Volume IX - Freud
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Volume IX - Freud


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a obstinação \u2014, com freqüência relevantes nos 
indivíduos que anteriormente eram anal-eróticos, sejam os primeiros e 
mais constantes resultados da sublimação do erotismo anal. A limpeza, 
a ordem e a fidedignidade dão exatamente a impressão de uma 
formação reativa contra um interesse pela imundície perturbadora que 
não deveria pertencer ao corpo. (\u2018Dirt is matter in the wrong place.\u2019). Já 
não é fácil a tarefa de relacionar a obstinação com um interesse pela 
defecação, mas devíamos lembrar que até mesmo um bebê pode 
mostrar vontade própria quando se trata do ato de defecar, como vimos 
acima (ver em [1]), e que é costume bastante difundido na educação 
da criança administrar estímulos dolorosos à pele das nádegas \u2014 
ligada à zona erógena anal \u2014 para quebrar a obstinação da criança e 
torná-la submissa. Ainda persiste hoje o convite a uma carícia na zona 
anal, como expressão de desafio ou desprezo, convite esse que 
corresponde na realidade a um ato de ternura que sucumbiu à 
repressão. A exibição das nádegas representa um abrandamento em 
gesto desse convite verbal. No Götz von Berlichingen de Goethe 
aparecem tanto as palavras como o gesto, em momento apropriado, 
como expressão de desafio.
As conexões entre os complexos do apego ao dinheiro e da defecação, 
aparentemente tão diversos, afiguram-se as mais extensas. Todo 
médico que já praticou a psicanálise sabe que os casos mais antigos e 
rebeldes daquilo que é descrito como constipação podem ser curados 
em neuróticos por essa forma de tratamento, fato menos 
surpreendente se recordarmos que essa função também se mostrou 
tratável pela sugestão hipnótica. Mas só alcançaremos esse resultado 
com a psicanálise se nos ocuparmos do complexo monetário dos 
pacientes e os induzirmos a trazê-lo à consciência, como todas as 
suas conexões. Talvez a neurose aqui apenas siga um indício 
fornecido pela linguagem popular, que qualifica o indivíduo muito 
apegado ao seu dinheiro de \u2018sujo\u2019 ou \u2018imundo\u2019. Mas essa explicação 
seria demasiadamente superficial. Na realidade, onde quer que tenham 
predominado ou ainda persistam as formas arcaicas do pensamento \u2014 
nas antigas civilizações, nos mitos, nos contos de fadas e 
superstições, no pensamento inconsciente, nos sonhos e nas neuroses 
\u2014 o dinheiro é intimamente relacionado com a sujeira. Sabemos que o 
ouro entregue pelo diabo a seus bem-amados converte-se em 
excremento após sua partida, e o diabo nada mais é do que a 
personificação da vida instintual inconsciente reprimida. Também 
conhecemos a superstição que liga a descoberta de um tesouro com a 
defecação, e todos estão familiarizados com a figura do \u2018cagador de 
ducados\u2019 [Dukatenscheisser]\u2019. Na verdade, segundo as antigas 
doutrinas da Babilônia, o ouro são \u2018as fezes do Inferno\u2019 (Mammon = ilu 
manman). Assim, aqui como em outras ocasiões, a neurose, 
acompanhando os usos da linguagem, toma as palavras no seu 
sentido original e significativo; parecendo utilizá-las em seu sentido 
figurado, está na realidade simplesmente devolvendo a elas seu 
sentido primitivo.
É possível que o contraste existente entre a substância mais preciosa 
que o homem conhece e a mais desprezível, que eles rejeitam como 
matéria inútil (\u2018refugo\u2019) tenha levado a essa identificação específica do 
ouro com fezes.
Ainda uma outra circunstância facilita essa equação no pensamento 
neurótico. Sabemos que o interesse erótico original na defecação está 
destinado a extinguir-se em anos posteriores. Nessa ocasião aparece 
o interesse pelo dinheiro, que não existia na infância. Isso facilita a 
transferência da impulsão primitiva, que estava em processo de perder 
seu objetivo, para o nosso objetivo emergente.
Se houver realmente alguma base para a relação que aqui 
estabelecemos entre o erotismo anal e essa tríade de traços de 
caráter, provavelmente não encontraremos um acentuado grau de 
\u2018caráter anal\u2019 nos indivíduos que conservaram na vida adulta o caráter 
erógeno da zona anal, como acontece, por exemplo, com certos 
homossexuais. A menos que esteja enganado, a experiência comprova 
amplamente essa conclusão.
Devíamos apreciar se os outros complexos de caráter não revelam 
também uma conexão com a excitação de zonas erógenas específicas. 
Atualmente só tenho conhecimento da intensa e \u2018ardente\u2019 ambição de 
indivíduos que sofreram anteriormente de enurese. De qualquer modo, 
podemos estabelecer uma fórmula para o modo como o caráter, em 
sua configuração final, se forma a partir dos instintos constituintes: os 
traços de caráter permanentes, são ou prolongamentos inalterados dos 
instintos originais, ou sublimação desses instintos, ou formações 
reativas contra os mesmos.
MORAL SEXUAL CIVILIZADA E DOENÇA NERVOSA MODERNA 
(1908)
NOTA DO EDITOR INGLÊS
DIE \u2018KULTURELLE\u2019 SEXUALMORAL UND DIE MODERNE 
NERVOSITÄT
(a) EDIÇÕES ALEMÃS:
1908 Sexual-Probleme 4 (3) [março], 107-129.
1909 S.K.S.N., 2, 175-196. (1912, 2ª ed.; 1921, 3ª ed.)
1924 G.S ., 5, 143-167.
1931 Sexualtheorie und Traumlehre, 17-42.
1941 G.W ., 7, 143-167.
(b) TRADUÇÕES INGLESAS:
\u2018Modern Sexual Morality and Modern Nervousness\u2019
1915 Amer. J. Urol., 11, 391-405. (Incompleta.)
\u2018\u201cCivilized\u201c Sexual Morality and Modern Nervousness\u2019
1924 C.P., 2, 76-99. (Trad. de E.B. Herford e E. C. Mayne.)
Uma reimpressão da tradução de 1915 apareceu em forma de panfleto 
(organizado por W. J. Robinson) publicado por Eugenics Publications, 
Nova Iorque, 1931. Ambas omitem os dez primeiros parágrafos. A 
presente tradução, com um título alterado, baseia-se na publicada em 
1924.
Sexual-Probleme, o periódico em que apareceram este artigo e o 
próximo (ver em [1]), foi o sucessor da revista Mutterschutz, sob cujo 
título é às vezes catalogado. A numeração dos volumes não sofreu 
interrupção apesar da mudança de título.
Embora esta seja a primeira das longas exposições de Freud sobre o 
antagonismo entre civilização e vida instintual, suas convicções sobre 
o assunto são muito anteriores. Por exemplo, num memorando enviado 
a Fliess em 31 de maio de 1897, ele escreve que \u2018o incesto é 
anti-social e a civilização consiste na renúncia progressiva ao mesmo\u2019. 
(Freud, 1950a,Rascunho N.) Contudo, na verdade, esse antagonismo 
estava implícito em toda a sua teoria do impacto do período de latência 
sobre o desenvolvimento da sexualidade humana, e nas últimas 
páginas dos seus Três Ensaios (1905d) ele mencionou a \u2018relação 
inversa que existe entre a civilização e o livre desenvolvimento da 
sexualidade\u2019 (ver em [1], 1972). O presente artigo é em grande parte 
um sumário das descobertas do último trabalho mencionado, que fora 
publicado apenas três anos antes.
Os aspectos sociológicos desse antagonismo constituem o tema 
principal deste artigo, e Freud voltou freqüentemente ao assunto em 
seus escritos posteriores. Sem determo-nos nas alusões passageiras, 
podemos mencionar as duas últimas seções do seu segundo artigo 
sobre a psicologia do amor (1912d), ver a partir de [2], 1970, as 
páginas iniciais de O Futuro de uma Ilusão (1927c) e os parágrafos 
finais da carta aberta a Einstein, \u2018Por que a Guerra?\u2019 (1933b). No 
entanto, sua exposição mais longa e mais elaborada do assunto está, 
sem dúvida, em O Mal-Estar na Civilização (1930a).
O antigo problema da tradução da palavra alemã \u2018Kultur\u2018 por \u2018cultura\u2019 
ou por \u2018civilização\u2019 foi resolvido aqui pela escolha ora de um termo ora 
de outro. Na verdade os tradutores foram auxiliados por uma 
observação de Freud no terceiro parágrafo de O Futuro de uma Ilusão: 
\u2018desprezo ter que distinguir entre cultura e civilização.\u2019
MORAL SEXUAL CIVILIZADA E DOENÇA NERVOSA MODERNA
Em seu livro recentemente publicado, Ética Sexual, Von Ehrenfels 
(1907) discorre sobre a diferença entre a moral sexual \u2018natural\u2019 e a 
\u2018civilizada\u2019. Segundo ele, devemos entender por moral sexual natural 
uma moral sexual sob cujo regime um grupo humano é capaz de 
conservar