A Microbiota do Solo na Agricultura Orgânica e no Manejo das Culturas
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A Microbiota do Solo na Agricultura Orgânica e no Manejo das Culturas


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valores maiores de colonização de raízes da aveia em plantio direto que no convencional; porém, na soja a colonização foi semelhante entre os sistemas.
4.4 Rotação de Culturas e MIneralização do N Orgânico
A rotação de culturas é uma prática recomendada para reduzir o potencial de inóculo de patógenos para a cultura sucessora ou interromper o ciclo de determinadas pragas. Essa prática constitui-se num dos principais fatores determinantes da sustentabilidade do sistema de plantio direto e da agricultura orgânica.
Na rotação de culturas, o tipo (leguminosa ou não) e o destino (produção de grãos, de forragem ou de cobertura do solo/adubação verde) da cultura precedente, influencia diferentemente a biomassa microbiana do solo. Isso porque os resíduos culturais são diferentes, tanto em quantidade quanto em qualidade.
Como visto anteriormente, não há como dissociar a microbiota do solo da matéria orgânica e, no sistema de rotação de culturas, esta e o fornecimento de nutrientes. Isto é particularmente importante para a disponibilidade de N (nutriente requerido em grande quantidade) para a cultura que a sucede, uma vez que a disponibilidade é influenciada pela mineralização e imobilização do N contido nos resíduos orgânicos. Esses dois processos ocorrem simultaneamente e são levados a efeito pela comunidade microbiana do solo, cuja atividade é alterada por vários fatores, com destaque para a relação carbono/nitrogênio (C/N). De acordo com Stevenson (1986) uma relação C/N maior que 30 leva à imobilização de N; entre 20 e 30 a mineralização é igual à imobilização e com C/N menor que 20 predomina a mineralização.
Isto posto, serão discutidos alguns aspectos da rotação de culturas com base na disponibilidade de resíduos culturais aos microrganismos do solo e na possibilidade de fornecimento de N para a cultura subseqüente. Se uma gramínea é cultivada para cobertura do solo ou para adubação verde, na época do florescimento é manejada (rolagem ou dessecação ou incorporação ao solo). Nessa fase, apresenta uma relação C/N ao redor de 40. Essa relação, como visto anteriormente, é muito alta para uma adequada mineralização, podendo haver, pelo menos inicialmente, imobilização do N mineralizado. Daí, dependendo do tipo de cultura subseqüente, pode haver deficiência de N, mesmo havendo adequada quantidade desse nutriente passível de se tornar disponível.
Situação assim foi encontrada por Ferro (1991) e Andreola (2001) que observaram efeito negativo no rendimento do milho produzido depois que a aveia preta foi cultivada para adubação verde. Aita et al. (1991) também obtiveram apenas 51% do rendimento do milho em relação à testemunha nitrogenada, depois que a aveia preta foi cultivada para cobertura do solo e adubação verde.
O contrário tem sido observado com relação a leguminosas cultivadas após a aveia preta. Derpsch et al. (1985) encontraram efeito benéfico da aveia sobre o rendimento do feijoeiro; Ferro (1991) obteve aumento de até 14% no rendimento da soja e Scholles et al. (1983) observaram que a incorporação de palha de trigo não afetou o rendimento da soja.
Portanto, uma gramínea ou outra espécie que não fixa nitrogênio atmosférico, quando cultivada após uma gramínea (alta relação C/N), tem que receber adubação nitrogenada para expressar todo o seu potencial produtivo. Já as leguminosas, ao que tudo indica, não são afetadas, justamente pela sua característica de fixar o N atmosférico em associação com rizóbio.
Se a gramínea é cultivada para produção de grãos ou de forragem para fenação ou silagem, não se espera que o N se torne disponível para a cultura seguinte.
A maior parte do N absorvido é retirada da área quando os grãos são colhidos e praticamente todo o N é removido quando o destino da cultura é a fenação ou a silagem, permanecendo apenas aquele contido nas raízes (Salisbury & Ross, 1992).
A relação C/N da palha (resíduo cultural) de algumas gramíneas, pode ser excessivamente alta, devendo ocorrer mineralização lenta e alta taxa de imobilização. Por isso, se a cultura seguinte for gramínea, a adubação nitrogenada integral deve ser considerada. Se for leguminosa e formar simbiose eficiente, aquela relação não terá efeito sobre o desenvolvimento da cultura.
O cultivo associado de uma gramínea e uma não-gramínea, para adubação verde, pode proporcionar aumentos significativos nos rendimentos das culturas subseqüentes. Exemplos disso são os trabalhos de Ferro (1991), que cultivou aveia preta associada com tremoço e obteve incrementos significativos nos rendimentos tanto de milho quanto de soja; de Andreola et al. (1998a) que obtiveram em média 220 kg/ha de grãos de feijão a mais por causa do uso da aveia preta associada com nabo forrageiro e, ainda, de Andreola (2001) que avaliou associações entre gramíneas (aveia preta, centeio e triticale) e não-greamíneas (nabo forrageiro, ervilhaca e gorga). O último autor obteve aumentos significativos nos rendimentos de grãos de milho e de feijão, cultivados subseqüentemente às associações. O fundamento desses fatos pode ser visto no Quadro 2, em que a relação C/N das leguminosas utilizadas para adubação verde é bastante baixa. Na mistura com gramíneas, o resultado é uma relação menor que a da gramínea e, portanto, mais favorável à decomposição. Além disso a quantidade de N acumulado pela leguminosa é bastante considerável.
Quando se trata do uso de leguminosas como cobertura do solo ou adubação verde, a literatura que mostra o efeito benéfico sobre a cultura subseqüente, é bastante farta (Fundação Cargill, 1984; Rosolem, 1987; Aita et al., 1991; Ferro, 1991; Andreola et al. , 1998b; Andreola, 2001). Nela verifica-se que, em alguns casos, a leguminosa proporciona rendimento da cultura sucessora superior ao tratamento com dose integral de N (Fundação Cargill, 1984; Aita et al., 1991; Kanthack et al., 1991); em outros casos o fornecimento de N pela leguminosa é semelhante ao fornecido pela adubação mineral (Rosolem, 1987; De-Polli & Chada, 1989; Ferro, 1991; Andreola et al., 1998b; Andreola, 2001); porém, em outros casos ainda pode ser necessária a adição de doses complementares de N ( Baldissera e Scherer, 1991).
As diferenças acima apontadas podem ser causadas pelo manejo que se dá à leguminosa ou a exigência nutricional da cultura sucessora. Nos Estados de São Paulo (Fundação Cargill, 1984) e Rio de Janeiro (De-Polli & Chada, 1989), quando a mucuna atinge o estádio de florescimento pleno, é incorporada ao solo ou então é cortada e deixada na superfície do solo e o milho é semeado em seguida.
Praticamente todo o N requerido pela cultura do milho provém da decomposição da mucuna, pois as condições climáticas são favoráveis. Já no Paraná (Calegari, 1991) e Santa Catarina (Baldissera & Scherer, 1991; Andreola et al., 1998b), onde o objetivo principal do cultivo da mucuna preta é a manutenção do solo coberto durante o inverno, a mucuna é manejada de forma diferente. Ou seja, a mucuna é semeada entre as fileiras por ocasião do florescimento de milho. Após a colheita do milho, a mucuna continua vegetando, até a ocorrência das primeiras geadas, quando ela é \u201cqueimada\u201d. Assim, juntamente com a palhada do milho, ela permanece na superfície do solo durante todo o inverno. Por ocasião da implantação da safra de verão é incorporada ao solo ou então permanece como cobertura morta na superfície do solo. O milho é semeado em cultivo mínimo (abertura de sulcos para a semeadura) ou no sistema de plantio direto.
Nesse último sistema, a contribuição da mucuna ao fornecimento de N para o milho tem sido variável. Calegari (1991) encontrou 36%, enquanto Baldissera & Scherer (1991) obtiveram 55% de N proveniente da mucuna. Já Andreola et al. (1998b), em experimento com cinco anos de duração, não encontraram diferença entre os tratamentos com e sem mucuna no rendimento de grãos de milho. Entretanto, se a cultura sucessora é menos exigente em N, como é o caso da cebola, praticamente todo o N pode ser conseguido da mucuna (Costa et al., 1992).
A permanência dos resíduos