A Eficacia dos Direitos Fundamentais - INGO SARLET -(2012)
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A Eficacia dos Direitos Fundamentais - INGO SARLET -(2012)


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se encontravam virtualmente à disposição do legislador,
visto que não vinculavam o Parlamento, à míngua de um sistema operante de controle de
constitucionalidade das leis. Ainda neste contexto, é de lembrar que, enquanto na França o sentido
revolucionário da Declaração de 1789 radica na fundamentação de uma nova Constituição, no
processo constitucional norte-americano este sentido revolucionário das declarações de direitos radica
na independência, em consequência da qual se faz necessária uma nova Constituição.78 A contribuição
francesa, no entanto, foi decisiva para o processo de constitucionalização e reconhecimento de direitos
e liberdades fundamentais nas Constituições do século XIX. Cabe citar aqui a lição de Martin Kriele,
que, de forma sintética e marcante, traduz a relevância de ambas as Declarações para a consagração
dos direitos fundamentais, afirmando que, enquanto os americanos tinham apenas direitos
fundamentais, a França legou ao mundo os direitos humanos.79 Atente-se, ainda, para a circunstância
de que a evolução no campo da positivação dos direitos fundamentais, recém-traçada de forma
sumária, culminou com a afirmação (ainda que não em caráter definitivo) do Estado de Direito, na sua
concepção liberal-burguesa, por sua vez determinante para a concepção clássica dos direitos
fundamentais que caracteriza a assim denominada primeira dimensão (geração) destes direitos.
2.4. As diversas dimensões dos direitos fundamentais e sua importância nas etapas de sua
positivação nas esferas constitucional e internacional
2.4.1. Generalidades
Desde o seu reconhecimento nas primeiras Constituições, os direitos fundamentais passaram por
diversas transformações, tanto no que diz com o seu conteúdo, quanto no que concerne à sua
titularidade, eficácia e efetivação. Costuma-se, neste contexto marcado pela autêntica mutação
histórica experimentada pelos direitos fundamentais,80 falar da existência de três gerações de direitos,
havendo, inclusive, quem defenda a existência de uma quarta e até mesmo de uma quinta e sexta
gerações. Num primeiro momento, é de se ressaltarem as fundadas críticas que vêm sendo dirigidas
contra o próprio termo \u201cgerações\u201d por parte da doutrina alienígena e nacional. Com efeito, não há
como negar que o reconhecimento progressivo de novos direitos fundamentais tem o caráter de um
processo cumulativo, de complementaridade,81 e não de alternância, de tal sorte que o uso da
expressão \u201cgerações\u201d pode ensejar a falsa impressão da substituição gradativa de uma geração por
outra, razão pela qual há quem prefira o termo \u201cdimensões\u201d dos direitos fundamentais, posição esta
que aqui optamos por perfilhar, na esteira da mais moderna doutrina.82 Neste contexto, aludiu-se,
entre nós, de forma notadamente irônica, ao que se chama de \u201cfantasia das chamadas gerações de
direitos\u201d, que, além da imprecisão terminológica já consignada, conduz ao entendimento equivocado
de que os direitos fundamentais se substituem ao longo do tempo, não se encontrando em permanente
processo de expansão, cumulação e fortalecimento.83 Ressalte-se, todavia, que a discordância reside
essencialmente na esfera terminológica, havendo, em princípio, consenso no que diz com o conteúdo
das respectivas dimensões e \u201cgerações\u201d de direitos.84
Em que pese o dissídio na esfera terminológica, verifica-se crescente convergência de opiniões no
que concerne à ideia que norteia a concepção das três (ou quatro, se assim preferirmos) dimensões dos
direitos fundamentais, no sentido de que estes, tendo tido sua trajetória existencial inaugurada com o
reconhecimento formal nas primeiras Constituições escritas dos clássicos direitos de matriz liberal-
burguesa, se encontram em constante processo de transformação, culminando com a recepção, nos
catálogos constitucionais e na seara do Direito Internacional, de múltiplas e diferenciadas posições
jurídicas, cujo conteúdo é tão variável quanto as transformações ocorridas na realidade social,
política, cultural e econômica ao longo dos tempos.85 Assim sendo, a teoria dimensional dos direitos
fundamentais não aponta, tão somente, para o caráter cumulativo do processo evolutivo e para a
natureza complementar de todos os direitos fundamentais, mas afirma, para além disso, sua unidade e
indivisibilidade no contexto do direito constitucional interno e, de modo especial, na esfera do
moderno \u201cDireito Internacional dos Direitos Humanos.\u201d86
Pela sua relevância para uma adequada compreensão do conteúdo, importância e das funções dos
direitos fundamentais na atualidade, impõe-se breve digressão sobre esta temática, que deverá iniciar
com uma visão panorâmica sobre as principais características de cada uma das dimensões dos direitos
fundamentais, encerrando com algumas considerações sumárias de natureza crítica a respeito desta
matéria. Além disso, em prol da clareza, é de se atentar para a circunstância de que a expressão
\u201cdimensões\u201d (ou \u201cgerações\u201d), em que pese sua habitual vinculação com a terminologia direitos
humanos, se aplica igualmente aos direitos fundamentais de cunho constitucional.
2.4.2. Os direitos fundamentais da primeira dimensão
Os direitos fundamentais, ao menos no âmbito de seu reconhecimento nas primeiras Constituições
escritas, são o produto peculiar (ressalvado certo conteúdo social característico do constitucionalismo
francês), do pensamento liberal-burguês do século XVIII,87 de marcado cunho individualista, surgindo
e afirmando-se como direitos do indivíduo frente ao Estado, mais especificamente como direitos de
defesa, demarcando uma zona de não intervenção do Estado e uma esfera de autonomia individual em
face de seu poder.88 São, por este motivo, apresentados como direitos de cunho \u201cnegativo\u201d, uma vez
que dirigidos a uma abstenção, e não a uma conduta positiva por parte dos poderes públicos, sendo,
neste sentido, \u201cdireitos de resistência ou de oposição perante o Estado\u201d.89 Assumem particular relevo
no rol desses direitos, especialmente pela sua notória inspiração jusnaturalista, os direitos à vida, à
liberdade, à propriedade e à igualdade perante a lei. São, posteriormente, complementados por um
leque de liberdades, incluindo as assim denominadas liberdades de expressão coletiva (liberdades de
expressão, imprensa, manifestação, reunião, associação etc.) e pelos direitos de participação política,
tais como o direito de voto e a capacidade eleitoral passiva, revelando, de tal sorte, a íntima correlação
entre os direitos fundamentais e a democracia.90 Também o direito de igualdade, entendido como
igualdade formal (perante a lei) e algumas garantias processuais (devido processo legal, habeas
corpus, direito de petição) se enquadram nesta categoria. Em suma, como relembra P. Bonavides,
cuida-se dos assim chamados direitos civis e políticos, que, em sua maioria, correspondem à fase
inicial do constitucionalismo ocidental,91 mas que continuam a integrar os catálogos das
Constituições no limiar do terceiro milênio, ainda que lhes tenha sido atribuído, por vezes, conteúdo e
significado diferenciados.
2.4.3. Os direitos econômicos, sociais e culturais da segunda dimensão
O impacto da industrialização e os graves problemas sociais e econômicos que a acompanharam, as
doutrinas socialistas e a constatação de que a consagração formal de liberdade e igualdade não gerava
a garantia do seu efetivo gozo acabaram, já no decorrer do século XIX, gerando amplos movimentos
reivindicatórios e o reconhecimento progressivo de direitos, atribuindo ao Estado comportamento
ativo na realização da justiça social. A nota distintiva destes direitos é a sua dimensão positiva, uma
vez que se cuida não mais de evitar a intervenção do Estado na esfera da liberdade individual, mas,
sim, na lapidar formulação de C. Lafer, de propiciar um \u201cdireito de participar do bem-estar social\u201d.92
Não se cuida mais, portanto, de liberdade do e perante o Estado, e sim de liberdade por intermédio do
Estado. Estes direitos