Tutela_Inhibitoria
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Tutela_Inhibitoria


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jurídico. Por outro lado, é certo que o processo exige, diante de certas situações de direito substancial, o uso da coerção indireta. Entretanto, a multa não constitui a única forma de coerção indireta, e nem se pode dizer que é ela suficiente para a efetiva prestação da tutela jurisdicional. Como é evidente, e já foi dito neste livro, a multa não tem efetividade diante de um réu que não possui patrimônio. Portanto, a violação de direitos é muito fácil a pessoas inescrupulosas, uma vez que também não é difícil, por exemplo, que estas possam constituir um \u201ctesta-de-ferro\u201d sem patrimônio para violar, sem qualquer preocupação, direitos da personalidade.
<texto>Não admitir a prisão como forma de coerção indireta é aceitar que o ordenamento jurídico apenas proclama, de forma retórica, os direitos que não podem ser efetivamente tutelados sem que a jurisdição a tenha em suas mãos para prestar tutela jurisdicional efetiva. Soará absolutamente falsa e demagógica a afirmação da Constituição Federal, no sentido de que \u201ctodos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as futuras gerações\u201d (art. 225, caput), se não for viável a utilização da prisão como meio de coerção indireta. Seria o mesmo que interpretar esta norma constitucional como se ela dissesse que o meio ambiente, embora fundamental para a sadia qualidade de vida e para as futuras gerações, infelizmente não pode ser efetivamente tutelado em face de um réu que não se importa com os efeitos da multa. Ora, esta interpretação seria, para dizer o mínimo, incoerente.
<texto>De modo que a doutrina, consciente da importância da natureza não patrimonial de certos direitos, não pode ver na norma constitucional que proíbe a prisão por dívida uma porta aberta para a expropriação de direitos fundamentais para o homem.
<texto>Em uma interpretação realmente atenta aos direitos fundamentais, e de acordo com a moderna hermenêutica constitucional, não há como enxergar apenas o que há de negativo na utilização da prisão. \ufffd Se ela constitui violência inconcebível em face de dívidas em sentido estrito, não há como deixar de perceber o seu lado positivo diante da necessidade de tutela inibitória e de prestações que não dependam do desembolso de dinheiro.
<texto>Esta interpretação deixa de lado o conceito mítico de que a prisão civil é um simples atentado contra a liberdade dos cidadãos e, atenta para a necessidade do uso da coerção pessoal para a efetiva tutela dos direitos, propõe que se veja, ao lado da proibição da prisão civil em todos os casos em que, para o adimplemento, é necessário o desembolso de dinheiro, a possibilidade do seu uso para impedir a expropriação dos direitos.
<texto>A forma de interpretação que não vê a prisão como meio coercitivo constitui um método hermenêutico clássico, não suficiente quando comparado aos métodos hermenêuticos modernos, \ufffd os quais são absolutamente necessários quando o que se tem a interpretar, diante das características da sociedade contemporânea e da importância que nela assumem os direitos fundamentais, é um contexto de grande riqueza e muita complexidade. Com efeito, não sendo o caso de apenas considerar o texto da norma, como se ela estivesse isolada do contexto, é necessário recorrer ao método hermenêutico-concretizador.
<texto>Na verdade, deparando-se com as norma do art. 5.º, LXVII, da CF, deve o intérprete estabelecer, como é óbvio, a dúvida que a sua interpretação suscita. Ou seja, se ela veda o uso da prisão como meio de coerção indireta ou somente a prisão por dívida em sentido estrito. A partir daí, verificando-se que a norma aponta para dois direitos fundamentais, isto é, para o direito à efetividade da tutela jurisdicional e para o direito de liberdade, deve ser investigado o que significa dar aplicação a cada um deles. Concluindo-se, a partir da análise da própria razão de ser destes princípios, que a sua aplicação deve ser conciliada ou harmonizada, não há como deixar de interpretar a norma no sentido de que a prisão deve ser vedada quando a prestação depender da disposição de patrimônio, mas permitida para a jurisdição poder evitar \u2013 quando a multa e as medidas de coerção diretas não se mostrarem adequadas \u2013 a violação de um direito, já que de outra maneira os próprios direitos ficarão desprovidos de tutela, e assim o ordenamento, exatamente na parte que consagra direitos invioláveis e fundamentais, assumirá a configuração de mera retórica, e desta forma sequer poderá ser chamado de \u201cordenamento jurídico\u201d. Note-se que esta interpretação, além de considerar o contexto, e por esta razão ser muito mais abrangente do que a \u201cclássica\u201d, dá ênfase aos direitos fundamentais, realizando a sua necessária harmonização para que a sociedade possa ver sua concretização nos locais em que a sua própria razão recomenda.
<b>	3.27.2.4	Critérios que devem guiar a atividade executiva. A multa, a prisão, as medidas de coerção direta e as medidas de sub-rogação na prestação da tutela inibitória
<texto>Consideradas as diversas formas que podem ser utilizadas pelo juiz para dar efetividade à tutela inibitória, é imprescindível estabelecer critérios para orientar a atividade executiva.
<texto>Como já foi dito acima, \ufffd o princípio da necessidade, abrindo-se nos princípios do meio idôneo e da menor restrição possível, deve orientar as hipóteses de tutela inibitória, evitando que em nome da sua efetividade seja descurada a idéia de que a tutela do direito deve ser obtida sem gerar conseqüências desrazoáveis à esfera jurídica do réu.
<texto>A tutela inibitória deve preservar os direitos sem causar prejuízos indevidos ao demandado. Assim, a sua ética está em privilegiar o \u201cequilíbrio\u201d e a \u201cjusta medida\u201d como critérios que devem iluminar a relação entre a sua efetividade e a necessidade de preservação da esfera jurídica do réu.
<texto>Isto quer dizer que a tutela do direito sempre deve ser prestada através de um meio adequado e mais idôneo. Este deverá ser o necessário para a tutela do direito e, ao mesmo tempo, o que gere a menor restrição possível ao demandado. O meio mais idôneo, assim, é aquele que, além de tutelar o direito, causa a menor restrição possível. Assim, por exemplo, se basta determinar a instalação de determinada tecnologia para que a poluição não prossiga, não há cabimento em se determinar a cessação das atividades produtivas.
<texto>Contudo, o que interessa agora não é insistir no fato de que determinada providência, quando causar menor restrição do que outra em vista de seu conteúdo, necessariamente deverá merecer a preferência do juiz, mas sim esclarecer em que termos devem ser utilizadas as várias formas de execução postas a sua disposição. Portanto, a preocupação não é mais com o conteúdo da determinação, mas sim com a forma de execução do provimento.
<texto>Quando se pensa em forma adequada de execução, há tensão entre o direito à efetividade da tutela jurisdicional e o direito do réu, a qual deve ser solucionada pelo juiz também diante do caso concreto, mas não mais apenas tomando em consideração a idoneidade do conteúdo da providência a ser determinada, mas sim a idoneidade da forma de execução para a implementação do conteúdo da providência. Ou seja, a forma de execução capaz de tutelar de forma efetiva o direito somente será idônea quando não implicar em \u201cexcesso\u201d em face do réu. Ou melhor, a forma de execução deve configurar uma \u201cjusta medida\u201d \u2013 que tem a ver com a necessidade de \u201cproibição de excesso\u201d \u2013 para a implementação do conteúdo da providência.
<texto>Considerando a natureza da tutela inibitória, e a necessidade de evitar que ela seja utilizada de modo arbitrário, deverá ela ser prestada, em princípio, através de ordem sob pena de multa. Contudo, a coerção direta estará justificada nos casos em que for possível supor que a ameaça patrimonial não afetará o demandado, ou quando não houver tempo para esperar