Tutela_Inhibitoria
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Tutela_Inhibitoria


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de se requerer uma tutela independentemente da existência de dano tem relação com o próprio conceito de norma jurídica, uma vez que se a única sanção contra o ilícito fosse a obrigação de ressarcir em virtude do dano, a própria razão de ser da norma estaria comprometida.
<a>3.9	A autonomia da ação inibitória
<texto>Antes da introdução do novo art. 461 no CPC, o que faria o advogado que se deparasse com a necessidade de inibir a veiculação de um programa de televisão, ou mesmo com a urgência de impedir que fossem novamente veiculadas notícias lesivas à honra de seu cliente? Não teria outra alternativa a não ser lançar mão de uma ação cautelar.
<texto>Caso a liminar fosse concedida na primeira hipótese, surgiria a \u201cvelha\u201d indagação a respeito da necessidade de uma ação principal, surgindo a falsa questão de uma \u201cação cautelar satisfativa\u201d. Esta ação rotulada de cautelar, entretanto, somente deveria exigir uma ação principal na ausência de definição, fundada em cognição exauriente, da ilicitude do ato.
<texto>Deixando-se de lado, por enquanto, o fato de que a tutela inibitória não se confunde com a tutela cautelar, é importante esclarecer que a ação inibitória, que teria sido proposta sob o rótulo de \u201cação cautelar\u201d, somente deveria necessitar de uma ação principal se terminasse não definindo a existência do ilícito. Em outras palavras, apenas a ação fundada em cognição sumária exige uma ação principal, dita de cognição exauriente. \ufffd
<texto>A tutela inibitória prestada sob o manto protetor da tutela cautelar somente não seria fundada em cognição exauriente se o juiz, em face do caso concreto, não aprofundasse a sua cognição sobre o ilícito, exigindo, em atenção ao art. 806 do CPC, a propositura da ação principal. Entretanto, como o art. 806, em tema de tutela cautelar, não dispensa a propositura da ação principal, não se atentava para a cognição da \u201cação cautelar\u201d e exigia-se sempre a propositura de uma ação principal, que se tornava, portanto, muitas vezes inútil.
<texto>Isto quer dizer que a ação inibitória, que agora permite \u2013 em razão das virtudes do novo art. 461 \u2013 a obtenção de tutela inibitória antecipada em seu seio, não necessita, por motivos bastante óbvios, de uma ação principal.
<texto>Voltemos, porém, ao segundo exemplo mencionado no início deste item. Antes da reforma de 1994, somente seria possível a obtenção de tutela inibitória \u201csumária\u201d, para impedir a repetição da divulgação de uma notícia lesiva à honra de uma determinada pessoa, via ação cautelar inominada.
<texto>Neste caso, porém, obtida ou não a \u201ctutela cautelar liminar\u201d, poderia ser proposta a ação de reparação de danos, já que a \u201ctutela cautelar\u201d teria por fim apenas impedir a prática de novos ilícitos.
<texto>Entretanto, o que acontecia, na prática, é que uma vez obtida a liminar cautelar, era proposta apenas a ação ressarcitória, que exigia o ressarcimento pelos danos anteriores, restando esquecida a necessidade da ação cominatória, que encontrava fundamento na antiga redação do art. 287 do CPC.
<texto>A ação cautelar \u2013 que em tese teria apenas cognição sumária \u2013 acabava sendo concebida como uma verdadeira ação preventiva. Esta ação cautelar não tinha qualquer relação instrumental com a ação de reparação de danos. Tal ação não visava a acautelar nenhum direito que estava sendo discutido na ação ressarcitória, até mesmo porque a única coisa que se poderia acautelar \u2013 na ação ressarcitória \u2013 seria o direito de crédito relativo ao dano.
<texto>O direito à prevenção não pode ser considerado um acessório do direito à reparação do dano. Isto significa que não há razão para se pensar que o direito à prevenção deve ser exigido por intermédio de ação cautelar. Antes da reforma que introduziu no Código de Processo Civil o art. 461, não havia ação de conhecimento (portanto autônoma) que pudesse viabilizar a realização do direito à prevenção, para o qual são fundamentais as técnicas presentes nesta norma. Apenas por esta razão é que era utilizada a ação cautelar. Com efeito, se a tutela que poderia ser prestada por meio da ação rotulada de cautelar jamais poderia interferir na ação voltada à reparação do dano, uma vez que entre elas não há qualquer ligação instrumental, deveria existir \u2013 como existe hoje \u2013 a possibilidade de se propor ação inibitória. Em outras palavras: ao invés de ação cautelar, seguida de ação ressarcitória \u2013 como acontecia antigamente \u2013, hoje devem ser propostas ação inibitória e ação ressarcitória, as quais podem ser cumuladas, pois a ação inibitória, assim como a ação ressarcitória, é uma ação de conhecimento, e portanto autônoma.
<aa>3.10	A inaptidão do antigo art. 287 para garantir uma tutela jurisdicional adequada e a confusão que se instalou entre a tutela preventiva e a tutela cautelar. A dificuldade de se perceber, hoje, a relação entre a tutela das obrigações de fazer e de não fazer e a tutela inibitória
<texto>O Código de Processo Civil de 1939 dispunha, no seu art. 302, XII, que a ação cominatória compete, em geral, a quem, por lei ou convenção, tiver direito de exigir de outrem que se abstenha de ato ou preste fato dentro de certo prazo. Esta ação cominatória iniciava-se por um preceito para que o réu se abstivesse da prática do ato ou o praticasse (conforme o caso), sob ameaça de pena. \ufffd
<texto>Lamentavelmente, porém, a jurisprudência da época do Código de 1939, distanciada da melhor doutrina, entendeu que a multa cominada ao devedor somente poderia começar a incidir após o trânsito em julgado da sentença e até mesmo, em uma interpretação ainda mais em desacordo com as necessidades de tutela, após a nova citação do réu vencido. \ufffd
<texto>Não se compreende, entretanto, a razão por que o Código de 1973 desatendeu às boas razões da doutrina, deixando-se vencer pelos argumentos dos tribunais. De fato, a antiga redação do art. 287 afirmava que \u201cse o autor pedir a condenação do réu a abster-se da prática de algum ato, a tolerar alguma atividade, ou a prestar fato que não possa ser realizado por terceiro, constará da petição inicial a cominação da pena pecuniária para o caso de descumprimento da sentença\u201d \ufffd.
<texto>Se o direito de acesso à justiça, porque garante o direito à adequada tutela jurisdicional, tem como corolário o direito à preordenação de procedimentos adequados à tutela dos direitos, é realmente incompreensível a disposição do antigo art. 287. É bom lembrar, aliás, que há direito à tutela jurisdicional adequada, porque o Estado, ao proibir a autotutela privada, assumiu o gravíssimo compromisso de tutelar de forma efetiva as diversas situações de direito material. Na verdade, o Estado, porque proibiu o agir privado, não pode se subtrair ao dever de viabilizar ao titular de um direito o mesmo resultado que ele obteria caso a ação privada não tivesse sido proibida, ou caso houvesse sido espontaneamente observada a norma de direito substancial.
<texto>Ora, se o processo, para atender a seus fins, deve permitir a realização da ação privada que foi proibida, não há como se chegar a outra conclusão: o antigo art. 287 não viabilizava a tutela preventiva e, assim, até a reforma que introduziu o art. 461, não havia uma ação adequada à prevenção do ilícito no Código de Processo Civil. \ufffd
<texto>Não é por razão diversa que a prática assistiu ao uso da ação cautelar inominada como remédio supletivo da lacuna deixada pelo legislador processual. O art. 798 do CPC sempre constituiu uma espécie de \u201cválvula de escape\u201d para a prestação da tutela jurisdicional adequada, sendo oportuno lembrar que a própria tutela antecipatória repressiva foi prestada, em um determinado momento, sob as vestes da tutela cautelar. \ufffd Assim, é fácil perceber o motivo pelo qual o direito à tutela preventiva passou a ser realizado por meio da ação cautelar inominada.
<texto>A necessidade de uma tutela jurisdicional preventiva, ao conduzir ao uso da tutela cautelar, fez surgir uma confusão entre tutela cautelar e tutela preventiva e, ainda, uma forma de tutela jurisdicional que atendia, somente