Crimin.eSist.Jurid.PenaisContemp.II- Ruth Maria Chittó
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Crimin.eSist.Jurid.PenaisContemp.II- Ruth Maria Chittó


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ocorreu na URSS, Alemanha e Itália. 
Era o Estado assumindo o compromisso igualitário prometido, criando \u201cum 
modelo obrigatório de felicidade\u201d (ECO, 1987), numa perspectiva de igualdade 
total da communitas e dos indivíduos. 
O exemplo mais eloquente desse \u201cSuper Estado\u201d foi a nação alemã. Nesse 
particular, cumpre destacar o fato de que a Constituição de Weimar (1919) 
conferiu maior atenção aos grupos sociais de expressão não germânica do que 
aos indivíduos considerados singularmente, além de positivar a proscrição das 
desigualdades, bem como a proteção e o respeito das diferenças de qualquer 
ordem. Apesar disso, a nação alemã acabou por sucumbir ao pensamento 
totalitário deflagrador da Segunda Guerra Mundial, o qual passou a preencher, 
homogênea e argutamente, o espaço da igualdade fática prometida e jamais 
cumprida, formando um imaginário de atraentes estereótipos, propícios à 
eliminação das diferenças. Nesse sistema, conforme assinalam Streck e Morais 
(2006, p. 134), o diferente tornou-se sinônimo de ilícito.8
 
8 Gauer (1999, p. 15) confere certa razão ao pensamento de Louis Dumont \u2013 \u201c[...] mesmo que essa 
opinião possa causar algum (mas não suficientemente) incômodo mal-estar\u201d - quando este alude 
 
Criminologia e Sistemas Jurídico-Penais Contemporâneos II 17 
Desse modo, a subjugação dos povos considerados inferiormente 
diferentes, que serviu de mote à Segunda Guerra Mundial, conferiu novos 
contornos ao modelo estatal, agora, mais focado nos direitos sociais. Ocorre, 
pois, \u201c[...] uma densificação do princípio da justiça social\u201d, fruto das 
reivindicações das classes menos favorecidas \u2013 sobretudo da classe operária \u2013 
como meio de compensá-las da extrema desigualdade em relação à classe 
empregadora, sobre a qual recaía o poder econômico (SARLET, 2000, p. 50). 
Assim, novos ramos do Direito foram criados, como forma de \u201c[...] 
instrumentalizar e garantir as promessas de segurança social do Estado 
Providência\u201d (CARVALHO, 2004). Nesse contexto, também o sistema penal 
como um todo sofreu um alargamento no seu âmbito de incidência, diante da 
nova imposição de tutela aos bens jurídicos coletivos, os quais passaram a se 
estruturar de forma diversa dos direitos individuais previstos na matriz ilustrada 
(CARVALHO, 2004). 
A partir de meados do século XX, constatada a incapacidade estatal para 
atender às demandas crescentes de sua estruturação providencial, o Estado 
entrou em crise, fazendo emergir o modelo neoliberal de acumulação de 
riquezas. Com isso, evidenciaram-se novas formas de exclusão, relacionadas à 
perda do status de cidadão dos indivíduos hipossuficientes. Essa perda não se 
deu apenas em decorrência das restrições econômicas, impostas às parcelas mais 
débeis da população, mas, também, em razão de \u201c[...] qualquer característica que 
as possa diferenciar (raça, nacionalidade, religião et coetera)\u201d (CARVALHO, 
2004, p. 192) \u2013, impulsionando, assim, a formação de movimentos sociais em 
defesa das minorias, sobretudo, étnicas e sexuais. 
Diante dessa essência, surgem direitos de caráter preponderantemente 
defensivos (SARLET, 2000, p. 52), com reflexos, mais uma vez, no âmbito 
penal. Dessa forma, o discurso maximizador dos aparelhos repressivos, já 
potencializado quando da transição do modelo liberal de mínima intervenção 
para o Estado-Providência, volta-se, também, à vitimização \u201cdos sujeitos 
pertencentes aos estratos inferiores da sociedade como titulares de bens jurídicos 
 
que o nacional-socialismo revelou, em verdade, a essência da sociedade contemporânea. Diz a 
autora: \u201cA atomização do indivíduo, tal como referida por DUMONT, fez prevalecer uma tensão 
contraditória. Por um lado, a emancipação do indivíduo gerou o individualismo arrebatado; por 
outro, uma coletivização ao extremo, isto é, o nivelamento de todas as diferenças conduziu a pior 
das tiranias. Esse fato eliminou o \u2018caráter carismático\u2019 do vínculo social e abriu a possibilidade de 
eliminarem-se os laços de solidariedade que unia as comunidades e que permitiam toda a 
estruturação social\u201d. 
18 CATALDO Neto, A.; DEGANI, E. P. \u2013 Em busca da igualdade prometida: 
individuais e difusos\u201d (AZEVEDO, 2006, p. 57). A intenção era protegê-los das 
mazelas sociais consideradas intoleráveis. 
Paralelamente, como consequência da \u201cerosão da soberania do Estado 
nacional\u201d (SANTOS, MARQUES e PEDROSO, 1996, p. 37), emerge um novo 
pluralismo jurídico, vale dizer, um novo direito transnacional em coexistência 
com o direito pátrio de cada país. 
Nesse sentido, tem-se na Declaração dos Direitos Humanos de 1948 o 
marco para uma nova geração de direitos: os chamados direitos de solidariedade 
ou fraternidade (SARLET, 2000, p. 51). Com esses direitos, verifica-se uma 
substituição da titularidade de direitos individuais e coletivos, por uma 
universalidade abstrata e concreta, decorrente da positivação de direitos 
fundamentais reconhecidos a todos os seres humanos. 
Dessa forma, a Declaração dos Direitos Humanos passou a impor, de 
forma expressa, a igualdade de todos perante a lei, vedando quaisquer 
comportamentos discriminatórios ou de incitamento às discriminações de 
qualquer ordem. Segundo Piovesan et al (1999), a partir desse sistema global de 
proteção, o ente abstrato, genérico e despersonalizado cedeu lugar ao sujeito de 
direito concreto, historicamente situado, com especificidades e particularidades 
relativas ao gênero, idade, etnia, raça, etc. 
A Declaração dos Direitos Humanos retomou, em certa medida, os ideais 
iluministas do final do século XVIII, afigurando-se como o efetivo caminho à 
concretização do princípio da igualdade em âmbito universal. 
Assim, termos como raça, cor, origem nacional ou étnica passaram a ser 
centrais em matéria de direitos humanos, tornando-se objeto de tutela de vários 
outros instrumentos de proteção complementares, como a Convenção 
Internacional Sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, 
de 19659, a Convenção Americana de Direitos Humanos, em 1969, e o Estatuto 
da Corte Penal Internacional, em 1998.10
 
9 Ratificada pelo Brasil, em 27 de março de 1968. 
 
10 Convém destacar que, após a Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, 
Xenofobia e Intolerância correlata, realizada em Durban, em 2001, as chamadas ações afirmativas 
passaram a ser contempladas como um dos principais instrumentos de redução das desigualdades 
étnicas. Tais políticas, consideradas de discriminação positiva, são definidas por Sarmento (2006, 
p. 154) como medidas públicas ou privadas, de caráter coercitivo ou não, que visam a promover a 
igualdade substancial, por meio do acesso ao ensino superior, empregos privados e/ou cargos 
públicos, maior representação política, entre outras hipóteses, através da discriminação positiva de 
pessoas integrantes de grupos considerados em situação desfavorável (negros, índios, 
Criminologia e Sistemas Jurídico-Penais Contemporâneos II 19 
Nessa esteira, a maioria das Constituições dos países ocidentais passou 
a dispor sobre a igualdade de todos sem distinção, a exemplo do previsto na 
Constituição Italiana, de 27 de dezembro de 194711; na Lei Fundamental para 
a República Federal da Alemanha, de 23 de maio de 194912; e na 
Constituição Francesa, de 4 de outubro de 195813; seguidas pela Constituição 
Portuguesa, de 2 de abril de 197614; e pela Constituição Espanhola, de 27 de 
dezembro de 197815
Assim, um dos primeiros países a criminalizar as práticas discriminatórias 
foi a Itália, que, após ratificar a Convenção Internacional Sobre a Eliminação de 
Todas as Formas de Discriminação Racial, editou a Lei nº 654, de 13 de outubro