Biologia da Conservação e Manejo da Vida Silvestre_Cullen_Rudy_Rudran_e_Valladare -1
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gem a listas de espécies e alguns poucos dados de riqueza local, além do 
incremento de material em coleções biológicas. Apesar da eficiência desses 
inventários, eles apresentam uma grande desvantagem. Os dados de riqueza 
gerados nesses estudos raramente são comparáveis, porque não apresentam 
métodos de coleta padronizados. Muitas vezes, resultados de inventários tra­
dicionais são publicados sem nem sequer apresentar uma descrição detalhada 
dos métodos utilizados e do esforço de coleta despendido. Quando não se 
sabe quanto esforço de coleta foi aplicado a um determinado local, é difícil 
determinar se este apresenta maior diversidade em espécies do que outros.
Uma vez escolhido o grupo e o local a serem amostrados, é importante selecio­
nar um método de coleta em massa (que permita obter o máximo de espécimes, 
com o mínimo de esforço) e planejar uma maneira de medir o esforço de cole­
ta. Exisle uma grande variedade de métodos de coleta e muitas vezes um mes­
mo táxon pode ser coletado por várias técnicas diferentes. A escolha dos mé­
todos de coleta é muito importante porque técnicas diferentes permitem amos­
trar partes diferentes do ambiente (serrapilheira, sub-bosque, troncos e copa 
das árvores, entre outros). Nesses casos, o emprego de mais de um método de 
coleta pode ser muito útil, permitindo amostrar uma porção maior da comuni-
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dade. Isso não significa, entretanto, que todos os métodos disponíveis devam 
ser empregados, uma vez que muitos são redundantes (veja um bom exemplo 
disto em Longino & Colwell 1997).
Como mencionado acima, o planejamento da coleta deve levar em conta medi­
das de esforço amostrai. A melhor estratégia neste caso é dividir o esforço em 
unidades de tamanho padronizado, que podem ser usadas como réplicas em 
análises estatísticas. Esta divisão implica um pouco mais de esforço na coleta, 
uma vez que o material coletado deve ser acondicionado e examinado em uni­
dades separadas (por exemplo, insetos seriam colocados em frascos separa­
dos, por unidade amostrai, ao invés de acondicionados todos em um grande 
frasco). Cada método de coleta permite um tipo de unidade amostrai, por exem­
plo: unidades de tempo (horas) para coletas baseadas em busca visual (redes 
para insetos, amostragem de aves), unidades de áreas (parcelas de tamanho 
padronizado para amostragem de vegetação ou coleta de folhiço) ou por núme­
ro de coletas (como número de armadilhas para mamíferos ou insetos, sendo 
cada armadilha uma unidade independente). Embora isso possa ser bem mais 
trabalhoso do que meramente chegar ao local e começar a coletar, a criação de 
unidades de medida de esforço será discutida abaixo.
Uma vez terminada a coleta, os espécimes devem ser analisados em laboratório 
e identificados. Essa é uma fase difícil para estudiosos de grupos hiperdiver- 
sos, como invertebrados ou microorganismos, porque esses são justamente os 
grupos menos estudados por sistematas (Gaston & May 1992). Em alguns ca­
sos, esses grupos podem ser separados em morfoespécies (ou unidades taxo- 
nômicas operacionais) por pessoas treinadas para este fim (Oliver & Beattie 
1996). Isso não significa que taxonomistas sejam figuras dispensáveis nesse 
tipo de estudo, uma vez que listas de espécies podem ser importantes para 
comparações de composição entre áreas, especialmente quando se busca pa­
drões de similaridade entre diversas localidades. Porém, se o que se deseja é 
analisar padrões de riqueza, não é necessário saber o nome das espécies cole­
tadas para prosseguir com as análises.
Um sistema de trabalho semelhante ao descrito acima é utilizado pelo progra­
ma de inventário nacional da Costa Rica (INBIO), que utiliza técnicos, chama­
dos parataxonomistas, treinados para coleta e separação de vários grupos taxo- 
nômicos em morfoespécies. Ü material examinado por estes técnicos é envia­
do a especialistas para correções e identificação (Gamez 1991).
Um ponto impottante a se considerar em inventários é o destino dos espéci­
mes coletados. Em muitos casos, as instituições onde trabalham autores des-
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ESTIMATIVAS DE RIQUEZA EM ESPÉCIES
tes estudos não apresentam infraestrutura para manutenção de coleções bioló­
gicas e o material coletado acaba se estragando, quando não é simplesmente 
descartado. Isso é lamentável, considerando que esses espécimes poderiam 
ser muito úteis para estudos de sistemática. Além disto, uma vez que muitos 
inventários, mesmo aqueles executados por sistematas, apresentam poucas 
morfoespécies identificadas (devido a problemas na sistemática do grupo ou à 
ausência de especialistas), a única forma de garantir futuras comparações qua­
litativas entre esses estudos é a preservação de testemunhos em coleções (Hu- 
ber 1998). Os melhores locais para preservar esses testemunhos são museus 
de história natural ou outras instituições qüe mantenham coleções com infra­
estrutura e curadoria adequadas. Uma vez que se saiba quantas espécies foram 
coletadas e quantos indivíduos de cada uma ocorrem em cada unidade amos­
trai, é possível iniciar a análise dos dados.
Estimativas de riqueza
Como mencionado anteriormente., a riqueza em espécies obtida em um inven­
tário depende não só das características da área amostrada, mas também do 
esforço de coleta despendido. Uma forma simples, mas infelizmente nem sem­
pre utilizada, de mostrar isso são as curvas de acumulação de espécies ou 
curvas do coletor. Este tipo de gráfico mostra o acúmulo de espécies diferentes 
coletadas à medida que se aumenta o esforço de amostragem, como exemplifi­
cado na Figura 1.
Número acumulativo de espécies
Figura 1. Curva de acumulação de espécies hipotética, mostrando o aumento do número de 
espécies à medida que novas unidades amostrais são adicionadas. A linha representa uma 
curva média calculada a partir de cem curvas construídas com ordem aleatória de adição de 
amostras. As barras verticais mostram a variação possível entre essas curvas.
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ADALBERTO JOSÉ DOS SANTOS
O primeiro detalhe importante que se pode notar nesta figura é que, para mon­
tar esta curva, é essencial que a coleta esteja dividida em unidades amostrais. 
As unidades amostrais podem ser adicionadas à curva em qualquer ordem, 
embora adicioná-las na ordem em que foram feitas (por exemplo, da primeira 
até a última hora de coleta] pode ajudar na detecção de possíveis mudanças de 
hábitat durante a amostragem. É relativamente comum observar curvas de cole­
tor que apresentam degraus; a curva se apresenta quase estabilizada, mas em um 
determinado ponto ocorre um grande incremento de riqueza, o que pode indicar 
que outro tipo de hábitat, com uma comunidade distinta, foi amostrado.
Quando o objetivo é analisar o padrão geral de incremento em riqueza da 
coleta, é importante considerar que o formato da curva pode variar em relação 
à ordem de adição de amostras. Isto é especialmente notável quando o conjun­
to de amostras é muito heterogêneo, com algumas unidades amostrais muito 
ricas e outras com poucas espécies. Para contornar esse problema, Colwell & 
Coddington (1994) sugeriram um método que consiste em montar várias cur­
vas adicionando-se as amostras em uma ordem aleatória. Após construir várias 
curvas por este método, pode-se calcular uma curva de coletor média (baseada 
na riqueza média para cada número de amostras) e expressar a variação possí­
vel em torno dessa média (Figura 1- ver barras verticais ao longo da curva). E 
importante frisar que esta variação não corresponde ao conceito estatístico de 
intervalo de confiança, já que é calculada por repetições das mesmas unidades 
amostrais.
As curvas de acumulação de espécies são um excelente procedimento para 
avaliar o quanto um inventário se aproxima de capturar todas as espécies do 
local estudado. Se a curva estabiliza, isto é, atinge um ponto em que o aumen­
to do esforço de coleta
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