Agostinho Ramalho Marques Neto - A Ciência do Direito - Conceito, Objeto, Método - 2º Edição - Ano 2001
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Agostinho Ramalho Marques Neto - A Ciência do Direito - Conceito, Objeto, Método - 2º Edição - Ano 2001


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Agostinho Ramalho Marques Neto 
 
Professor Universitário na área de Filosofia 
Mestre em Ciências Jurídicas pela PUC/RJ 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A CIENCIA DO DIREITO: 
Conceito, Objeto, Método 
 
 
 
 
 
2ª EDIÇÃO 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
RENOVAR 
Rio de Janeiro. São Paulo 
2001 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Para Adriana, Allana e Adelana 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
\u201cNo domínio da ciência (...), cada um sabe que sua obra terá 
envelhecido daqui a dez, vinte ou cinqüenta anos... É que toda 
obra científica \u201cconcluída\u201d não tem outro sentido, a não ser o de 
fazer surgirem novas perguntas: ela pede, pois, para ser 
\u201cultrapassada\u201d, e para envelhecer. Quem quer servir à ciência 
deve conformar-se com esta sorte.\u201d (Max Weber) 
NOTA DO AUTOR 
 
\u201cO texto deste livro foi originariamente escrito como requisito para o concurso 
público para ingresso na Carreira do Magistério no Departamento de Direito da Universidade 
Federal do Maranhão, a que o autor se submeteu em 1981. A primeira edição, sob o título A 
Ciência do Direito: Conceito, Objeto, Método, foi publicada em 1982 pela Editora Forense. 
Em 1990, essa mesma editora publicou a segunda edição, modificando-lhe entretanto o título, 
por razões vinculadas à comercialização do livro, para Introdução ao Estudo do Direito: 
Conceito, Objeto, Método. Ambas essas edições há muito se encontram esgotadas. Sai agora a 
terceira edição, trazendo de volta o seu original e verdadeiro título, mais condizente com o 
conteúdo do trabalho. A atual edição é de responsabilidade da Editora Renovar, que já tem 
tradição na publicação de trabalhos em que o Direito é estudado a partir de um enfoque crítico 
que o refere às suas condições de produção simbólicas e sócio-históricas. Com esta nova 
edição, o livro está novamente próximo de seu público: todos aqueles que mantêm aberta a 
insistência de uma postura problematizadora perante o Direito e sua inserção na sociedade\u201d. 
(O Autor) 
APRESENTAÇÃO 
 
A necessidade de estudar o Direito através de enfoques científicos, que o 
comprometam efetivamente com a realidade social em que ele se gera e se transforma, é de 
suma importância, e tem preocupado todos aqueles que de algum modo lidam com o fenômeno 
jurídico e não são desprovidos de um mínimo de consciência crítica. O Direito, como ainda hoje 
é concebido de uma maneira generalizada, isto é, como um simples sistema normativo, tem 
falhado continuamente na consecução de seus objetivos últimos, que são a justiça e a paz social 
vivenciadas dentro de uma estrutura sócio-econômica que consagre, em termos concretos, a 
igualdade dos cidadãos, sem prejuízo de sua liberdade. As diversas ordens jurídicas têm tardado 
em dar respostas adequadas às mais legítimas aspirações do meio social, e não raro procuram 
sufocá-las quando vêem nelas um perigo potencial para a estrutura do poder estabelecido. As 
normas jurídicas produzidas pelo Estado freqüentemente servem aos interesses das classes 
socialmente dominantes, em prejuízo dos contingentes mais numerosos da população. Além 
disso, a elaboração normativa tem sido tradicionalmente feita com base em critérios lógico-
formais, ficando o conteúdo social disciplinado pela norma - o qual constitui a matéria por 
excelência do Direito - relegado a um segundo plano, quando não puramente ignorado. 
Esse sistema de construção jurídica implica num distanciamento da norma em 
relação à realidade social que é o seu conteúdo. Divorciado da realidade social, o Direito 
passa a buscar sua eficácia em princípios intangíveis formulados a priori, além de qualquer 
experiência, ou atribui à norma o poder quase miraculoso de validar-se por si mesma. Quanto 
mais dissociados das condições concretas da existência social, tanto mais os princípios 
jurídicos tendem a ser afirmados dogmaticamente, como se constituíssem verdades absolutas 
e inquestionáveis, válidas agora e sempre, porque superiores ao desenvolvimento da história 
humana. Daí o triunfo do dogmatismo, que tradicionalmente tem caracterizado a formação do 
jurista, impedindo-o de posicionar-se criticamente na tarefa de superação dos problemas e 
conflitos sociais, e fazendo-o ver nas normas vigentes as únicas realidades jurídicas dignas de 
seu estudo e atenção. Desse modo, aliena-se o jurista, como se aliena também o próprio 
Direito, que passa simplesmente a afirmar suas verdades como válidas, independentemente de 
qualquer confronto com a realidade, como se constituíssem autênticos dogmas de fé. 
O presente trabalho consiste numa tentativa de apontar caminhos alternativos que 
visem a superar esse lamentável estado de coisas. Não é mais admissível que o Direito - a 
mais antiga das ciências sociais - seja paradoxalmente a que mais dificuldades encontra, ainda 
hoje, para estabelecer seu estatuto científico. Urge que se definam alternativas teóricas e 
práticas que despertem o Direito do \u201csono dogmático\u201d em que há séculos ele está mergulhado, 
e que possibilitem ao jurista assumir um compromisso mais efetivo, mais participante e 
sobretudo mais crítico perante o processo de desenvolvimento social. Entendemos que a 
aplicação dos princípios das modernas epistemologias dialéticas ao estudo do Direito - 
respeitadas, é claro, suas especificidades - pode produzir resultados tão fecundos como os 
obtidos em outras disciplinas científicas, onde tais princípios têm sido empregados com êxito. 
No caso particular da ciência do Direito, essa aplicação nos parece extremamente adequada, 
visto que a dialética é antidogmática por excelência e, em virtude disso, pode colaborar 
decisivamente para a elaboração de um Direito visceralmente comprometido com as 
realidades e aspirações da sociedade. 
Como a aplicação dos princípios dialéticos aos estudos jurídicos ainda constitui 
antes exceção que regra nos domínios de nossa disciplina, não pudemos deixar de elaborar 
uma síntese de tais princípios, confrontando-os com as proposições epistemológicas das 
principais correntes empiristas e racionalistas. Essa necessidade nos obrigou a deixar para o 
Capítulo IV o enfoque propriamente dialético do universo jurídico, pois julgamos oportuno 
preparar o terreno, situando inicialmente o Direito dentro das características globais que 
presidem o ato de conhecer cientificamente. Dessa maneira, dedicamos o Capítulo I a uma 
abordagem do processo de elaboração do conhecimento de um modo geral. No Capítulo II, 
discutimos o sentido da atividade científica, considerada sob um prisma dialético. No 
Capítulo III, enfocamos as ciências sociais, dentro das condições espaço-temporais concretas 
em que elas se realizam. Finalmente, no Capítulo IV, tentamos demonstrar a viabilidade e as 
vantagens da aplicação da dialética à ciência do Direito, tanto em seus aspectos teóricos e 
metodológicos quanto práticos. 
A abordagem dos aspectos gerais de uma elaboração científica sob a ótica 
dialética, que não pudemos deixar de fazer, talvez produza, à primeira vista, a impressão de 
que nos desviamos um pouco de nosso tema específico. Mas uma leitura atenta do presente 
trabalho com certeza logo dissipará tal impressão, pois a ciência jurídica não pode ter a 
pretensão de fazer sentido por si mesma, como se constituísse