Tutela_Inhibitoria
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Tutela_Inhibitoria


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da parte e, no caso de inadimplemento, a soma é devida ao autor e não ao Estado. O art. 37 evidencia a possibilidade de a multa ser fixada em caráter progressivo \u2013 aumentando à medida que o réu resiste à pressão que é exercida \u2013, além da necessidade de ser ela graduada \u201cen proporción al caudal económico\u201d daquele que deve suportá-la. \ufffd
<texto>Em princípio, segundo a doutrina, \u201clas sanciones conminatorias no proceden cuando el deber, obligación y prestación exigida, pueda obtenerse por otros carriles procesales\u201d. \ufffd É interessante notar, contudo, que se admite o emprego da multa em determinadas situações, ditas peculiares, como a relativa a uma obrigação alimentar, \ufffd apesar de aí ser possível \u2013 ainda que não efetivo \u2013 o uso da execução forçada.
<texto>É importante frisar que a parte final do referido art. 37 afirma que a sanção pecuniária poderá ser deixada sem efeito, ou ser objeto de reajuste, se o réu desiste de sua resistência e justifica total ou parcialmente seu procedimento. Referindo-se a esta parte do dispositivo legal, explica Luis Ramon Madozzo que a imposição da sanção pecuniária se \u201crealiza a título de amenaza y no con carácter definitivo, por lo cual, ante esta eventual variación, no causan instancia ni hacen cosa juzgada\u201d. \ufffd
<b>	3.27.1.3	A multa e a indenização pelo dano. A sua cumulabilidade
<texto>É sabido que os tribunais franceses confundiram, por muito tempo, a astreinte com o ressarcimento do dano. Somente em 1959 a Corte de Cassação francesa colocou fim a essa antiga confusão, que foi definitivamente sepultada com a já mencionada Lei 72-226, de 5 de julho de 1972. \ufffd
<texto>Importa perceber que a astreinte tem por fim forçar o réu a adimplir, enquanto o ressarcimento diz respeito ao dano. \ufffd É evidente que a multa não tem qualquer relação com o dano, \ufffd até porque, como acontece na tutela inibitória, pode não haver dano a ser indenizado.
<texto>O que se quer dizer, quando se afirma que \u201ca indenização por perdas e danos dar-se-á sem prejuízo da multa\u201d, é que a multa será devida independentemente de ser porventura igualmente devida a indenização pelo dano.
<texto>Note-se que se a multa não for suficiente para convencer o réu a adimplir, ela poderá ser cobrada independentemente do valor devido em face da prestação inadimplida e do eventual dano provocado pela falta do adimplemento na forma específica e no prazo convencionado. Se a ordem do juiz, apesar da multa, não é prontamente observada, mas conduz, ainda que depois de algum tempo, ao adimplemento, é possível cumular a multa com a indenização pelo eventual dano provocado pela mora do demandado.
<texto>No caso da tutela inibitória não se concebe confusão entre a multa e a indenização. Se o réu não observa a ordem inibitória, praticando o ilícito temido, a multa é devida independentemente do eventual dano que tenha sido produzido e deva ser reparado. Da mesma forma que a tutela inibitória não se confunde com a tutela contra o dano, a multa nada tem a ver com a indenização relativa ao dano. Se não fosse assim, a tutela inibitória jamais teria alguma efetividade, pois o demandado, ainda que sem obedecer à ordem inibitória, responderia apenas pelo eventual dano que tivesse provocado, o que seria obviamente absurdo.
<texto>Na verdade, sem a correta compreensão dos diferentes escopos da multa e da indenização, o caráter coercitivo da primeira não passaria de uma miragem ou mesmo de uma ilusão. \ufffd Faltar-lhe-ia, como bem diz João Calvão da Silva, uma condição essencial da sua eficácia, isto é, da sua capacidade de realizar as finalidades que lhe são próprias \u2013 forçar o devedor a cumprir a obrigação e a respeitar a ordem do juiz \u2013, porquanto a indenização respeita ao prejuízo que repara, mas não previne e não faz cessar o ilícito, fonte daquele que urge secar. \ufffd
<texto>A multa objetiva pressionar o réu a adimplir a ordem do juiz, visando à prevenção do ilícito mediante o impedimento de sua prática, de sua repetição ou de sua continuação.
<texto>Torna-se difícil compreender, portanto, a afirmação de Carreira Alvim, contida no livro Tutela específica das obrigações de fazer e não fazer, no sentido de que \u201ca pena pecuniária só cumpre realmente a sua função se se tratar de direitos patrimoniais\u201d. \ufffd Ora, a tutela inibitória, justamente porque se vale da multa, tem plena eficácia nos casos de direitos não patrimoniais, pois pode influir sobre a vontade do réu, convencendo-o a fazer ou a não fazer. O que se pode admitir, na realidade, é que a multa não tem eficácia quando o réu não detém patrimônio, o que é algo absolutamente diferente.
<b>	3.27.1.4	Critérios para a imposição da multa
<texto>A multa, em sua essência, tem natureza nitidamente coercitiva, porque se constitui em forma de pressão sobre a vontade do réu, destinada a convencê-lo a adimplir a ordem do juiz.
<texto>Enquanto instrumento que atua sobre a vontade do réu, é inegável sua natureza coercitiva; entretanto, se a multa não surte os efeitos que dela se esperam, converte-se automaticamente em desvantagem patrimonial que recai sobre o réu inadimplente. Isto significa que a multa, de ameaça ou coerção, pode transformar-se em mera sanção pecuniária, que deve ser suportada pelo demandado, mas aí sem qualquer caráter de garantia de efetividade da ordem do juiz.
<texto>Para que a multa possa constituir uma autêntica forma de pressão sobre a vontade do réu, é indispensável que ela seja fixada com base em critérios que lhe permitam atingir seu fim, que é garantir a efetividade da tutela jurisdicional.
<texto>A partir do Código de Processo Civil de 1973 \u2013 deixando de lado o art. 1.005 do Código de Processo Civil de 1939\ufffd \u2013 a doutrina brasileira passou a entender que a multa não sofre limitação pelo valor da prestação. \ufffd
<texto>O Código de Processo Civil de 1973, ao referir-se à multa cominatória, não fez qualquer limitação a seu valor. O art. 644, em sua redação anterior à Lei 8.953/94, afirmava o seguinte: \u201cSe a obrigação consistir em fazer ou não fazer, o credor poderá pedir que o devedor seja condenado a pagar uma pena pecuniária por dia de atraso no cumprimento, contado o prazo da data estabelecida pelo juiz\u201d. O silêncio do legislador acerca da limitação do valor da multa foi interpretado pela doutrina como uma verdadeira exclusão da sua limitação. \ufffd
<texto>Atualmente, em face do art. 461 do CPC, não há mais qualquer dúvida acerca da possibilidade de a multa exceder ao valor da prestação. Tal norma, na verdade, estando completamente atrelada à idéia de que a tutela específica é imprescindível para a realização concreta do direito constitucional à adequada tutela jurisdicional, não faz qualquer limitação ao valor da multa.
<texto>Ora, a multa, para convencer o réu a adimplir, deve ser fixada em montante que seja suficiente para fazer ver ao réu que é melhor cumprir do que desconsiderar a ordem do juiz. Além disso, tratando-se de direitos não patrimoniais, ou de direitos que dificilmente podem ser reduzidos a pecúnia, não há como não se dar ao juiz o poder necessário para fixar o valor da multa de modo que ela atinja, no caso concreto, os fins a que se destina. \ufffd
<texto>Na fixação do valor da multa, é importante considerar a capacidade econômica do demandado. Lembre-se de que o art. 37 do CPC argentino afirma que a multa deve ser graduada \u201cen proporción al caudal económico\u201d daquele a que se dirige. \ufffd A mesma preocupação está presente no berço das astreintes, ou seja, no direito francês, onde a Corte de Cassação já decidiu que o valor da astreinte deve ser estabelecido de acordo com o potencial econômico de quem deve suportá-la. \ufffd De fato, como diz Paolo Cendon, a astreinte é modelada com base em parâmetros \u201ctipicamente subjetivos \u2013 a capacidade de resistência do obrigado, o grau da sua culpa, as suas condições econômicas\u201d. \ufffd
<texto>O juiz, ao considerar a capacidade econômica do réu, não deve limitar-se a analisar seu patrimônio imobilizado, mas tudo o que indique sua verdadeira situação financeira, como, por exemplo, o salário que é por ele auferido.