Crimin.eSist.Jurid.PenaisContemp.II- Ruth Maria Chittó
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Crimin.eSist.Jurid.PenaisContemp.II- Ruth Maria Chittó


DisciplinaCriminologia e Política-criminal35 materiais974 seguidores
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no discurso penalítisco republicano, fato que muito se 
deveu à contribuição do saber médico agregado à técnica policial. Dessa 
combinação, resultou, em finais do século XIX, uma verdadeira intervenção 
higienista, bem sintetizada pela frase do então Ministro do Supremo Tribunal 
Federal, Viveiros de Castro: \u201c[...] o crime é o efeito do contágio, transmite-se 
como um micróbio\u201d (ZAFFARONI et al., 2003, p. 443). 
De outra parte, todas essas acepções mantinham estreita relação com a 
estrutura econômica da Primeira República \u2013 fundamentalmente 
agroexportadora e baseada nas grandes propriedades rurais. Para os autores, 
havia dois extremos. Pela ponta dominante, a tal estrutura correspondiam 
relações sociais de dominação expressas no \u201ccoronelismo\u201d. Pela outra ponta, 
havia os escombros sociais da escravaria eventualmente aproveitada, os pobres 
livres (transformados em tropeiros, sitiantes, agregados, camaradas, cujas 
desconfortáveis estratégias de sobrevivência provinham ainda do escravismo) e 
os contingentes de imigrantes (grande \u201caposta\u201d das oligarquias, visando ao 
\u201cembranquecimento\u201d nacional) (ZAFFARONI et al., 2003, p. 442).32
Ainda sob a vigência do Código Penal Republicano, a partir de 1930 
iniciou-se o declínio das teorias raciais, sobretudo, com as publicações \u201cCasa-
grande e Senzala\u201d e \u201cSobrados e Mucambos\u201d, de Gilberto Freyre, em que o 
sociólogo passou a usar a expressão \u201ccultura inferior\u201d, em lugar de \u201craça 
inferior\u201d. De acordo com a concepção de Freyre (1999), questões como a 
inferioridade do negro e do índio, em relação ao homem branco, não estavam 
associadas a um determinismo racial, mas a critérios histórico-culturais, como a 
escravidão e o nomadismo. Além disso, no caso da colonização brasileira, a 
ideia de superioridade racial teria sido suplantada também pelo critério da 
\u201cpureza da fé\u201d, ou seja, pela fé católica, apostólica, romana, predominante na 
sociedade colonial portuguesa, no século XVI, como condição de aceitação pela 
sociedade (FREYRE, 1999, p. 196). 
 
Esse espírito de confraternização e solidariedade étnicas \u2013 vislumbrado 
por Freyre, na mestiçagem caracterizadora da \u201cnossa brasilidade\u201d33
 
32 Assim, determinadas práticas realizadas somente por (ex-) escravos \u2013 como a capoeiragem - 
eram previstas como crime, não obstante a abolição. 
\u2013 ganhou 
33 Em um dos trechos de Casa-grande & Senzala, Freyre (1999, p.91) assim define a sociedade 
brasileira: \u201cHíbrida desde o início, a sociedade brasileira é de todas da América a que se constituiu 
mais harmoniosamente quanto às relações de raça: dentro de um ambiente de quase reciprocidade 
Criminologia e Sistemas Jurídico-Penais Contemporâneos II 25 
corpo no plano político, a ponto de criar a ideia de uma sociedade plástica e 
democrática, que se autoconsiderava potencialmente aberta do ponto de vista 
racial (SILVEIRA, 2006, p. 23)34
Tal concepção da sociedade talvez explique o fato de que, após a 
Constituição da República de 1934 assegurar a igualdade de todos, sem 
privilégios, \u201cnem distinções, por motivo de nascimento, sexo, raça, profissões 
próprias ou dos pais, classe social, riqueza, crenças religiosas ou idéias 
políticas\u201d
. 
35
Eis, assim, o complexo contexto histórico constitucional em que vigeu o 
Código Penal de 1890. 
, a Constituição de 1937 tenha retomado a antiga redação, disposta no 
artigo 72, §2º da Constituição de 1891, preconizando, apenas: \u201ctodos são iguais 
perante a lei\u201d. 
Já o Código Penal de 1940, considerado o centro programático da 
criminalização do Estado Social, refletiu as transformações sociais ocorridas a 
partir do fim da velha República, sobretudo, no que tange às consequências da 
Grande Depressão e do esgotamento do modelo agroexportador, ambos 
condutores do arroubo industrial que se seguiu até a Segunda Guerra 
(ZAFFARONI et al., 2003). O Diploma Penal de 1940 \u2013 vigente até os dias 
atuais \u2013 teve por mérito abandonar os critérios oferecidos pela Antropologia 
Criminal lombrosiana, num período em que o positivismo criminológico se 
mantinha em alta no cenário internacional (ZAFFARONI et al., 2003). 
Pouco depois, a Constituição de 1946 reafirmou o princípio da igualdade e 
previu, pela primeira vez, não serem toleradas quaisquer propagandas de cunho 
preconceituoso, quanto à raça ou classe.36
 
cultural que resultou no máximo de aproveitamento dos valores e experiências dos povos atrasados 
pelo adiantado; no máximo de contemporização da cultura adventícia com a nativa, da do 
conquistador com a do conquistado\u201d. 
 
34 É o que Florestan Fernandes (1978, p. 256) nomeou como o \u201cmito da democracia racial\u201d. 
35 Artigo 113. Não obstante tal positivação, consta a aprovação de emenda constitucional, 
proibindo a concentração de populacional de imigrantes no Brasil. Doze anos depois, durante a 
Assembleia Nacional Constituinte de 1946, a emenda 3.165, num verdadeiro fôlego \u201cniponófobo\u201d, 
proclamou ser \u201cproibida a entrada no país de imigrantes japoneses de qualquer idade e de qualquer 
procedência\u201d. Nesse interregno, porém \u2013 sobretudo após a entrada do Japão na Segunda Guerra 
Mundial, em 1941 -, o Estado Novo brasileiro incorporara o preconceito antinipônico, confiscando 
bens das empresas nipônicas instaladas no Brasil e proibindo que a língua japonesa fosse falada 
em público (SUZUKI JR., 2008, p. 4-5). 
36 Artigo 141, §5°: Art 141 - A Constituição assegura aos brasileiros e aos estrangeiros residentes 
no País a inviolabilidade dos direitos concernentes à vida, à liberdade, a segurança individual e à 
propriedade, nos termos seguintes: 
26 CATALDO Neto, A.; DEGANI, E. P. \u2013 Em busca da igualdade prometida: 
Passados cerca de cinco anos, o Brasil editou a Lei Afonso Arinos, 
primeiro diploma infraconstitucional prevendo como contravenção penal \u201ca 
prática de atos resultantes de preconceito de raça ou de cor\u201d.37
Na visão de Silva, porém (1994, p. 128): 
 Esses atos 
restaram definidos em nove artigos, todos relacionados a determinadas recusas, 
por parte de estabelecimentos comerciais, órgãos públicos e instituições de 
ensino, em razão de preconceito de raça ou de cor. Como exemplos, podem ser 
referidos: a negativa de hospedagem em hotel ou similares (artigo 2º) ou a 
obstaculização do acesso a emprego público, em quaisquer setores da 
administração direta e indireta (artigos 6° e 7º). 
 
Por ironia, o principal mérito da lei [Afonso Arinos] foi 
descrever a forma como se dava a discriminação (aliás, nem 
o termo discriminação nem o termo segregação aparecem no 
texto [...]. Se por um lado, todavia, a lei contribuiu para que 
se reduzissem as manifestações explícitas de discriminação 
(e não do preconceito, como o termo é usado no texto), por 
outro lado contribui para a sofisticação das atitudes [...] 
discriminatórias. [...] Agora se passaria aos requintes da 
hipocrisia, pois a tipificação da contravenção, como posta na 
lei, sempre foi difícil, dificílima, de caracterizar; 
praticamente impossível. Ora, quem iria declarar o motivo \u2013 
\u201cpor preconceito de raça ou de cor\u201d \u2013 para obstar o acesso 
de negros a locais, estabelecimentos, cargos e empregos? 
Não. Agora será a era dos estratagemas e dos artifícios. 
 
Outra importante crítica à Lei Afonso Arinos centrou-se na descrição 
particularista das condutas típicas consideradas preconceituosas, fruto, segundo 
Prudente (1989), da motivação do autor do anteprojeto de lei: 
 
Resultado da emotividade e improvisação, esta lei teve 
como causa imediata a discriminação racial sofrida por seu 
motorista negro, que há trinta e cinco anos servia sua família 
e que teve sua entrada barrada em uma confeitaria no Rio de