Agostinho Ramalho Marques Neto - A Ciência do Direito - Conceito, Objeto, Método - 2º Edição - Ano 2001
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Agostinho Ramalho Marques Neto - A Ciência do Direito - Conceito, Objeto, Método - 2º Edição - Ano 2001


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sobre o senso comum 
 
Preliminarmente, vale ressaltar que preferimos empregar a expressão senso 
comum, ou conhecimento comum, para designar aquele tipo de conhecimento eminentemente 
prático e assistemático que rege a maior parte de nossas ações diárias. Evitaremos 
deliberadamente expressões como conhecimento vulgar - que contém forte carga pejorativa e 
discriminatória - e conhecimento pré-científico - que constitui expressão ambígua, podendo 
dar a entender que se trata de um estágio inicial, do qual evoluiria o conhecimento científico. 
Partindo da presunção de que os fatos não mentem, o, senso comum postula que o 
conhecimento verdadeiro é totalmente adequado ao seu objeto, não contendo senão uma 
reprodução fiel dos fatos. Assim, o conhecimento vai ganhando maior precisão e confiabilidade à 
medida em que é ratificado por outras pessoas que também presenciam ou conhecem os fatos. E, 
por assim dizer, de um consenso de opiniões, que o conhecimento comum retira sua veracidade. 
Esse ponto de vista coincide em muitos aspectos com os diversos 
posicionamentos empiristas que já criticamos. Com efeito, o empirismo \u2013 para o qual o 
conhecimento flui do objeto \u2013 pretende produzir conhecimentos em continuidade com o senso 
comum, acrescentando-lhe sistematicidade, controle e rigor. HEGENBERG, por exemplo, 
sustenta que \u201csofisticado\u201d, (o senso comum) \u201cse constitui em ciência.\u201dl Não haveria, assim, 
qualquer distinção qualitativa entre o conhecimento científico: ambos constituiriam pura e 
simples captação da realidade, embora o segundo fosse mais elaborado ou sofisticado que o 
primeiro. Essa captação, tanto para o senso comum como para o empirismo, seria pura, 
neutra: bastaria ao sujeito estar preparado para ver o real como ele efetivamente é. Para tanto, 
seria suficiente a repetição das observações e experiências, o uso da estatística etc., que 
seriam levados a cabo por diversos observadores. O senso comum e o empirismo coincidem, 
portanto, em pelo menos dois aspectos: a crença em que o sujeito simplesmente registra os 
fatos, sem nada lhes acrescentar; e como conseqüência, a tentativa de eliminar do processo de 
conhecimento qualquer traço de subjetividade, acabando por substituí-la por uma 
intersubjetividade (concordância de opiniões). 
Voltando ao estudo das características do conhecimento comum, podemos dizer 
que ele se constitui sobre a base da opinião, sem uma elaboração intelectual sólida. Costuma-
se dizer que o conhecimento comum é assistemático, sem nexo com outros conhecimentos, 
aos quais não se integra para com eles constituir um corpo de explicações lógicas e coerentes. 
E também ambíguo, no sentido de reunir freqüentemente, sob um mesmo nome e numa 
mesma explicação, conceitos na realidade diferentes. É ainda essencialmente empírico, 
tomado o termo no sentido de que, em virtude de seu caráter eminentemente prático, o senso 
comum permanece, por assim dizer, colado aos dados perceptivos, não fazendo abstrações, 
não generalizando ou generalizando indevidamente, e sobretudo não construindo teorias 
explicativas. Por outro lado, não decorrendo da aplicação de métodos rigorosos, o 
conhecimento comum é casual: adquirimo-lo \u201cà medida que as circunstâncias o vão ditando, 
nos limites dos casos isolados\u201d.2 
Tudo isso não implica necessariamente na afirmação de que sejam falsos ou 
errôneas os conhecimentos comuns. Muitas vezes, eles são verdadeiros. Falta-lhes, contudo, 
suficiente sistematização racional, ordenada e metódica, bem como um posicionamento 
crítico perante o ato mesmo de conhecer. Raramente o senso comum se autoquestiona. 
 
2. Para uma compreensão do conceito de ciência 
 
Como já assinalamos, o conhecimento científico constitui rompendo com o 
conhecimento comum, e não aprimorando-o ou continuando-o linearmente. Não basta, com 
efeito, uma sistematização do senso comum para termos uma ciência. A distinção entre esses 
tipos de conhecimento não é apenas de grau. Há profundas diferenças qualitativas que os 
caracterizam como formas cognitivas que praticamente nada têm em comum. 
 Talvez a mais importante dessas diferenças seja a distinção entre objeto real e objeto 
de conhecimento, que é fundamental para a compreensão do conceito de ciência. É com o objeto 
de conhecimento, com o objeto construído, e não diretamente com o objeto real, que efetivamente 
trabalham as ciências. \u201cPara a ciência, o verdadeiro é o retificado, aquilo que por ela foi feito 
verdadeiro, aquilo que foi constituído segundo um procedimento de autoconstituição\u201d.3 As teorias 
científicas resultam sempre de um processo de construção, em que a razão tem um papel 
essencialmente ativo. Com tal afirmação, não queremos absolutamente negar a importância do 
objeto real, como faz o idealismo extremado. Na verdade, é para o real que, em última instância, 
se dirigem as teorias científicas. Mas a captação do real jamais é pura, porque obtida mediante a 
aplicação de um método, que, por seu turno, resulta do referencial teórico que direciona a 
atividade de pesquisa. Os dados que o pesquisador coleta não vão além dos limites permitidos 
pelo seu método de investigação e, por isso, resultam de um processo de escolha dirigido pela 
teoria. Daí a afirmação de que todo dado é construído e, conseqüentemente, toda teoria científica 
se caracteriza por expressar um conhecimento aproximado, retificável, e não um simples reflexo 
dos fatos. A realidade, em si mesma, não apresenta problema algum. Nós é que a 
problematizamos e procuramos explicá-la. Por isso mesmo, o ponto de partida de toda 
investigação científica é muito mais teórico do que real. 
Para o senso comum, que se baseia principalmente nas evidências, é muito difícil 
compreender que as ciências se constituem e se desenvolvem geralmente contra essas 
evidências. O que para o senso comum é evidente, confirmado a todo instante pelos fatos, 
pode ser, para o conhecimento científico, algo extremamente falso, ou pelo menos 
questionável. Quando NEWTON, por exemplo, encampou as noções euc1idianas de espaço e 
tempo, evidentes por si mesmas, sobre elas construiu excelentes teorias, que o próprio KANT 
considerava irretocáveis.
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 EINSTEIN, utilizando conceitos das geometrias não euc1idianas, 
revolucionou a Física com a noção relativista do espaço-tempo, que choca frontalmente as 
evidências que o senso comum capta. E não foi no contato direto com os fatos que a física 
einsteiniana se constituiu. Pelo contrário: para a elaboração tanto da Teoria da Relatividade 
Restrita (1905) como da Teoria Geral da Relatividade (1916), EINSTEIN utilizou conceitos 
teóricos das geometrias não euc1idianas e de alguns físicos que o precederam, e elaborou seu 
sistema de explicação no plano da teoria, sem maiores contatos com os fatos. Assim, foi sobre 
o construído e não sobre o dado, que ele trabalhou.
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 E as primeiras comprovações empíricas 
de suas teorias só ocorreram após a própria publicação dessas teorias. 
O exemplo acima demonstra que o conhecimento científico, ao contrário do que 
supõem os empiristas, não constitui simples cópia, ainda que sofisticada, do real, mas uma 
assimilação deste a estruturas teóricas que sobre ele agem e o transformam. O conhecimento 
científico é, portanto, antes operativo que contemplativo: \u201cA ciência cria seus objetos próprios 
pela destruição dos objetos da percepção comum, dos conhecimentos imediatos. E é por ser 
ação que a ciência é eficaz.\u201d6 Podemos acrescentar que a ciência é eficaz, ainda, porque, aberta 
à crítica e por conseguinte à refutação e à retificação, escapa de estagnar-se nas suas próprias 
verdades. Como nos ensina POPPER, \u201co jogo da ciência é, em princípio, interminável. Quem 
decida, um dia, que os enunciados científicos não