Crimin.eSist.Jurid.PenaisContemp.II- Ruth Maria Chittó
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Crimin.eSist.Jurid.PenaisContemp.II- Ruth Maria Chittó


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A idade cronológica estabelecida para o início e final da adolescência é 
discutida na literatura, a partir da perspectiva político-social e psicológica, com 
diferentes pontos de vista a esse respeito. 
Do ponto de vista político-social, verifica-se que, para a Organização 
Mundial da Saúde (OMS), a adolescência abrange a faixa entre 10 e 19 anos de 
idade.31
 
27 BLOS, 1998. p. 117. 
 Enquanto que, para a UNESCO, tal fase corresponde a uma faixa etária 
28 BLOS, 1998. p. 10. 
29 VASCONCELLOS, A. T. M. Violência e educação. In: LEVISKY, David Léo e cols. 
Adolescência e violência: conseqüência da realidade brasileira. Porto Alegre: Artes Médicas, 
1997. p. 111-118. 
30 KAPLAN; SADOCK, 1993. p. 43. 
31 OSELKA, Gabriel; TROSTER, Eduardo Juan. Aspectos éticos do atendimento médico do 
adolescente. Rev. Assoc. Med. Bras. v. 46, n. 4, São Paulo, Oct./Dec. 2000. Disponível em: 
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-42302000000400024>. Acesso 
em: fev. 2008. 
Criminologia e Sistemas Jurídico-Penais Contemporâneos II 67 
variada entre 15 e 24 anos de idade, a qual pode diversificar. No caso de 
\u201cestratos sociais médios e altos urbanizados\u201d, tal período sobe para 25 a 29 anos 
de idade. Segundo o mesmo texto, a juventude é um período que não tem 
começo e final estanques.32
A partir da abordagem psicológica, Zimerman
 
33
Nesse sentido, Aberastury
 infere que esse período 
está organizado em três níveis. Inicia com puberdade, entre 12 e 14 anos; depois, 
segue com a adolescência propriamente dita, que ocorre entre as idades de 15 e 
17 anos; e, por fim, acontece a denominada adolescência tardia, que envolve o 
período entre 18 e 21 anos, quando o jovem ainda apresenta características da 
referida fase. 
34
A finalização da adolescência, no entanto, é muito influenciada por 
atravessamentos sociais e culturais. Blos acrescenta 
 acrescenta que definir o final da adolescência 
é um tanto arriscado. Eles não atribuem o encerramento desse período e início 
do próximo, especificamente, a uma determinada idade cronológica. Alegam, 
contudo, que o jovem, na busca pela identidade, tende, progressivamente, a 
desenvolver uma maturidade biológica, acompanhada pelo desenvolvimento 
psicológico e intelectual. Aqueles que assimilarem esse processo alcançarão à 
fase adulta. 
35
 
: 
Existe, no momento, uma tendência a prolongar a 
adolescência devido às complexidades da vida moderna. 
Isso, é claro não pode deixar de ter efeitos sobre o indivíduo 
jovem, e com freqüência sobrecarrega o seu potencial 
adaptativo. 
 
A contemporaneidade registra a dificuldade do jovem em abandonar 
posições infantis, para elaboração dos devidos lutos. Isso ocorre de modo 
associado com os desejos de independência e de autoafirmação fora do meio 
familiar, os quais se associam, para fazer do prolongamento da adolescência a 
única solução.36
 
32 BRASIL. Políticas públicas de/ para/ com juventudes. Brasília: UNESCO, 2004. p. 24-25. 
 
33 ZIMERMAN. 2001. p. 21 \u2013 22. 
34 ABERASTURY, A. O adolescente e a liberdade. In: ABERASTURY, Arminda; KNOBEL, 
Maurício. Adolescência normal: um enfoque psicanalítico. Porto Alegre: Artes Médicas, 1981. p. 
13-23. 
35 BLOS, 1998. p. 10. 
36 BLOS, 1998. p. 293. 
68 GAUER, G. J. C., et. al. \u2013 Juventude, contemporaneidade e comportamento agressivo 
A adolescência, em circunstâncias normais, tem um tempo limitado e 
transitório, mas a perseveração nessa fase leva o sujeito a manter aberto o 
processo de adolescer, apesar da sua luta para contornar a finalidade das 
escolhas, que são feitas ao final da adolescência.37
Na adolescência prolongada, o processo de passagem para a condição 
adulta encontra-se paralisado. Isso faz com que o jovem permaneça na crise da 
adolescência e, por final, essa crise se torne um modo de vida. Observa-se que o 
prolongamento da adolescência evita uma crise necessária para a evolução, mas 
quando o sujeito tenta romper e elaborar os lutos infantis, percebe que tal 
movimento é acompanhado de um empobrecimento narcísico, o qual é incapaz 
de tolerar.
 
38
Nesse sentido, a estrutura da personalidade, na adolescência prolongada, 
se assemelha ao distúrbio de caráter narcísico
 
39, mas sem a presença da rigidez 
própria de uma desordem de caráter, pois o adolescente apresenta sintomas 
transitórios e é acessível à intervenção terapêutica.40
Constata-se que as características da \u201cSíndrome normal da adolescência\u201d 
se estendem, também, na ampliação dessa fase, comprometendo o 
comportamento do jovem. Quanto ao final da adolescência e o início da fase 
adulta, verifica-se que o momento decisivo é também momento de crise, o qual 
dificulta a capacidade de integração e adaptação do jovem. Essa dificuldade 
torna inviável a construção de um modelo de final da adolescência, pois esse 
período é transitório. É interessante, nesse sentido, a fala de Freud
 
41
 
: 
Na realidade, as etapas transitórias e intermediárias são 
muito mais comuns do que estados opostos nitidamente 
diferenciados. Ao estudar vários desenvolvimentos e 
mudanças, focalizamos nossa atenção totalmente no 
resultado e esquecemos facilmente o fato de que esses 
processos são geralmente mais ou menos incompletos, isto 
é, que as mudanças ocorridas são apenas parciais. 
 
37 BLOS, 1998. p. 293. 
38 CÂMARA, Martial de Magalhães; CRUZ, Amadeu Roselli. Adolescência prolongada: o tempo 
que não se quer deixar passar. Disponível em: 
<http://www.educaremrevista.ufpr.br/arquivos_15/camara_cruz.pdf> Acesso em: fevereiro de 2008. 
39 Distúrbio de caráter narcísico: Tal psicopatologia apresenta tipicamente um transtorno de 
personalidade antissocial. KERNBERG, Otto F. Agressão nos transtornos de personalidade e 
nas perversões. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1995. p.79. 
40 BLOS, 1998. p. 301. 
41 FREUD, 1937 apud BLOS, 1998. p. 176. 
Criminologia e Sistemas Jurídico-Penais Contemporâneos II 69 
A seguir, são abordadas as questões pertinentes à juventude, em conjunto 
com a contemporaneidade e com a violência. 
1.3 ADOLESCÊNCIA, CONTEMPORANEIDADE E A VIOLÊNCIA 
A sociedade contemporânea constitui-se por múltiplos fatores que 
influenciam o desenvolvimento adolescente, reproduzindo desafios a sua 
adaptação e inserção social. Inegavelmente, pesam sobre a juventude as questões 
socioculturais da civilização moderna. De um lado, encontra-se o adolescente, 
com seu corpo infantil em busca de seu espaço psíquico; de outro, está à cultura, 
com a transmissão de seus valores simbólicos e formas de organização 
ambivalentes.42
Diversos estudos discutem as interferências contemporâneas que marcam 
a subjetividade do adolescente, comprometendo seu comportamento, em função 
do esforço para não sofrer a exclusão social. Tais questões envolvem: 
massificação, imediatismo, estímulo constante ao prazer e negação da frustração, 
fragilidade nos vínculos afetivos do meio familiar e social, fortalecimento do 
individualismo e consumismo exagerado.
 
43
Tal funcionamento social favorece o alargamento da adolescência. 
Devido ao constante incremento de novas tecnologias sofisticadas, o mundo 
do trabalho exige do jovem maior qualificação profissional, para sua 
absorção. Essa problemática faz com que os adolescentes de classes mais 
favorecidas permaneçam apoiados pelo núcleo familiar, para ampliar seu 
conhecimento intelectual, prolongando a adolescência. Quando não há 
recursos na família, para aprimoramento laboral, atribui-se a 
responsabilidade ao Estado.
 
44
Ocorre, no entanto, que, às vezes, a família e o Estado falham no 
suprimento da qualificação e aperfeiçoamento profissional ao jovem. Nesses 
casos, o mesmo tem