Crimin.eSist.Jurid.PenaisContemp.II- Ruth Maria Chittó
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Crimin.eSist.Jurid.PenaisContemp.II- Ruth Maria Chittó


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maior 
prosperidade e progresso social e econômico. Nesse sentido, como é muito 
difícil encontrar alguém disposto a afirmar que esses objetivos não são 
legítimos, o projeto da modernidade e do capitalismo parecem se desenvolver e 
se expandir cada dia mais e com mais força. 
Portanto, pode-se dizer que é exatamente essa grande aceitação do projeto 
da modernidade e do capitalismo que torna muito difícil o desenvolvimento de 
um discurso sobre as patologias da sociedade contemporânea, que, ao mesmo 
tempo, mobilize as pessoas por elas atingidas, e que provoque uma mudança 
social, que tenha por consequência uma maior inclusão e uma melhora efetiva 
das condições de vida das pessoas excluídas do processo de \u201dmodernização\u201d ou 
\u201dracionalização\u201d. Muito tem se debatido a esse respeito no cenário internacional 
e todas as tentativas de desenvolvimento teórico que procuram apreender as 
patologias do capitalismo têm esbarrado em alguns problemas: (1) aquelas 
teorias que procuram aprofundar a crítica do poder de Foucault e/ou Nietzsche 
ou a crítica da Dialética do Esclarecimento (Horkheimer e Adorno) acabam por 
vincular-se de tal forma a um relativismo extremado, que toda a possibilidade de 
crítica e superação dos problemas analisados resta inviabilizada24; (2) já as 
teorias que apoiam sua crítica em uma concepção dualista da sociedade, como, 
por exemplo, a Teoria da Ação Comunicativa de Jürgen Habermas, perdem o 
seu potencial crítico com a inserção do conceito de sistema.25
 
24 Por uma visão geral desta problemática, ver: Saar, Martin, Genealogie als Kritik, Geschichte 
und Theorie des Subjekts nach Nietzsche und Foucault, Frankfurt am Main: Campus, 2007; 
Garland, David, Punishment and Modern Society. A Study in Social Theory, Chicago: The 
University of Chicago Press, 1990, cáp. 7 e Habermas, Jürgen, Der philosophische Diskurs der 
Moderne. Zwölf Vorlesungen, Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1983, cáps. V, IX e X. Críticas 
semelhantes podem ser feitas a teorias como a de Agamben ou Derrida. Ver, a esse respeito: 
Saavedra, Giovani A., Traditionelle und kritische Rechtstheorie. Die Reflexionsstufen der 
Rechtsanalyse, Inauguraldissertation zur Erlangung des Doktorgrades des Fachbereichs 
Rechtswissenschaft der Johann Wolfgang Goethe Universität, Frankfurt am Main, 2008, parte III. 
 A versão sistêmica 
de teoria da sociedade deve ser compreendida como propensa à indução a erro 
(irreführend), pois ela parte do princípio de que duas esferas da ação social 
(Verwaltungs- und Wirtschaftssystem) se tornam totalmente independentes das 
relações intersubjetivas e sociais do Mundo da Vida (Lebenswelt). Segundo 
25 Honneth, Axel, Kritik der Macht, Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1988, p. 278 ss. 
102 SAAVEDRA, Giovani Agostini \u2013 Criminologia do Reconhecimento: 
Honneth, quando as sociedades capitalistas são concebidas dessa forma, 
pressupõe-se duas ficções que se complementam mutuamente: \u201cnós supomos, 
então, a existência de (1) esferas de organizações sociais desprovidas de 
normatividade e (2) esferas de ação comunicativa privadas de relações de 
poder\u201d.26
Nesse contexto, e cientes das dificuldades acima descritas, o Instituto de 
Pesquisa Social de Frankfurt tem desenvolvido pesquisas empíricas a apartir de 
um projeto comum chamado Paradoxos do Capitalismo (Paradoxien des 
Kapitalismus).
 
27 A base deste projeto poderia ser resumida da seguinte forma: 
em primeiro lugar, não se nega a existência de um potencial moral e ético das 
sociedades capitalistas. Entende-se que a concretização desse potencial ético e 
moral deveria implicar as seguintes consequências positivas: (1) deveria ter-se 
concretizado uma maior liberdade para o desenvolvimento autônomo do projeto 
de vida de cada indivíduo; (2) as pessoas deveriam cada vez mais ser tratadas 
como iguais e poder exigir esse tratamento dos seus concidadãos; (3) o 
desempenho profissional de cada indivíduo deveria ser reconhecido e 
compensado na mesma proporção da contribuição do seu trabalho para o 
desenvolvimento da sociedade; e (4) as pessoas deveriam poder dispor de uma 
maior liberdade para a experimentação de novas formas de relação afetiva.28
No entanto, o processo de concretização dos ideais da modernidade 
devem ser considerados paradoxais, especialmente porque os meios colocados à 
disposição dos indivíduos para sua realização inviabiliza, na prática, a sua 
concretização: \u201dUma contradição é paradoxal, exatamente quando, através da 
buscada concretização de uma tal intenção, a probabilidade de sua realização se 
torna menor\u201d.
 
29
 
26 \u201c(...) wir unterstellen dann die Existenz von (1) normfreien Handlungsorganisationen und von 
(2) machtfreien Kommunikationssphären\u201c. Ibidem, p. 328. 
 Esse tipo de patologias pode ser encontrado hoje nas mais 
variadas formas de imposição de disciplina, que são recebidas pelas pessoas, a 
27 Honneth, Axel; Hartmann, Martin, Paradoxien des Kapitalismus. Ein Untersuchungsprogram, 
in: Berliner Debatte Initial, n. 15, ano 2004, vol. 1, p. 4-17. Ver também: Honneth, Axel (Org.), 
Befreiung aus der Mündigkeit, Paradoxien des gegenwärtigen Kapitalismus, Frankfurt/New York: 
Campus, 2002. 
28 Honneth, Axel; Hartmann, Martin, Paradoxien des Kapitalismus. Ein Untersuchungsprogram, 
in: Berliner Debatte Initial, n. 15, ano 2004, vol. 1, p. 5 
29 \u201dEin Widerspruch ist paradox, wenn gerade durch die versuchte Verwirklichung einer solchen 
Absicht die Wahrscheinlichkeit verringert wird, diese Absicht zu verwirklichen\u201d. Honneth, Axel; 
Hartmann, Martin, Paradoxien des Kapitalismus. Ein Untersuchungsprogram, in: Berliner 
Debatte Initial, n. 15, ano 2004, vol. 1, p. 9, (tradução livre). 
Criminologia e Sistemas Jurídico-Penais Contemporâneos II 103 
quem essas práticas estão adereçadas, com estranhamento, dado que elas, 
normalmente, não compartilham o telos ético que consubstancia tais práticas 
sociais de disciplina e controle social.30
Outra dimensão das patologias da modernidade e do capitalismo poderia 
ser desvelada a partir dos estudos empíricos e pscicanalíticos de Donald W. 
Winnicott
 A prática de encarceramente em massa 
que tem por objetivo a \u201dredução da violência\u201d ou a \u201dressocialização\u201d poderia ser 
outro exemplo, dado que cada vez mais está ficando claro que a prisão tem se 
tornado em uma escola da reincidência. Nesse sentido, também o 
encarceiramento em massa seria paradoxal, no sentido supra descrito, dado que 
ele torna cada vez mais improvável a concretização dos objetivos que o justifica. 
31 e de Sándor Ferenczi.32 Winnicott designa a primeira fase do 
desenvolvimento infantil como fase da Dependência Absoluta, na qual, tanto a 
mãe quanto o bebê se encontram de tal forma ligados que, entre eles, surge uma 
espécie de relação simbiótica. A carência e a dependência total do bebê e o 
direcionamento completo da atenção da mãe para a satisfação das necessidades 
da criança fazem com que entre eles não haja nenhum tipo de limite de 
individualidade e ambos se sintam como unidade. Aos poucos, com o retorno 
gradativo aos afazeres da vida diária, esse estado de simbiose vai se dissolvendo, 
a partir de um processo de ampliação da independência de ambos. Pois, com a 
volta à normalidade da vida, a mãe não está mais em condições de satisfazer as 
necessidades da criança imediatamente.33
A criança, então em média com 6 meses de vida, precisa se acostumar 
com a ausência da mãe. Essa situação estimula na criança o desenvolvimento de 
capacidades que a tornam capaz de se diferenciar do seu ambiente. Winnicott 
atribui a essa nova fase o nome de Relativa Independência. Nessa fase, a criança 
reconhece a mãe não mais como uma parte do seu mundo subjetivo e sim como 
um sujeito com direitos próprios. A criança trabalha essa nova experiência por 
meio