Tutela_Inhibitoria
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Tutela_Inhibitoria


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configura hipótese de coerção direta.
<texto>Entretanto, ao lado da coerção indireta (pressão sobre a vontade da parte) e da coerção direta (participação de um auxiliar do juízo para a tutela do direito), é possível vislumbrar medidas de sub-rogação. Estas últimas, se evidentemente não podem ser confundidas com a coerção indireta, uma vez que não atuam sobre a vontade do demandado, também têm diferenças em relação às medidas de coerção direta.
<texto>Atua-se mediante coerção direta no caso em que se teme violação de caráter instantâneo (prática ou repetição de ilícito que se concretize em fazer ou não fazer) ou um agir ilícito (por exemplo, poluição ambiental). Contudo, há situações \u2013 embora mais restritas \u2013 em que é necessário um fazer que deve ser praticado por um terceiro. Na hipótese de não agir ilícito (por exemplo, não observância de norma que obriga, visando evitar a poluição ambiental, a instalação de determinada tecnologia), ou de tutela que imponha a instalação desta tecnologia para evitar a continuação da violação do dever de não poluir, poderá o juiz determinar que um terceiro instale o instrumento técnico adequado. Neste caso, o terceiro substitui o réu, fazendo aquilo que por ele já deveria ter sido feito. 
Quando a atuação executiva não implica na prática de fazer que já deveria ter sido observado, e assim não pode ser dita substitutiva do fazer, há medida de coerção direta, e não medida de sub-rogação. No caso em que a atuação executiva não presta o fazer inadimplido, mas apenas é necessária para garantir, independentemente da vontade do réu, a efetividade da tutela jurisdicional, a medida é de coerção direta.
<texto>A sub-rogação, como é evidente, é medida de menor efetividade diante da multa e da coerção direta, e assim somente deve ser utilizada nos casos em que uma das duas primeiras for absolutamente inviável. De qualquer forma, não há dúvida que existem medidas de coerção indireta, medidas de coerção direta e medidas de sub-rogação, e que todas elas, consideradas as diferenças dos casos concretos, podem ser utilizadas para a efetividade da tutela inibitória, embora não seja possível esquecer que jamais poderão ser utilizadas de forma indiscriminada, pois o seu uso não poderá trazer gravame despropositado à esfera jurídica do demandado.
<texto>Como é fácil perceber, já que a atividade de execução do juiz, como é óbvio, deve respeitar a esfera jurídica do réu, o grande problema que existe, diante da variedade das formas que podem ser utilizadas para dar efetividade à tutela inibitória, é o de definir os critérios que devem ser utilizados para orientar a atividade executiva.
<texto>Antes disto, porém, já que configura questão que necessariamente deve anteceder a da adequada utilização dos meios de execução da tutela inibitória, é necessário analisar a possibilidade do uso da ameaça de prisão como forma de coerção indireta.
<b>	3.27.2.3	A prisão como meio de coerção indireta
<texto>O enfrentamento da questão da possibilidade do uso da prisão civil, como meio de coerção indireta, necessariamente requer a consideração do disposto no art. 5.º, LXVII, da CF: \u201cnão haverá prisão por dívida, salvo a do responsável pelo inadimplemento voluntário e inescusável de obrigação alimentícia e a do depositário infiel\u201d.
<texto>É costume afirmar, a partir de uma visão deitada exclusivamente em valores do passado, que o uso da prisão é uma forma violenta e odiosa para se procurar a efetividade do processo. \ufffd
<texto>Na análise da norma que veda a prisão civil por dívida, com exceção da prisão do devedor de alimentos e do depositário infiel, não é difícil encontrar a sua razão de ser. O seu objetivo é vedar a prisão civil por descumprimento de obrigação que dependa, para seu adimplemento, da disposição de dinheiro. É neste sentido que se pode dizer que a norma proibiu a prisão por \u201cdívidas pecuniárias\u201d. \ufffd
<texto>Ovídio Baptista da Silva, contudo, ao analisar o art. 885 do CPC, afirmou que não teria procedência dizer que a norma constitucional veda apenas a prisão por dívida em sentido estrito, quando ela própria prevê, como exceção, a prisão do depositário infiel, que não constitui caso de dívida pecuniária. Diz ele: \u201cSe a prisão por dívidas que não fossem monetárias estivesse sempre autorizada, não faria sentido a exceção constante do texto constitucional para o caso de depositário infiel\u201d. \ufffd
<texto>Cabe lembrar, porém, que a linguagem utilizada na Constituição Federal não é tecnicamente precisa, mas sim comum, e assim pouco importa que a exceção, relativa ao depositário infiel, não envolva caso de dívida pecuniária. O fato é que a hipótese do depositário infiel, assim como a do devedor de alimentos, possui características próprias, as quais conduziram a Constituição a traçá-la como exceção. Isto apenas para deixar evidenciada a possibilidade de prisão no caso de depositário infiel e de não pagamento de alimentos.
<texto>Frise-se que o débito alimentar não tem origem em obrigação, mas constitui dever legal com repercussão não-patrimonial, razão pela qual não pode ser comparado a uma simples dívida pecuniária. Mas a Constituição se preocupou em deixar clara a possibilidade de se conferir tratamento diferenciado ao crédito alimentar, e assim excepcionou a possibilidade de prisão do devedor de alimentos. \ufffd Portanto, sua intenção \u2013 ao estabelecer as exceções \u2013 foi apenas evidenciar a possibilidade da prisão. Isto porque, como é sabido, a Constituição não deve atingir somente os juristas, mas a todos os cidadãos.
<texto>Aliás, se o objetivo da norma fosse o de proibir toda e qualquer prisão, com exceção dos casos do devedor de alimentos e do depositário infiel, não haveria como explicar a razão pela qual deu conteúdo à prisão civil, dizendo que \u201cnão haverá prisão por dívida\u201d . É pouco mais do que evidente que a norma desejou proibir uma determinada espécie de prisão civil, e não toda e qualquer prisão civil. O que importa saber, assim, é a espécie de prisão civil que foi vedada. Se não há como fugir da idéia de que foi proibida somente uma espécie de prisão civil, e não toda e qualquer prisão civil, a prisão proibida somente pode ser a prisão por \u201cdébito\u201d. O entendimento de que toda e qualquer prisão está proibida, implica retirar qualquer significado da expressão \u201cdívida\u201d. Afirmar que existem outras modalidades de dívida, que não apenas a pecuniária, e concluir que estas vedam a prisão, é dizer nada sobre a espécie de prisão proibida, mas simplesmente insistir na idéia de que a norma constitucional veda o uso da prisão civil como meio de coerção, e deste modo retirar qualquer significado da expressão \u201cdívida\u201d.
<texto>Na verdade, a interpretação do art. 5.º, LXVII, da Constituição Federal, deve ser alçada a um nível que considere os direitos fundamentais. Ou seja, se é necessário vedar a prisão do devedor que não possui patrimônio \u2013 e assim considerar um direito fundamental \u2013, é absolutamente indispensável permitir o seu uso para a efetividade da tutela de outros direitos fundamentais.
<texto>Karl Engisch\ufffd adverte, aludindo ao Tratado de Direito Civil de Enneccerus, que o direito é apenas uma parte da cultura global e, assim, o preceito da lei deve, na dúvida, ser interpretado de modo a ajustar-se o máximo possível às exigências da nossa vida em sociedade e ao desenvolvimento de toda a nossa cultura. Não há sentido na preocupação com a linguagem da lei, quando o seu fim, em uma interpretação que deseja fazer valer os direitos e, por conseqüência, o direito à efetividade da tutela jurisdicional, impede que se extraia da norma que fala em prisão por dívida a idéia de que é possível a utilização da prisão nos casos em que há necessidade de vedar ação ilícita, e deste modo impedir a violação de um direito. \ufffd
<texto>Não há dúvida de que os direitos perdem sua qualidade se não puderem ser efetivamente tutelados. \ufffd É por isto que, diante da proibição da autotutela, fala-se que o processo é imprescindível, em nível de efetividade, para a existência do próprio ordenamento