A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
250 pág.
Antigos e Modernos, Diálogos sobre a Escrita da História- Francisco Murari

Pré-visualização | Página 1 de 50

Antigos e Modernos
antigos e modernos.indd 1 1/1/1980 14:51:07
antigos e modernos.indd 2 1/1/1980 14:51:07
Antigos e Modernos
diálogos sobre a (escrita da) história
Francisco Murari Pires e Marlene Suano (orgs.)
antigos e modernos.indd 3 1/1/1980 14:51:08
Edição: Joana Monteleone
Assistente editorial: Marília Chaves
Projeto gráfico, diagramação e capa: Marília Chaves
Revisão:
ALAMEDA CASA EDITORIAL
Rua Iperoig, 351. Perdizes.
CEP 05016-000 - São Paulo - SP
www.alamedaeditorial.com.br
antigos e modernos.indd 4 1/1/1980 14:51:08
Sumário 
Prólogo
A redescoberta dos historiadores antigos no Humanismo
 e o nascimento da historiografia moderna
Gabriella Albanese
Conquista e influências culturais. 
Escrever a história da época helenística
 no século XIX (Alemanha, Inglaterra, França)
Pascal Payen
O Direito e os costumes: 
um exame comparativo 
(Montaigne, Hotman e Pasquier)
Luiz Costa Lima
A construção do passado 
nas crônicas assiro-babilônicas
Marcelo Rede
Arqueologia como Arqueografia 
Marlene Suano
A nova “economia antiga”: 
notas sobre a gênese de um modelo
Miguel Soares Palmeira 
Antigos e Modernos:
Maquiavel e a leitura polibiana da história
Marie-Rose Guelfucci 
Museus de História
representações do passado, 
inquietações no presente
Cecília Helena de Salles Oliveira 
9
19
71
99
133
147
153
169
189
antigos e modernos.indd 5 1/1/1980 14:51:08
Liberalismo, História e Escravidão: 
presença dos antigos na argumentação
 de Joaquim Nabuco
Izabel Andrade Marson
 
Antigos, modernos e “selvagens” 
na obra de Francisco Adolfo de Varnhagen.
 Comparação e paralelo na escrita da 
historia brasileira oitocentista.
Temístocles Cézar 
Borges e a Tradição Clássica 
Hugo Francisco Bauzá
Maquiavel, a Corte dos Antigos e
(o diálogo com) Tucídides
Francisco Murari Pires 
Piadas impressas e formatos da 
narrativa humorística brasileira.
Elias Thomé Saliba 
Escravidão moderna, ideologia antiga: 
as idéias jesuíticas sobre escravidão na
América portuguesa do século XVIII
Fábio Duarte Joly e Rafael de Bivar Marquese
A Heterogenneidade das Fontes Antigas
 no Debate sobre a Escravidão moderna
Carlos Alberto de Moura Ribeiro Zeron
Gramsci e a Escrita da História:
Algumas Notas
Lincoln Secco
Mito, Razão e Enigma 
André Malta 
Vida e Sonho em Caledrón de La Barca:
o espelho do político e do onírico na
 tragicomédia de Segismundo.
Luís Filipe Silvério Lima 
205
229
247
261
291
309
347
363
375
401
antigos e modernos.indd 6 1/1/1980 14:51:08
Experiência e método
José Otávio Guimarães
Como Um Barco à Deriva. 
Entrevista com Jean-Pierre Vernant
José Otávio Guimarães
Vistas Urbanas, Doces Lembranças
as funções narrativas e ornamentais
nas paisagens e retratos fotográficos.
Solange Ferraz de Lima e 
Vânia Carneiro de Carvalho
A sociologia comparada de Marcel Mauss: 
da “civilização” ao “dom”
Marcos Lanna 
Antigos e Modernos na escrita da 
história portuguesa e brasílica
Íris Kantor 
A recuperação da antiguidade clássica e a 
instalação da república nos Estados Unidos da América 
(fins do XVIII e início do XIX).
Mary A. Junqueira. 
“Wie es eigentlich gewesen ist”, 
“Wie es eigentlich geschehen ist”: 
a percepção rankeana da história frente às 
vicissitudes da subjetividade em Freud.
Ana Lúcia Mandacarú Lobo 
415
421
441
459
483
499
511
antigos e modernos.indd 7 1/1/1980 14:51:08
antigos e modernos.indd 8 1/1/1980 14:51:08
Prólogo
Antigos e Modernos, 
o Fardo e o Fio
 
Ao firmar no Proêmio de sua obra qual fosse a valia da história que ele narrava, Tucídides 
adverte contra os apelos que a desviassem pelas veredas sedutoras dos relatos mitificantes 
(tò mythõdes)1. Por tais modos narrativos, consagrados por poetas e logógrafos, a narração 
de histórias sujeitava (e perdia) sua finalidade enquanto memorização de feitos humanos 
ao sacrificar a expressão da verdade dos acontecimentos em prol da fruição do que era do 
agrado do público presente a quem fossem contadas. Ordenação da narrativa das ações 
dos homens pelos efeitos do mito que frustra a valia de suas histórias fazendo desvanecer, 
pelo deleite fugaz do presente, o alcance perene a que a memória humana almeja por (i)
mortalidade. Tucídides, pelo contrário, duz ordenar sua narração pelo primado cognitivo 
da verdade dos fatos, apreendida graças à acribia de excelência ajuizante por historiador 
que se fundamenta pela autópsia fenomênica porque se presenciam os acontecimentos. A 
memorização das ações humanas ganha clarividência pela narração de uma história, a da 
Guerra dos Peloponésios e Atenienses, então cristalizada como saber. Dado que os homens, 
pelos modos próprios de sua natureza, assemelham suas ações no curso do tempo históri-
co, praticando-as tais quais ou análogas às do passado, a história, constituída como ciência 
clarividente, dispõe ktema es aei (aquisição para sempre). O olhar da história tucidideana 
1 Tucídides I.22.4.
Francisco Murari Pires (DH/USP)
antigos e modernos.indd 9 1/1/1980 14:51:08
10 Francisco Murari Pires e Marlene Suano (orgs.)
volta a plenificação de sua valia para o futuro, quer imediato quer longínquo, porque os 
homens desta temporalidade a reconheçam no presente de suas ações.
A história, por esse entendimento tucidideano, figura essencialmente a instância pri-
vilegiada de saber humano, isto é, dos homens e para os homens, presentes e vindouros, 
de todos os tempos. Mas que valia útil de ensinamentos seria essa vislumbrada para a 
história da humanidade por Tucídides? O saber clarividente que sua história proclama 
ter alcançado pela observação da guerra do Peloponeso poderia projetar sua validade 
sobre toda a história humana, pondo à disposição dos homens futuros as diretrizes que 
lhes permitissem corrigir, na atualidade presente de sua própria história, os erros do 
passado por ele lá acusados naquela guerra dele contemporânea? Ou, antes, Tucídides 
estaria assim oracularmente antecipando a reiteração persistente dos mesmos erros ao 
longo da história, feita por homens de natureza incorrigível, como, aliás, o sugere Chate-
aubriand numa passagem do Gênio do Cristianismo: “Tucídides retratou com severidade 
os males causados pelas dissensões políticas, deixando à posteridade exemplos jamais 
aproveitados”2? Pensamento algo similar é firmado também por Marx, que revelava, em 
carta a seu discípulo Ferdinand Lassalle, a razão porque então, maio de 1861, estava lendo 
Tucídides: “Estes antigos, pelo menos, permanecem sempre novos”3. Então, a convicção 
(e o orgulho) do saber histórico tucidideano refletiria um otimismo esperançoso quanto 
à melhora, senão aperfeiçoamento, da natureza humana ou, pelo contrário, acusaria um 
pessimismo amargurado, dela desiludido e descrente? Pois, essa virtuosidade sapiencial 
de vocação política por ele firmada para a escrita da história, bem afiançada por sua 
exemplaridade de histórias consumadas, teria a mesma ambígüa (in)eficácia em direcio-
nar os atos humanos que uma outra, aquela aventada pelo mito paradigmático porque 
Fênix aconselhou Aquiles?
Diz Políbio que é dever do historiador, ao empreender a composição de sua obra, 
tecer o louvor da História, firmar e reiterar as virtudes mais os benefícios que consagram 
e, pois, recomendam a todos os homens de todas as épocas a valia do cohecimento histó-
rico. Ele assim o proclamava em Roma antiga, por meados do II século antes da era cristã, 
justo quando a cidade consolidava seu (suposto ou alegado) destino histórico de senhora 
do mundo, recém derrotada e aniquilada Cartago, que com ela rivalizava nas pretensões 
ambiciosas de um tal projeto. Políbio então