Tutela_Inhibitoria
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seu lançamento ao Rio Sorocaba ou qualquer de seus tributários, diretos ou indiretos. \ufffd
<texto>O argumento que poderia ser invocado contra essa sentença seria o de que o Poder Judiciário estaria interferindo nas opções de ordem técnica e política da Administração e colocando em risco, por conseqüência, o princípio da separação dos poderes. \ufffd
<texto>É preciso lembrar, entretanto, que a própria Constituição da República afirma que: i) o meio ambiente ecologicamente equilibrado é bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida; ii) todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado; iii) cabe ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações (art. 225, caput). \ufffd
<texto>Ora, se o meio ambiente é considerado bem de uso comum do povo, e se o Poder Público e a coletividade têm o dever de defendê-lo, não há razão para não se admitir que o Ministério Público \u2013 ou qualquer outro legitimado à ação coletiva \u2013 possa recorrer ao Judiciário para obrigar a Administração a agir, quando a sua atividade, prevista em lei, é essencial à preservação do meio ambiente.
<texto>A observação feita por Afonso Rodrigues Queiró, no sentido de que o não agir também é uma ação e, em muitos casos, a única forma idônea para se atingir o interesse público, \ufffd é de todo pertinente. Toda vez que a Administração atua de forma negativa, abstendo-se de tomar um comportamento ao qual está obrigada por lei, abre margem para que a sua atuação seja questionada e corrigida através da via jurisdicional.
<texto>Sempre que a lei regula de forma vinculada a atuação administrativa, obrigando a Administração a um determinado comportamento, não se pode falar em insindicabilidade dessa atuação, justamente porque, existindo o dever de atuar, não há margem para qualquer consideração de ordem técnica e política. Com total acerto diz Eisenmann que a exigência de legalidade da atuação da administração pública não se compraz com a mera não contradição da atuação com a lei, exigindo, na verdade, plena conformidade entre elas; \ufffd sendo assim, e se há uma norma no sistema que estabelece para a Administração o dever de agir em determinada situação, o descumprimento do dever é pura e simplesmente violação de lei, como tal passível de corrigenda pelo Poder Judiciário. \ufffd
<texto>A questão problematiza-se, contudo, quando, em vez de um dever, a norma estabelece para o administrador uma faculdade, ou seja, uma competência discricionária em vez de uma competência vinculada, possibilitando-lhe decidir, diante do caso concreto, entre agir e não agir. Porém, mesmo em tais hipóteses, não se pode aprioristicamente afirmar a impossibilidade de apreciação jurisdicional da decisão administrativa que eventualmente opte pelo não agir.
<texto>É que os órgãos da Administração, como se sabe, exercem função, o que em Direito designa a situação subjetiva passiva em que se encontra aquele a quem se atribui um dever a ser cumprido no interesse de outrem, outorgando-se-lhe, concomitantemente, os poderes instrumentais ao seu cumprimento. Essa é a lição de Celso Antônio, que com absoluto acerto afirma que não se pode considerar como eixo metodológico do Direito Público o poder, mas sim o dever. \ufffd
<texto>Mas se os órgãos da Administração exercem função, todos os poderes e todas as faculdades que lhes são outorgados não o são para que deles estes órgãos façam o uso que quiserem. Todos os poderes e faculdades de que eles dispõem têm uma finalidade serviente dos deveres que lhes são cometidos e só em nome do atendimento destes podem ser exercitados. E o que se está dizendo aplica-se, obviamente, às competências discricionárias. \ufffd
<texto>Portanto, se a norma regula determinado comportamento da Administração de maneira discricionária, não é por simples opção entre assim fazê-lo ou fazê-lo vinculadamente. A lei não é ato aleatório. \ufffd Quando o legislador regula discricionariamente o comportamento da administração, é porque lhe era impossível prefigurar qual o comportamento administrativo que melhor atenderia à finalidade da norma, pois de outra forma a lei certamente se expressaria em termos de vinculação do comportamento. Quando é possível ao legislador saber de antemão qual o comportamento que melhor atenderá à finalidade da norma, ele regula a matéria de forma vinculada e torna tal comportamento obrigatório. Só se regula determinada matéria discricionariamente quando não é possível saber qual o comportamento que melhor atenderá à finalidade legal, e, desta maneira, muito mais do que eventual liberdade de escolha, surge para o administrador o dever de atuar de forma a que a finalidade da lei seja atendida, com a escolha da melhor solução possível diante do caso concreto. O administrador tem o dever jurídico de adotar, sempre, a melhor solução, porque, como já se disse, exerce função. \ufffd
<texto>Assim é que se pode dizer, tal qual se fez quanto aos conceitos jurídicos indeterminados, que a eventual existência de discricionariedade ao nível da norma não significa a sua subsistência diante do caso concreto. As peculiaridades do caso concreto podem ser tais que toda margem de liberdade eventualmente conferida pela norma desapareça, surgindo apenas uma solução de aplicação da norma como prestante ao atendimento da finalidade legal. Além disso, hipóteses outras haverá nas quais as peculiaridades do caso concreto, não obstante não se apresentarem suficientes para indicar qual a única solução correta, serão bastantes para indicar que um dado comportamento administrativo certamente não atende à finalidade legal.
<texto>Daí decorre uma conclusão de fundamental importância: se os órgãos administrativos, exercitando competências com aspectos discricionários, têm o dever jurídico de sempre buscar e adotar o comportamento que melhor atenda às finalidades da norma de competência, não se pode falar em insindicabilidade dessa atuação discricionária. Com efeito, o Poder Judiciário sempre poderá confrontar a atuação administrativa com as circunstâncias que concretamente se apresentaram e analisar a legalidade da decisão tomada. Caso as referidas circunstâncias de fato revelem que a providência que melhor atenderia à finalidade da norma não foi escolhida pelo agente administrativo, sua atuação deverá ser anulada, e não se pode aí dizer que houve invasão do mérito do ato administrativo. Se as circunstâncias do caso concreto apontam para a existência de uma única solução ótima, ou se deixam evidente que a solução concretamente adotada não é a solução ótima, houve violação à legalidade e, portanto, não se pode falar em insindicabilidade do mérito do ato. \ufffd
<texto>É justamente por isto que se pode dizer que, mesmo nos casos em que a norma confere aos órgãos administrativos a mais lata discricionariedade, que é aquela que lhes possibilita decidir entre agir e não agir, \ufffd há possibilidade de apreciação jurisdicional do comportamento efetivamente adotado, seja ele positivo ou negativo, sendo possível sua correção pelo Poder Judiciário sempre que as circunstâncias do caso concreto permitirem concluir que não foi adotada a melhor solução de aplicação da norma em vista das finalidades em nome das quais a competência foi conferida ao órgão administrativo.
<texto>É claro que, no confronto da atuação administrativa com as peculiaridades do caso concreto, certas vezes não se poderá dizer com certeza qual é a solução de aplicação ideal, e se nestes casos a solução adotada pelo administrador encontrar-se como razoável e admissível, o Poder Judiciário não poderá revisá-la. Aí ter-se-á, realmente, uma decisão de mérito, porque comportada abstratamente pela norma e aceitável no caso concreto. \ufffd
<texto>De qualquer forma, não há dúvida de que a omissão dos órgãos administrativos pode ser questionada através da adequada tutela jurisdicional. Sabe-se que para uma melhor gestão da coisa pública é imprescindível uma participação mais intensa do cidadão no poder; não é por outra razão que a Constituição da República afirma, logo no