A Microbiota do Solo na Agricultura Orgânica e no Manejo das Culturas
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A Microbiota do Solo na Agricultura Orgânica e no Manejo das Culturas


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decresceram para 57, 52 e 36% para plantio direto, cobertura morta e pousio, respectivamente, em relação à pastagem nativa. A atividade microbiana, medida em laboratório pelo desprendimento de CO², mostrou a mesma tendência, ou seja, declinou com o aumento da intensidade de preparo. Segundo os autores, o aumento da intensidade de preparo diminui a habilidade do solo em imobilizar e conservar N no solo.
Balota et al. (1998), em experimento que vinha sendo realizado há doze anos, avaliaram durante três anos a biomassa e a atividade microbianas de um solo submetido a diferentes sucessões de cultura nos sistemas de plantio direto e convencional. Os autores verificaram que as sucessões praticamente não alteraram a biomassa nem a atividade microbiana. Entretanto, observaram que no sistema de plantio direto a biomassa microbiana foi bem maior que no sistema convencional.
Observaram também que no sistema de plantio direto houve menor perda de carbono via respiração, indicando com isso a possibilidade de aumento do estoque de carbono em longo prazo.
Avaliando a biomassa microbiana e a atividade da desidrogenase no solo submetido a diferentes sucessões nos sistemas de plantio direto e convencional, Fernandes (1995) obteve valores de biomassa microbiana no plantio direto 42% superiores em relação ao plantio convencional. Na soja em rotação, houve um incremento de 23% no valor de biomassa microbiana, em relação à soja contínua. A atividade da desidrogenase do solo seguiu a mesma tendência dos valores obtidos para biomassa microbiana, obtendo-se uma correlação significativa entre ambas.
Scholles & Vargas (2000) utilizando diferentes preparos do solo (convencional, reduzido e plantio direto), duas sucessões de culturas, duas profundidades de amostragem do solo (0-5 e 5-15 cm) em quatro épocas, verificaram que tanto a biomassa quanto a atividade microbianas apresentaram maiores valores na camada de 0-5 cm, no sistema de plantio direto e reduzido e na sucessão aveia preta + ervilhaca/milho + caupi (Vigna sinensis).
4.2 Alterações da Microbiota Causadas pelo Manejo
Desde que se conseguiu produzir economicamente sem revolver o solo, isto é, no sistema plantio direto, alguns atributos físicos e químicos apresentaram-se diferentes daqueles encontrados no sistema convencional. Tais atributos, sendo alterados, causam alterações na dinâmica das populações de microrganismos do solo. O principal atributo físico alterado, quando se migra do sistema convencional de preparo do solo para o sistema de plantio direto, é a densidade do solo (Doran, 1980; Sá, 2001). Esta sofre um aumento resultante principalmente do tráfego das máquinas na superfície do solo. Esse aumento resulta de uma diminuição de macroporos e aumento de microporos no solo. Isso leva a maior retenção de água no solo e sua permanência por um período mais longo. Em virtude disso, pode aumentar a comunidade de microrganismos anaeróbios resultando, em termos práticos, em um maior acúmulo de matéria orgânica, porque em condições anaeróbias sua decomposição é incompleta. Já foi observado que no sistema plantio direto ocorre um aumento no estoque de carbono orgânico no solo em relação ao sistema convencional (Doran, 1980).
Esse aumento também foi acompanhado de um aumento da biomassa do solo sob aquele sistema. O autor também verificou que houve alteração na estrutura da comunidade, ou seja, aumentou consideravelmente as populações de microrganismos denitrificadores e anaeróbios facultativos.
No sistema de plantio direto a proliferação das raízes nas camadas superficiais (mais ou menos 5 cm de profundidade) do solo é freqüentemente maior que aquele das culturas implantadas em sistema convencional. Como a exsudação radicular fornece energia e nutrientes para os microrganismos, a biomassa microbiana é maior no primeiro sistema. 
Quando amostrado em maiores profundidades (25 cm), a biomassa tende a ser maior no solo lavrado. Isso não é particularmente surpresa, porque, se a produção de raízes é um dos principais fatores determinantes da biomassa microbiana, a presença das raízes em profundidade tende a correlacionar-se com a biomassa ao longo do perfil (Lynch, 1984).
Vários trabalhos, entre eles os de Fernandes (1995), Ruedell (1995), Gassen & Gassen (1996), Anghinoni & Salet (1998) e Scholles & Vargas (2000), relatam que a fertilidade do solo é maior no sistema de plantio direto que no convencional, especialmente nas camadas mais superficiais do solo. A fertilidade do solo está estreitamente relacionada com a matéria orgânica e a biomassa microbiana do solo (Fernandes, 1995; Scholles & Vargas, 2000).
O uso de adubos orgânicos pode provocar alterações na microbiota. Indicando essa tendência, pode-se citar o trabalho de Peacock et al. (2001), que encontraram resposta na estrutura da comunidade microbiana do solo em decorrência do uso de adubo orgânico (fezes, urina e cama de vacas leiteiras estabuladas). Nesse trabalho, a aplicação de adubo orgânico, por cinco anos, resultou em um aumento significativo nos teores de carbono orgânico e nitrogênio e na biomassa microbiana do solo. Além disso, proporcionou alterações na estrutura da comunidade microbiana. As práticas que aumentam carbono no solo e proporcionam mineralização lenta de nutrientes podem resultar em uma maior e mais estável comunidade microbiana.
O aumento da atividade biológica decorrente do incremento da matéria orgânica no solo pode, por conseqüência, aumentar a estabilidade dos agregados em água. Isto porque, além dos metabólitos resultantes da atividade em si (Tisdall & Oades, 1982), as hifas fúngicas atuam protegendo tais agregados (Lynch, 1984). Kushwaha et al. (2001) verificaram correlação positiva da biomassa microbiana do solo, nitrogênio total e carbono orgânico com os macroagregados. De acordo com esses autores, a biomassa microbiana e seus metabólitos unem os microagregados com reflexos no aumento dos macroagregados do solo.
4.3 As Simbioses e o Manejo
Em geral, tem sido verificado que os microrganismos simbiontes, rizóbio e fungos micorrízicos arbusculares (FMAs) mostram melhor adaptação ao sistema de plantio direto em relação ao sistema convencional. Fontaneli et al. (2000) avaliaram a nodulação da soja em quatro sucessões de culturas em sistema de plantio direto. Após cinco anos, verificaram abundante nodulação da soja independentemente do tipo de cultura antecedente. No mesmo sentido são as pesquisas de Campos et al. (2001) que avaliaram a eficiência de estirpes de Bradyrhizobium na soja em sistema de plantio direto e não encontraram resposta à inoculação.
Os autores concluíram que a ausência de resposta da soja à prática de inoculação pode ser atribuída às populações naturalizadas de Bradyrhizobium, em número adequado e eficiente, e às condições favoráveis à fixação biológica do nitrogênio, como temperatura e umidade adequadas do solo, proporcionadas pelo sistema.
A associação micorrízica também sofre influência do pré-cultivo e do manejo do solo. Oliveira & Sanders (1999) observaram que nos tratamentos com solo nu e com distúrbio mecânico houve redução na densidade de esporos de FMAs e na colonização radicular do feijoeiro. A colonização foi maior nas parcelas anteriormente cultivadas com cereais, especialmente no pré-cultivo com milho.
Pelo fato de fungos micorrízicos não se propagarem na ausência de hospedeiro, é natural que métodos de manejo que causem distúrbio ao solo ou que impeçam o desenvolvimento de raízes hospedeiras causarão danos ao desenvolvimento desses microrganismos.
Já se verificou aumento tanto na colonização radicular quanto no número de propágulos de fungos micorrízicos no sistema de plantio direto em relação ao convencional (McGonigle & Miller, 1993) ou em sistemas em que o solo seja menos perturbado (McGonigle & Miller, 1996). Todavia, isso parece não ser uma regra e depende muito da planta hospedeira, das espécies de fungos micorrízicos predominantes e da especificidade. Isso pode ser observado no trabalho de Fernandes (1995), onde foram encontrados