Crimin.eSist.Jurid.PenaisContemp.II- Ruth Maria Chittó
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Crimin.eSist.Jurid.PenaisContemp.II- Ruth Maria Chittó


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um corpo de especialistas e, mais 
precisamente, por um campo de produção e circulação 
relativamente autônomo (sic).5
 
 
Logo, as ideologias 
 
devem sua estrutura e as funções mais específicas às 
condições sociais de sua produção e da sua circulação, quer 
dizer às funções que elas cumprem, em primeiro lugar, para 
os especialistas em concorrência pelo monopólio da 
competência considerada (religiosa, artística, etc.) [e porque 
não, criminológica, G.A.S.] e, em segundo lugar e por 
acréscimo, para os não-especialistas.6
 
 
Portanto, a história e/ou as histórias do pensamento criminológico nada 
mais é/são do que lutas de especialistas, os criminólogos, pelo poder de poder 
definir o que é criminologia e em que consiste o saber criminológico.7
 
4 Dias, Jorge Figueiredo Dias; Andrade, Manoel da Costa, Criminologia, o Homem Delinquente e 
a Sociedade Criminógena, Coimbra: Coimbra , 1997, p. 5. 
 A chave 
para a compreensão desse fenômeno é a distinção: de fato, cada nova corrente 
criminológica vem sempre acompanhada de uma crítica à corrente dominante na 
respectiva época de seu surgimento, ou seja, de uma necessidade intrínseca de 
distinção. Ignora-se que, em vários aspectos, as várias correntes criminológicas 
5 Bourdieu, Pierre, O Poder Simbólico, Rio de Janeiro: DIFEL, 1989, p.12. 
6 Ibidem, p.13. 
7 Ver a esse respeito: Anitua, Gabriel Inacio, Histórias dos pensamentos criminológicos, Rio de 
Janeirio: Revan, 2008 (Coleção Pensamento Criminológico, vol. 15); Dias, Jorge Figueiredo Dias; 
Andrade, Manoel da Costa, Criminologia, o Homem Delinquente e a Sociedade Criminógena, 
Coimbra: Coimbra, 1997, p. 5 e ss.; Kunz, Karl-Ludwig, Kriminologie, Bern: Hautp, 2004, p. 85 e ss. 
Criminologia e Sistemas Jurídico-Penais Contemporâneos II 93 
funcionam como uma lupa que amplia a compreensão sobre um ou mais 
aspectos da violência, dos mecanismos de punição e de controle social. Portanto, 
muito pouco se tem a ganhar com a busca do \u201dMétodo\u201d e do \u201dObjeto\u201d da 
criminologia e, ao contrário, muito se tem a ganhar com a busca compartilhada 
pelo desvelamento da complexidade do fenômeno criminológico.8
É nesse sentido que o presente estudo deve ser compreendido. O que 
busca-se aqui não é delinear a linhas fundamentais de um novo paradigma 
criminológico que vai ou deveria superar todos os outros. Isso seria apenas fazer 
avançar mais um pouco o ranço positivista que paira sobre a criminologia. A 
Criminologia do Reconhecimento pretende apenas aquilo que o seu próprio 
nome sugere: iluminar o fenômeno criminológico a partir da teoria do 
reconhecimento. Esse estudo típico de teoria social, que se insere na tradição da 
Escola de Frankfurt
 
9, naturalmente, não exclue outros, que possam iluminar 
outros aspectos igualmente importantes do fenômeno. Porém, e essa é sim a 
nossa convicção, entende-se que a teoria do reconhecimento pode trazer ao 
debate criminológico contemporâneo uma contribuição inovadora, levando 
assim a criminologia a mares nunca dantes navegados, de onde ela poderá trazer 
consigo novas perspectivas e novas descobertas que contribuirão e muito para o 
seu desenvolvimento.10
 
8 Nesse sentido: Carvalho, Salo de, Antimanual de Criminologia, Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2008, 
p. 4 e ss.; e também, porém seguindo outra matriz teórica: Garland, David, Punishment and Modern 
Society. A Study in Social Theory, Chicago: The University of Chicago Press, 1990, p. 277 e ss. 
 No entanto, dados os limites do presente artigo, 
procurar-se-á, no que segue, apresentar em três tempos o núcleo fundande da 
Criminologia do Reconhecimento, buscando ressaltar o campo de pesquisas que 
se abrem a partir desse novo paradigma criminológico. 
9 Ver a esse respeito: Honneth, Axel, Kritik der Macht. Die Reflexionsstufen einer kritischen 
Gesellschaftstheorie, Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1986. 
10 Vale referir que a Teoria do Reconhecimento forma a base teória de um projeto maior de 
pesquisa interdisciplinar sobre Violência, Criminologia e Controle Social, que se iniciou no final 
do ano passado e cuja equipe é formada por três grupos de pesquisa registrados no CNPq, a saber: 
Violência e Justiça: o sistema penal entre legalidade e legitimidade, coordenado pelos professores 
Giovani A. Saavedra e Ney Fayet Jr.; Emancipação e cidadania: Estado, organizações e políticas 
públicas, coordenado pelos professores Emil A. Sobottka e Adelia Maria Miglievich Ribeiro e o 
grupo Avaliação e Intervenção em Saúde Mental, coordenado por Gabriel Chittó Gauer. O presente 
artigo tenta resumir os resultados da parte da pesquisa desse projeto maior que ficou ao encargo do 
nosso grupo de pesquisa. Por isso, gostaria de utilizar esta oportunidade para agradecer aos 
bolsistas de iniciação científica envolvidos no projeto, Joana Ripoll, Bruno Tadeu Buonicore, 
Brenda Ruviaro e Vinicius Gomes de Vasconcellos, pelo trabalho em conjunto e pelos debates que 
muito têm contribuído para que o desenvolvimento da Criminologia do Reconhecimento. 
94 SAAVEDRA, Giovani Agostini \u2013 Criminologia do Reconhecimento: 
1. REIFICAÇÃO VS. DIGNIDADE HUMANA: SOBRE A DIMENSÃO 
EXISTENCIAL DA CRIMINOLOGIA DO RECONHECIMENTO 
Como procurei demonstrar em outro lugar11
Isso é assim, porque o Ser Humano adquire a consciência do seu Ser 
Humano a partir de um Modo-de-Ser-Humano: o Modo do Reconhecer (der 
Modus des Anerkennens). Esse modo do Reconhecer precede o Modo do 
Conhecer (der Modus des Erkennens), típico de processos de 
instrumentalização, coisificação e reificação. Essa primazia do Modo do 
Reconhecer (der Modus des Anerkennens) caracteriza o que Honneth passa a 
chamar de Modo Existencial do Reconhecimento (Der existentielle Modus der 
Anerkennung). Ele entende que esse Modo Existencial do Reconhecimento (Der 
existentielle Modus der Anerkennung) deve ser compreendido como uma forma 
mais fundamental do reconhecimento recíproco dos seres humanos como seres 
dignos de respeito e igual tratamento jurídico (dimensão antropológica do 
reconhecimento).
, o Direito Penal do Inimigo 
(Feindstrafrecht) e uma série de outras correntes criminológicas e de política 
criminal de cunho positivista e/ou punitivista trabalham com a ideia de que a luta 
contra o \u201cTráfico\u201d, contra o \u201cCrime Organizado\u201d ou contra o \u201cTerror\u201d só pode 
ser desenvolvida eficazmente, se o Estado passar a considerar os inimigos como 
não humanos ou, simplesmente, como \u201ccriminosos\u201d, que se autoexcluíram do 
contrato social e a quem, portanto, não se aplicariam os direitos fundamentais 
mais básicos, que há pouco valiam indistintamente para todos. Porém, essas 
afirmações deixam em aberto uma série de perguntas: por que é necessário ir tão 
longe? Por que é necessário que alguém seja caracterizado como não humano, 
para que ele seja torturado ou para que ele seja preso de forma sumária sem que 
essa decisão tenha sido tomada a partir de um processo penal? A resposta parece 
simples: parece claro para todos nós, que um Ser Humano não pode ser exposto 
a situações degradantes. Principalmente, parece claro que um Ser Humano não 
pode ser tratado como \u201ccoisa\u201d, que ele não pode ser \u201ccoisificado\u201d, \u201creificado\u201d ou 
\u201cinstrumentalizado\u201d. 
12
 
11 Refiro-me ao seguinte texto: Saavedra, Giovani A., Reificação vs. Dignidade: revisitando os 
fundamentos do direito penal a partir da teoria do reconhecimento de Axel Honneth, In: Oliveira, 
Elton Somensi; Teixeira, Anderson Vichinkeski (Org.), Correntes Contemporâneas do Pensamento 
Jurídico, São Paulo: Manole, 2010, p. 133-151. 
 O fenômeno da coisificação, da reificação e da 
12 \u201eInzwischen gehe ich daher davon aus, daß dieser existentielle der Anerkennung allen anderen, 
gehaltvolleren Formen der Anerkennung zugrunde liegt,