A Eficacia dos Direitos Fundamentais - INGO SARLET -(2012)
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A Eficacia dos Direitos Fundamentais - INGO SARLET -(2012)


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considerar
que apenas a dignidade de determinada (ou de determinadas) pessoa é passível de ser desrespeitada,
inexistindo atentados contra a dignidade da pessoa humana em abstrato.305 Vinculada a esta ideia, que
já transparecia no pensamento kantiano, encontra-se a concepção de que a dignidade constitui atributo
da pessoa humana individualmente considerada, e não de um ser ideal ou abstrato, não sendo lícito
confundir as noções de dignidade da pessoa humana e dignidade humana (da humanidade).306
Verifica-se, neste contexto, que o Constituinte de 87/88 acolheu esta distinção, consagrando o
princípio da dignidade da pessoa humana (e não da dignidade humana) entre os princípios
fundamentais de nossa Carta.
Por outro lado, não se descarta uma dimensão comunitária (ou social) da dignidade da pessoa
humana, na medida em que todos são iguais em dignidade e como tais convivem em determinada
comunidade ou grupo. Neste contexto, assume relevo a lição de Pérez Luño, que, arrimado na doutrina
de Werner Maihofer, sustenta uma dimensão intersubjetiva da dignidade, partindo da situação básica
do ser humano em sua relação com os demais (do ser com os outros), em vez de fazê-lo em função do
homem singular, limitado a sua esfera individual.307 Mesmo assim, não se admite, em princípio, o
sacrifício da dignidade pessoal em favor da comunidade,308 já que a dignidade, como (ao menos
também) qualidade inerente a cada ser humano, deste não pode ser retirada, perdendo-a apenas quando
lhe faltar a vida, sem prejuízo dos \u2013 já reconhecidos \u2013 efeitos post mortem da dignidade. Quanto à
possibilidade de se estabelecerem limites (restrições) à autonomia e liberdade pessoal, não restam
dúvidas de que estas não se encontram vedadas. Até que ponto, contudo, a própria dignidade é
disponível, no sentido de estar, ou não, sujeita a restrições, é tema sobre o qual voltaremos a nos
manifestar. Outra indagação que desafia uma análise mais aprofundada diz com a contextualização
histórico-cultural da dignidade da pessoa humana. Com efeito, é de perguntar-se até que ponto a
dignidade não está acima das especifidades culturais, que, muitas vezes, justificam atos que, para a
maior parte da humanidade são considerados atentatórios à dignidade da pessoa humana, mas que para
determinados povos são tidos como legítimos. Esta é, sem dúvida, apenas mais uma das questões que
aqui haveremos de deixar em aberto.
Com base em tudo que até agora foi exposto, verifica-se que reduzir a uma fórmula abstrata e
genérica aquilo que constitui o conteúdo da dignidade da pessoa humana, em outras palavras, seu
âmbito de proteção, não parece ser possível, a não ser mediante a devida análise no caso concreto.
Como ponto de partida, vale citar a fórmula desenvolvida na Alemanha por Günter Dürig, para quem a
dignidade da pessoa humana poderia ser considerada atingida sempre que a pessoa concreta (o
indivíduo) fosse rebaixada a objeto, a mero instrumento, tratada como uma coisa, em outras palavras,
na descaracterização da pessoa humana como sujeito de direitos.309 Esta fórmula, por evidente, não
oferece uma solução global para o problema (já que não define previamente o que deve ser protegido),
mas permite a verificação, no caso concreto, da existência de uma efetiva agressão contra a dignidade
da pessoa humana, fornecendo, ao menos, uma direção a ser seguida. A doutrina e a jurisprudência
encarregaram-se, contudo, de identificar algumas posições que integram o âmbito de proteção da
dignidade da pessoa humana, ao menos de acordo com as circunstâncias atuais, e que, portanto,
constituem exigências diretas e essenciais do princípio ora em exame.
Assim, não restam dúvidas de que a dignidade da pessoa humana engloba necessariamente o
respeito e a proteção da integridade física e corporal do indivíduo, do que decorrem, por exemplo, a
proibição da pena de morte, da tortura, das penas de natureza corporal, da utilização da pessoa humana
para experiências científicas, limitações aos meios de prova (utilização de detector de mentiras),
regras relativas aos transplantes de órgãos etc.310 Neste sentido, diz-se que, para a preservação da
dignidade da pessoa humana, se torna indispensável não tratar as pessoas de tal modo que se lhes torne
impossível representar a contingência de seu próprio corpo como momento de sua própria, autônoma e
responsável individualidade.311 Uma outra dimensão intimamente associada ao valor da dignidade da
pessoa humana consiste na garantia de condições justas e adequadas de vida para o indivíduo e sua
família, contexto no qual assumem relevo de modo especial os direitos sociais ao trabalho, a um
sistema efetivo de seguridade social, em última análise, à proteção da pessoa contra as necessidades
de ordem material e à asseguração de uma existência com dignidade.312
Para além disso, constitui pressuposto essencial para o respeito da dignidade da pessoa humana a
garantia da isonomia de todos os seres humanos, que não podem ser submetidos a tratamento
discriminatório e arbitrário, razão pela qual são intoleráveis a escravidão, a discriminação racial,
perseguições em virtude de motivos religiosos etc.313 Também a garantia da identidade (no sentido de
autonomia e integridade psíquica e intelectual) pessoal do indivíduo constitui uma das principais
expressões do princípio da dignidade da pessoa humana, concretizando-se, dentre outros aspectos, na
liberdade de consciência, de pensamento, de culto, na proteção da intimidade, da honra, da esfera
privada, enfim, de tudo que esteja associado ao livre desenvolvimento de sua personalidade,314 bem
como ao direito de autoderminação sobre os assuntos que dizem respeito à sua esfera particular, assim
como à garantia de um espaço privativo no âmbito do qual o indivíduo se encontra resguardado contra
ingerências na sua esfera pessoal.315 Na medida em que o exercício do poder constitui permanente
ameaça para a dignidade da pessoa humana, há quem considere a limitação do poder como uma
exigência diretamente decorrente desta, acarretando, dentre outras consequências, a necessidade de se
tolerarem ingerências na esfera pessoal apenas com base na lei e desde que resguardado o princípio da
proporcionalidade.316
O que se percebe, em última análise, é que onde não houver respeito pela vida e pela integridade
física do ser humano, onde as condições mínimas para uma existência digna não forem asseguradas,
onde a intimidade e identidade do indivíduo forem objeto de ingerências indevidas, onde sua
igualdade relativamente aos demais não for garantida, bem como onde não houver limitação do poder,
não haverá espaço para a dignidade da pessoa humana, e esta não passará de mero objeto de arbítrio e
injustiças. A concepção do homem-objeto, como visto, constitui justamente a antítese da noção da
dignidade da pessoa humana.317
Após estas breves considerações em torno da definição e do conteúdo do princípio da dignidade da
pessoa humana, importa avaliar seu status jurídico-normativo no âmbito de nosso ordenamento
constitucional. Se nas outras ordens constitucionais onde a dignidade da pessoa humana foi objeto de
expressa previsão no texto da Lei Fundamental nem sempre houve clareza quanto ao seu correto
enquadramento,318 tal não ocorre entre nós. Inspirando-se no constitucionalismo português e
espanhol, o Constituinte de 1987/88 preferiu não incluir a dignidade da pessoa humana no rol dos
direitos e garantias fundamentais, dando-lhe \u2013 pela primeira vez \u2013 o tratamento de princípio
fundamental da nossa atual Constituição (art. 1º, inc. III). Aliás, o enquadramento como princípio
fundamental é justamente o que melhor afina com a doutrina luso-brasileira dominante,319
encontrando suporte igualmente no âmbito da doutrina espanhola.320 Não se cuidando, portanto, de
autêntico e típico direito fundamental, tal não significa, por outro lado, que do princípio fundamental
da dignidade da pessoa humana não possam ser deduzidas posições jurídico-fundamentais