Agostinho Ramalho Marques Neto - A Ciência do Direito - Conceito, Objeto, Método - 2º Edição - Ano 2001
160 pág.

Agostinho Ramalho Marques Neto - A Ciência do Direito - Conceito, Objeto, Método - 2º Edição - Ano 2001


DisciplinaIntrodução ao Direito I90.573 materiais611.057 seguidores
Pré-visualização50 páginas
às sociedades. O mundo contemporâneo, por exemplo, assiste, dentro de um mesmo momento 
cronológico, à coexistência de inúmeros tempos sociais diferentes, tal a diversidade de 
estágios histórico-culturais que as sociedades, ou mesmo determinados segmentos de uma 
única sociedade, atravessam.
32
 Igualmente ao que ocorre no mundo físico, o tempo social não 
é, de modo algum linear, no sentido de fluir contínua e homogeneamente em toda a extensão 
do espaço. A simples coexistência de diversos tempos sociais dentro de um mesmo tempo 
físico já fornece um excelente exemplo de seu caráter descontínuo e heterogêneo. Além disso, 
o tempo social também não é linear no sentido de que cada uma de suas etapas constitua 
passagem obrigatória a todas as sociedades em seus respectivos processos de 
\u201cdesenvolvimento\u201d. Com efeito, nada nos autoriza a supor, por exemplo, que uma 
determinada sociedade dita \u201cprimitiva\u201d venha a percorrer, em seu processo de 
\u201cdesenvolvimento\u201d, as mesmas etapas venci das pelas sociedades industriais contemporâneas, 
até alcançar o estágio de \u201ccivilização\u201d em que estas atualmente se encontram. Pelo contrário: 
entre esses tipos de sociedade há diferenças tão substanciais em todas as dimensões do 
espaço-tempo cultural, que o mais provável é que elas não sigam essas etapas de 
desenvolvimento, e nem sequer se proponham atingir um estágio de desenvolvimento análogo 
ao das sociedades industrializadas. Os diversos tipos de organização social são, portanto, 
apenas diferentes, com visões de mundo e juízos de valor próprios, variáveis em função das 
condições concretas de existência social e das características do espaço-tempo social 
localizado. Por isso, as distâncias temporais entre as diversas sociedades não podem ser 
medidas cronologicamente, do mesmo modo que as distâncias espaciais dentro, por exemplo, 
da pirâmide social numa sociedade de classes não podem ser mensuradas metricamente. 
 
2.3. A matéria social: considerações epistemológicas 
 
Após essas breves considerações sobre o espaço e o tempo sociais, abordemos 
agora a matéria social, isto é, as relações ou fenômenos sociais, focalizando-a apenas em seus 
aspectos mais significativos. 
O primeiro aspecto a destacar é a existência objetiva dos fenômenos sociais. Sem 
dúvida, a sociedade existe objetivamente e possui realidade e características próprias, que vão 
muito além de um simples somatório das características dos indivíduos que a compõem. \u201cO 
social transcende o individual, embora o suponha\u201d.33 Possuindo realidade autônoma, a 
sociedade não pode ser reduzida apenas a um complexo de relações psíquicas inter-
individuais, como queria TARDE.
34
 Há algo nela que a caracteriza como muito mais do que 
uma mera síntese dos indivíduos,
35
 assim como a água possui propriedades que não se 
encontram isoladamente nem no oxigênio, nem no hidrogênio. O fato de a sociedade possuir 
realidade objetiva é aceito por praticamente todas as correntes de pensamento, quer 
empiristas, quer racionalistas, talvez com a única exceção do idealismo extremado. Por isso, a 
existência objetiva da sociedade, ou, melhor dizendo, das sociedades concretas, não apresenta 
maiores problemas. 
O problema surge - e eis o segundo aspecto da questão - no momento em que nos 
indagamos se é possível conhecer cientificamente as características dessas sociedades, 
formular leis e teorias explicativas sobre os fenômenos que ali se processam e, sobretudo, 
como proceder para elaborar teorias científicas sobre o social. O empirista provavelmente 
dará respostas simples a questões tão complexas. Ele dirá, por exemplo, que, possuindo os 
fatos sociais realidade própria - existindo como coisas, no dizer de DURKHEIM -, basta que o 
pesquisador esteja convenientemente preparado para captá-los e descrevê-los como eles 
efetivamente são, após o que não haverá maiores dificuldades em identificar as leis que os 
regem e que seriam, por assim dizer, extraídas dos próprios fenômenos. E, se lhe 
perguntarmos como saber se o pesquisador está convenientemente preparado para captar e 
descrever os fatos sociais, o empirista responderá que isto depende da adequação do método 
que ele utilize, ou - para traduzirmos mais fielmente a concepção empirista - dirá que isto 
depende da utilização do método rigorosamente científico, que é o método indutivo, comum a 
todas as ciências e modificável apenas em pequenos aspectos, para atender à natureza do 
objeto estudado e, assim, melhor poder captá-lo, fazendo inclusive aquelas \u201cdescobertas que 
hão de surpreendê-lo e desconcertá-lo\u201d, a que se refere DURKHEIM (V. nota 2, p. 115-6). De 
qualquer forma, o conhecimento fluirá do objeto, ou seja, o vetor epistemológico irá do real 
ao racional, bem dentro dos cânones estabelecidos pelo empirismo. 
Esta aparente simplicidade se complica quando submetida à crítica dialética. 
Porque a elaboração científica não é um processo tão simples assim de extrair dos próprios 
fatos as leis que os regem.
36
 Ela é necessariamente um trabalho de construção, como temos 
insistido repetidamente, e construção de todas as etapas da pesquisa: da teoria, do problema, 
das hipóteses, do método, das técnicas de observação e experimentação e também do próprio 
objeto. É com o objeto de conhecimento, teoricamente construído ou reconstruído, e não 
diretamente com o objeto real, que trabalham todas as ciências, naturais ou sociais. A eficácia 
de qualquer proposição sociológica se mede, por conseguinte, pelas contribuições teóricas que 
ela apresenta ao conhecimento, isto é, por sua adequação ao objeto de conhecimento, 
sobretudo quando ela o reconstrói, rompendo com o sistema anterior de explicações, ou 
limitando-o. Este é o critério por excelência da validade de uma teoria científica, muito mais 
do que sua adequação ao objeto real - pois este, afinal, só é acessível dentro de determinado 
referencial teórico - e do que qualquer rigor metodológico estabelecido a priori - porque o 
método só faz sentido em função do sistema teórico em que se insere.
37
 Outra coisa não 
fizeram as geometrias não euclidianas, cujos princípios gerais há pouco sintetizamos. Elas não 
contêm somente uma explicação diferente para aspectos da mesma realidade, nem tampouco 
são baseadas nos fatos ou em qualquer tipo de evidência. Na verdade, elas constituem 
sistemas de explicação teórica inteiramente novos em relação à geometria euclidiana, com a 
qual romperam, limitando-a. E essa autêntica ruptura na Geometria implicou em toda uma 
reformulação da própria disciplina, atingindo suas proposições teóricas, seus métodos e o seu 
objeto mesmo, porque o objeto de que se ocupam as geometrias não euclidianas nada tem em 
comum com o da geometria euclidiana, concebido dentro de uma estrutura espacial que lhe é 
própria. Trata-se de um objeto completamente novo, construído em função de todo um 
redimensionamento teórico da Geometria. 
Todas estas considerações não significam que estejamos negando objetividade aos 
fenômenos sociais, e muito menos a possibilidade de eles serem passíveis de investigação 
científica. Pelo contrário: estamos precisamente afirmando essa objetividade e essa 
possibilidade, ou dizendo melhor, essa realidade científica. Mas o fazemos dentro das 
condições concretas em que se produzem os conhecimentos científicos como construções 
teóricas voltadas para a realidade, e não oriundas dela. Em outras palavras, entendemos que as 
ciências sociais constituem, como quaisquer outras, sistemas teóricos aproximados e 
retificáveis, resultantes de um processo de construção não só da teoria, mas também do 
método e do objeto. E essa construção se dá em condições localizadas, dentro do complexo 
incindível espaço-tempo-matéria,