ocupara sua mente, 
constituindo-lhe um problema. Na noite de núpcias o marido sofrera um 
percalço bastante comum: vira-se impotente. Durante a noite ele 
correra várias vezes de seu quarto para o dela, em renovadas 
tentativas de obter sucesso; pela manhã, com vergonha da 
arrumadeira do hotel que faria as camas, derramou o conteúdo de um 
vidro de tinta vermelha no lençol, mas de forma tão canhestra que o 
manchou num local pouco adequado a seus propósitos. Portanto, com 
seu ato obsessivo ela representava a noite de núpcias. \u2018Cama e mesa\u2019 
entre eles compõem o casamento.
(e) Outra compulsão que adquiriu \u2014 a de anotar o número de todas as 
décadas de papel-moeda antes de se desfazer das mesmas \u2014 teve de 
ser interpretada historicamente. Numa época em que ainda tencionava 
separar-se do marido, se encontrasse outro homem mais digno de 
confiança, permitiu-se receber as atenções de um cavalheiro que