Volume IX - Freud
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Volume IX - Freud


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da substituição do 
elemento real e importante por um trivial \u2014 por exemplo, do marido 
pela cadeira. É essa tendência para o deslocamento que modifica 
progressivamente o quadro clínico, terminando por transformar um fato 
extremamente banal em algo da maior urgência e importância. É 
inegável que também no campo religioso existe uma tendência para o 
deslocamento de valores psíquicos, e em sentido análogo, de forma 
que os cerimoniais triviais da prática religiosa gradualmente adquirem 
um caráter essencial, tomando o lugar dos pensamentos fundamentais. 
Por isso é que as religiões sofrem reformas de caráter retroativo, que 
visam restabelecer o equilíbrio original dos valores.
O caráter de conciliação que os atos obsessivos possuem em sua 
qualidade de sintomas neuróticos não é tão evidente nas práticas 
religiosas correspondentes. Mas também nestas descobrimos esse 
aspecto das neuroses quando lembramos a freqüência com que são 
cometidos, justamente em nome da religião e aparentemente por sua 
causa, todos os atos proibidos pela mesma \u2014 ou seja, as expressões 
dos instintos por ela reprimidos.
Diante desses paralelos e analogias podemos atrever-nos a considerar 
a neurose obsessiva com o correlato patológico da formação de uma 
religião, descrevendo a neurose como uma religiosidade individual e a 
religião como uma neurose obsessiva universal. A semelhança 
fundamental residiria na renúncia implícita à ativação dos instintos 
constitucionalmente presentes; e a principal diferença residiria na 
natureza desses instintos, que na neurose são exclusivamente sexuais 
em sua origem, enquanto na religião procedem de fontes egoístas. 
A renúncia progressiva aos instintos constitucionais, cuja ativação 
proporcionaria o prazer primário do ego, parece ser uma das bases do 
desenvolvimento da civilização humana. Uma parcela dessa repressão 
instintual é efetuada por suas religiões, ao exigirem do indivíduo que 
sacrifique à divindade seu prazer instintual: \u2018A vingança é minha, diz o 
Senhor\u2019. No desenvolvimento das religiões antigas, pode-se ver que 
muitas coisas a que a humanidade renunciou como sendo \u2018iniqüidades\u2019 
haviam sido abandonadas à divindade e ainda eram permitidas em seu 
nome, de modo que a atribuição a ela dos instintos maus e 
socialmente nocivos era o meio como o homem se libertava da 
dominação deles. Por isso, e não por casualidade, todos os atributos 
humanos, inclusive os crimes que deles derivam, foram imputados, 
num grau ilimitado, aos deuses antigos. Nem tampouco é uma 
contradição que, apesar disso, não fosse permitido ao homem justificar 
suas próprias iniqüidades com o exemplo divino.
Viena, fevereiro de 1907.
NOTA DO EDITOR INGLÊS
ZUR SEXUELLEN AUFKLÄRUNG DER KINDER
(OFFENER BRIEF AN DR. M. FÜRST)
(a) EDIÇÕES ALEMÃS:
1907 Soz. Med. Hyg., 2 (6) [junho], 360-7.
1909 S.K.S.N., 2, 151-8. (1912, 2ª ed.; 1921, 3ª ed.)
1924 G.S ., 5, 134-42.
1931 Sexualtheorie und Traumlehre, 7-16.
1941 G.W ., 7, 19-27.
(b) TRADUÇÃO INGLESA:
\u2018The Sexual Enlightenment of Children.An Open Letter to Dr. M. Fürst\u2019
1924 C.P., 2, 36-44. (Trad. de E. B. M. Herford.)
A presente tradução baseia-se na que foi publicada em 1924.
Esta carta foi escrita a pedido de um médico de Hamburgo, o Dr. M. 
Fürst, para ser publicada num periódico dedicado à higiene e à 
medicina social, de que o mesmo era editor. Ernest Jones (1955, 
327-8) conta-nos que Freud expôs o assunto de forma mais detalhada 
num debate realizado na Sociedade Psicanalítica de Viena a 12 de 
maio de 1909, já tendo discutido o assunto na reunião de 18 de 
dezembro de 1907. (Ver Minutes, 1.) Trinta anos mais tarde, ele volta 
ao tópico da instrução sexual das crianças no último parágrafo da 
Seção IV do seu artigo \u2018Análise Terminável e Interminável\u2019 (1937 c), 
mostrando que a questão é consideravelmente menos simples do que 
como aparece na presente abordagem.
O ESCLARECIMENTO SEXUAL DAS CRIANÇAS (CARTA ABERTA 
AO DR. M. FÜRST)
Caro Dr. Fürst,
Ao solicitar minha opinião sobre \u2018o esclarecimento sexual das 
crianças\u2019, presumo que não deseja um tratado formal e completo do 
assunto que leve em conta a extensa literatura existente sobre a 
questão, mas o juízo independente de um médico a quem a atividade 
profissional concedeu oportunidades especiais para ocupar-se dos 
problemas sexuais. Sei que tem acompanhado meus esforços 
científicos com interesse, não refutando minhas idéias sem 
examiná-las, como fizeram muitos de nossos colegas, por eu 
considerar a constituição psicossexual e certos males da vida sexual 
como as causas primordiais das perturbações neuróticas, que são tão 
comuns. Há pouco seu periódico também acolheu amavelmente os 
meus Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade [1905d], nos quais 
descrevi como o instinto sexual se compõe e os distúrbios que podem 
ocorrer, em seu desenvolvimento, na função da sexualidade.
Todavia, o senhor espera que eu responda aos seguintes quesitos: 
devem as crianças ser esclarecidas sobre os fatos da vida sexual, em 
que idade isso deve ocorrer e de que modo isso deve ser realizado. 
Permita-me dizer, inicialmente, que acho perfeitamente razoável o 
exame dos dois últimos pontos, mas que me é de todo incompreensível 
que existam divergências sobre o primeiro. Que propósito se visa 
atingir negando às crianças, ou aos jovens, esclarecimento desse tipo 
sobre a vida sexual dos seres humanos? Será por medo de despertar 
prematuramente seu interesse por tais assuntos, antes que o mesmo 
irrompa de forma espontânea? Será na esperança de que o 
ocultamento possa retardar o aparecimento do instinto sexual por 
completo, até que este possa encontrar seu caminho pelos únicos 
canais que lhe são abertos em nossa sociedade de classe média? 
Será que acreditamos que as crianças não se interessarão pelos fatos 
e mistérios da vida sexual, e não os compreenderão, se não forem 
impelidos a tal por influências externas? Será possível que o 
conhecimento que lhes é negado não as alcançará por outros meios? 
Ou será que se pretende genuína e seriamente que mais tarde elas 
venham a considerar degradante e desprezível tudo que se relacione 
com o sexo, já que seus pais e professores quiseram mantê-las 
afastadas dessas questões o maior tempo possível?
Na verdade ignoro em qual dessas proposições se deve procurar o 
motivo de se ocultar das crianças aquilo que é sexual, ocultação que 
de fato é levada a cabo. Sei apenas que são todas igualmente 
absurdas e indignas de uma contestação judiciosa. Lembro-me, porém, 
de que encontrei na correspondência familiar do grande pensador e 
filantropo Multatuli, algumas linhas que constituem uma resposta mais 
do que adequada:
\u2018A meu ver, certas coisas são, em geral, exageradamente encobertas. 
É justo conservar pura a imaginação de uma criança, mas não é a 
ignorância que irá preservar essa pureza. Ao contrário, acho que a 
ocultação conduz o menino ou menina a suspeitar mais do que nunca 
da verdade. A curiosidade nos leva a esmiuçar coisas que teriam 
pouco ou nenhum interesse para nós, se tivéssemos sido informados 
com simplicidade. Se fosse possível manter essa ignorância inalterada, 
eu poderia aceitá-la, mas isso é impossível. O convívio com outras 
crianças, as leituras que induzem à reflexão e o mistério com que os 
pais cercam fatos que terminam por vir à tona, tudo isso na verdade 
intensifica o desejo de conhecimento. Esse desejo, satisfeito apenas 
parcialmente e em segredo, excita seu sentimento e corrompe sua 
imaginação, de forma que a criança já peca enquanto os pais ainda 
acreditam que ela desconhece o pecado.\u2019
Eu não sei como a questão poderia ser mais bem expressa, mas talvez 
possa acrescentar algumas observações. Certamente são apenas a 
pudicícia usual dos adultos e sua má consciência em relação a 
assuntos sexuais que os induzem a criar todo esse mistério diante das 
crianças, mas é possível que