Volume IX - Freud
166 pág.

Volume IX - Freud


DisciplinaPsicanálise20.785 materiais329.089 seguidores
Pré-visualização50 páginas
Também as mulheres que puderam preservar sua 
virgindade com o auxílio de recursos análogos mostram-se 
anestesiadas às relações sexuais normais do casamento, que assim 
tem início com ambos os cônjuges apresentando uma reduzida 
capacidade erótica que irá sucumbir ao processo de dissolução com 
uma rapidez maior do que os demais. Em conseqüência da fraca 
potência do marido, a mulher não se satisfaz, permanecendo 
anestesiada mesmo nos casos onde uma poderosa experiência sexual 
poderia ter superado sua predisposição para a frigidez decorrente de 
sua educação. Tal casal encontrará maiores dificuldades para impedir 
a concepção do que um casal saudável, pois a reduzida potência do 
marido suporta mal o uso de anticoncepcionais. Nesse embaraço, 
sendo o ato sexual a fonte de todas as suas dificuldades, logo o casal 
renuncia ao mesmo, e com isso abre mão da base de sua vida 
conjugal.
As pessoas bem informadas sabem que não exagero nessa descrição, 
e que muitos casos igualmente desastrosos podem ser encontrados a 
cada momento. É difícil para o não iniciado acreditar quão rara é a 
potência normal num marido e quão freqüente é a frigidez feminina no 
casal que vive sob o império da nossa moral sexual civilizada, que grau 
de renúncia exige freqüentemente de ambos os cônjuges o casamento 
e a que limites estreitos fica reduzida a vida conjugal \u2014 aquela 
felicidade tão ardentemente desejada. Já expliquei que nessas 
circunstâncias o desenlace mais óbvio é a doença nervosa, mas é 
preciso também assinalar que esse tipo de casamento continua a 
exercer sua influência sobre os poucos filhos, ou o filho único, gerado 
pelo mesmo. À primeira vista, parece um caso de hereditariedade, mas 
a um exame mais apurado comprova-se ser na realidade o efeito de 
poderosas impressões infantis. Uma esposa neurótica, insatisfeita, 
torna-se uma mãe excessivamente terna e ansiosa, transferindo para o 
filho sua necessidade de amor. Dessa forma ela o desperta para a 
precocidade sexual. Além disso, o mau relacionamento dos pais excita 
a vida emocional da criança, fazendo-a sentir amor e ódio em graus 
muito elevados ainda em tenra idade. Sua educação rígida, que não 
tolera qualquer atividade dessa vida sexual precocemente despertada, 
vai em auxílio da força supressora e esse conflito, em idade tão tenra, 
fornece todos os elementos necessários ao aparecimento de uma 
doença nervosa que durará toda a vida.
Retorno agora à minha afirmativa anterior (ver em [1]) de que em geral 
não se concede às neuroses sua real importância. Não me refiro à 
subestimação desses estados revelada no leviano menosprezo dos 
parentes e nas presunçosas afirmações dos médicos de que algumas 
semanas de tratamento hidroterápico, ou alguns meses de repouso e 
convalescença, produzirão a cura. Essas atitudes simplistas de leigos 
e médicos ignorantes podem, no máximo, dar ao doente uma ilusória 
esperança. Já é sabido, muito ao contrário, que uma neurose crônica, 
mesmo que não destrua por completo a capacidade vital do indivíduo, 
representa em sua vida uma séria desvantagem, talvez de grau 
idêntico a uma tuberculose ou um defeito cardíaco. A situação poderia 
ser tolerável se as neuroses subtraíssem às atividades civilizadas só 
um certo grupo de indivíduos mais débeis, permitindo aos demais 
participar dessas atividades ao pequeno preço de alguns incômodos 
subjetivos. Mas como a realidade é bem diversa, devo insistir em meu 
ponto de vista de que as neuroses, quaisquer que sejam sua extensão 
e sua vítima, sempre conseguem frustrar os objetivos da civilização, 
efetuando assim a obra das forças mentais suprimidas que são hostis 
à civilização. Dessa forma, se uma sociedade paga pela obediência a 
suas normas severas com um incremento de doenças nervosas, essa 
sociedade não pode vangloriar-se de ter obtido lucros à custa de 
sacrifícios; e nem ao menos pode falar em lucros. Consideremos, por 
exemplo, o caso muito comum da esposa que não ama seu marido, 
pois as condições em que se iniciou seu casamento não lhe deram 
motivos para estimá-lo. Ela, porém, deseja intensamente amar esse 
marido, pois só isso corresponderia ao ideal de casamento em que foi 
educada. Tal esposa suprimirá qualquer impulso que visasse expressar 
aquela verdade e contrariar seu empenho para satisfazer seu ideal, e 
fará intensos esforços para desempenhar o papel de uma esposa 
amante, terna e cuidadosa. O resultado dessa auto-supressão será 
uma doença neurótica, e com essa neurose em curto espaço de tempo 
desforrar-se-á do marido não amado, causando-lhe tanta insatisfação e 
incômodo quanto lhe teria causado a franca admissão da verdade. 
Este é um exemplo bem típico dos efeitos de uma neurose. A 
supressão dos impulsos hostis à civilização que não são diretamente 
sexuais acarreta, também, um fracasso semelhante na obtenção de 
compensação. Por exemplo, se um homem tornou-se excessivamente 
bondoso em resultado de uma violenta supressão de uma inclinação 
constitucional para a aspereza e a crueldade, freqüentemente perde 
tanta energia ao realizar isso que não consegue fazer tudo que os seus 
impulsos compensadores exigem, podendo, no final das contas, fazer 
pior do que teria feito sem a supressão.
Acrescentemos que a restrição da atividade sexual numa comunidade 
é, em geral, acompanhada de uma intensificação do medo da morte e 
da ansiedade ante a vida que perturba a capacidade do indivíduo para 
o prazer, assim como a disposição de enfrentar a morte por uma 
causa. O resultado é uma redução no desejo de gerar filhos, privando 
assim esse grupo ou comunidade de uma participação no futuro. Em 
vista disso, é justo que indaguemos se a nossa moral sexual \u2018civilizada\u2019 
vale o sacrifício que nos impõe, já que estamos ainda tão escravizados 
ao hedonismo a ponto de incluir entre os objetivos de nosso 
desenvolvimento cultural uma certa dose de satisfação da felicidade 
individual. Certamente não é atribuição do médico propor reformas, 
mas me pareceu que eu poderia defender a necessidade de tais 
reformas se ampliasse a exposição de Von Ehrenfels sobre os efeitos 
nocivos de nossa moral sexual \u2018civilizada\u2019, indicando o importante 
papel que essa moral desempenha no incremento da doença nervosa 
moderna.
NOTA DO EDITOR INGLÊS
ÜBER INFANTILE SEXUALTHEORIEN
(a) EDIÇÕES ALEMÃS:
1908 Sexual-Probleme, 4 (12) [dezembro], 763-779.
1909 S.K.S.N. 2, 159-174. (1912, 2ª ed.; 1921, 3ª ed.)
1924 G.S . 5, 168-185.
1931 Sexualtheorie und Traumlehre, 43-61.
1941 G.K ., 7, 171-188.
(b) TRADUÇÃO INGLESA:
\u2018On the Sexual Theories of Children\u2019
1924 C.P., 2, 59-75. (Trad. de D. Bryan.)
A presente tradução é uma versão modificada da publicada em 1924.
Este artigo foi publicado pela primeira vez num número posterior do 
mesmo periódico em que apareceu o artigo precedente (ver em [1]). 
Embora tenha vindo a público de forma discreta, e embora contenha 
muito poucas surpresas para o leitor moderno, na verdade apresentou 
ao mundo uma quantidade apreciável de idéias novas. Esse paradoxo 
torna-se compreensível ao verificarmos que este artigo foi publicado 
alguns meses antes do caso clínico do \u2018Little Hands\u2019 (1909b) (embora, 
como revela em [1], esse trabalho já estivesse em revisão) e que a 
seção dos Três Ensaios (1905d) sobre \u2018As Pesquisas Sexuais da 
Infância\u2019 (ver a partir de [2], 1972) só tenha sido acrescentada a essa 
obra em 1915, oito anos depois da publicação deste artigo, do qual, na 
realidade, aquela seção é apenas pouco mais que um resumo. É 
verdade que, num artigo anterior sobre \u2018O Esclarecimento Sexual das 
Crianças\u2019 (1907c), Freud transcreveu algum material do \u2018Litle Hans\u2019 
(ver a partir de [1]) e fez um breve exame da curiosidade infantil sobre 
o sexo, chegando a mencionar a existência de \u2019teorias sexuais infantis\u2019 
(ver em [2]) sem discorrer entretanto sobre a sua natureza.
Aqui os primeiros leitores deste trabalho,