Agostinho Ramalho Marques Neto - A Ciência do Direito - Conceito, Objeto, Método - 2º Edição - Ano 2001
160 pág.

Agostinho Ramalho Marques Neto - A Ciência do Direito - Conceito, Objeto, Método - 2º Edição - Ano 2001


DisciplinaIntrodução ao Direito I90.601 materiais612.069 seguidores
Pré-visualização50 páginas
de Francisco Hernán. Barcelona, Ariel, 1974. 
GALTUNG, Johan. Teoriay métodos de la investigación social. Trad. Buenos Aires, UBA, 1966. 
HlRANO, Sedi (org.). Pesquisa social. Projeto e planejamento. São Paulo, T. A. Queiroz, 1978. 
JAPIASSU, Hilton Ferreira. A epistemologia da interdisciplinaridade nas ciências do homem. 
Rio de Janeiro, P.U.C, 1975, mimeografado. 
KAPLAN, Abraham. Metodologia para as ciências do comportamento. Trad. São Paulo, 
Herder, Ed. da Universidade de São Paulo, 1972. 
MANN, Peter H. Métodos de investigação sociológica. Trad. de Octavio Alves Velho. Rio de 
Janeiro, Zahar, 1973. 
MENEZES, Djacir. Introdução à ciência do Direito. Rio de Janeiro, Freitas Bastos, 1964. 
 MORGENBESSER, Sidney Corg.). Filosofia da ciência. Trad. de Leonidas Hegenberg e 
Octanny Silveira da Mota. São Paulo, Cultrix. Ed. da Universidade de São Paulo, 1975. 
NOGUEIRA, Oracy. Pesquisa social. São Paulo, Nacional, 1973. 
PARSONS, Ta1cott (org.). A sociologia americana. Perspectivas, problemas, métodos, Trad. 
de Octavio Mendes Cajado. São Paulo, Cultrix, 1970. 
PIAGET, Jean at alii. Lógica y conocimiento científico. Epistemologia de las ciencias 
humanas. Trad. de Hugo Acevedo. Buenos Aires, Proteo, 1972. 
SCHRADER, Achim. Introdução à pesquisa social empírica. Trad. de Manfredo Berger. Porto 
Alegre, Globo, Ed. da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1974. 
SELLTIZ, Claire et alii. Métodos de pesquisa nas relações sociais. Trad. de Dante Moreira 
Leite. São Paulo, Herder, Ed. da Universidade de São Paulo, 1974. 
WEBER, Max. Ensayos de sociologia contemporánea. Trad. de Mirela Bofill. Barcelona, 
Martínez Roca, 1972. 
Capítulo IV 
 
A CIÊNCIA DO DIREITO 
 
\u201cO problema jurídico é o problema humano por excelência: dele 
dependem todos; sem ele, nenhum outro se resolve de modo 
duradouro e eficaz.\u201d (PONTES DE MIRANDA. Sistema de ciência 
positiva do Direito, t. 1, p. XXX.) 
 
1. Conceito: o direito como ciência social 
 
As concepções tradicionais sobre o Direito geralmente o apresentam ou como um 
conjunto de princípios intangíveis e imutáveis, preexistentes ao próprio homem, aos quais este 
só teria acesso se eles fossem objeto de uma revelação divina ou de uma captação através da 
razão, ou o confundem com o sistema de normatividade jurídica emanado do poder público. 
No primeiro caso, afirma-se a existência de um direito supra-social que corresponderia a uma 
ordem divina ou natural já dada, de que a norma jurídica seria a expressão mais ou menos 
imperfeita. No segundo, estabelece-se a equivalência entre Direito e norma, o que implica na 
suposição de que ambos constituem uma só realidade e na conseqüente negação da existência, 
no interior do espaço-tempo social, de fenômenos que possam ser investigados sob o enfoque 
jurídico, gerados por diferenciação das relações sociais. Ambos esses pontos de vista nos 
parecem inadequados a um estudo científico do Direito, o primeiro em razão de seu caráter 
essencialmente idealista e metafísico, que reduz o Direito a um capítulo da Religião, da 
Filosofia ou da Ética, somente acessível através da razão prática, para usarmos a expressão de 
KANT, e o segundo porque atribui à ciência do Direito, como exclusivo, um objeto de tal 
modo contingente e variável, que praticamente impossibilita a elaboração de teorias jurídicas 
de caráter científico, restringindo-as, no mais das vezes, a proposições de cunho hermenêutico 
sobre institutos e regras do Direito Positivo. 
No presente capítulo, tentaremos desmistificar essas duas concepções, 
submetendo-as a uma crítica com base nos princípios das epistemologias dialéticas, que 
constituem o referencial de todo este trabalho. Mencionada crítica terá como fundamento 
central a tese de que os aludidos pontos de partida que tradicionalmente têm comandado as 
tentativas de explicação do Direito são, em si mesmos, obstáculos epistemológicos a uma 
abordagem científica do fenômeno jurídico, por isso que o enfocam abstraindo as condições 
sociais, espaço-temporais localizadas, em que ele se gera e se modifica. Para procedermos a 
essa análise crítica, fixemos, desde já, os princípios que constituem a base para um estudo 
científico do Direito, dentro da concepção dialética que abraçamos: 
a) Só há direito dentro do espaço social. O Direito é um produto da convivência, 
surgindo em função da diferenciação das relações sociais, no interior das condições espaço-
temporais localizadas. Ubi societas, ibi jus. 
b) A ciência do Direito resulta, tanto quanto qualquer outra, de um trabalho de 
construção teórica. Por isso, suas proposições não podem revestir-se de caráter absoluto, mas 
aproximado e essencialmente retificável. 
c) O fenômeno jurídico existe objetivamente, dentro da tessitura social, onde se 
gera e se desenvolve por diferenciação, assumindo características específicas. Dele não pode 
prescindir a ciência do Direito, embora não trabalhe diretamente com ele, e sim com o objeto 
de conhecimento, que ela própria constrói em função de seus enfoques teóricos e 
metodológicos, bem como da natureza dos problemas que ela se propõe. 
d) O fenômeno jurídico não existe de modo algum em estado puro. Ele sofre as 
mais diversas influências das inúmeras dimensões do espaço-tempo social, onde surge e se 
modifica. Por isso, a ciência do Direito, para compreendê-lo na inteireza relacional de sua 
existência concreta, não pode prescindir de um enfoque eminentemente interdisciplinar. 
e) Não existe um método perfeitamente adequado à investigação jurídica. Sendo o 
método uma função do enfoque teórico-problemático e da natureza do objeto de conhecimento, 
sua escolha é essencialmente variável, ficando a critério do investigador decidir sobre o 
emprego do instrumental metodológico que lhe pareça mais adequado. Os resultados obtidos é 
que indicarão, retrospectivamente, a validade ou não da metodologia utilizada. 
f) A norma jurídica constitui apenas um dos aspectos da elaboração do Direito, nem 
mais nem menos importante que os demais. Ela é o momento técnico, prático, aplicado, da 
ciência do Direito. A elaboração normativa sofre fortes influências do sistema político e 
ideológico dominante em cada sociedade, às quais não está isenta, por seu turno, a própria 
elaboração teórico-científica, que não é absolutamente neutra. É preciso, todavia, que não sejam 
olvidadas, na construção das normas jurídicas, as contribuições teóricas que a ciência oferece. 
g) A eficácia da norma jurídica se mede muito mais por sua adequação às 
proposições teóricas da ciência do Direito e por sua correspondência às realidades e 
aspirações do meio social, do que por critérios puramente formais, como, por exemplo, a 
coerência lógica interna do sistema jurídico, ou a validade formal de cada norma assegurada 
por outra hierarquicamente superior, embora tais critérios não sejam desprezíveis. 
Os princípios que acabamos de formular sintetizam bem o posicionamento 
epistemológico que assumimos neste trabalho. Eles contêm, explícita ou implicitamente, os 
fundamentos das diversas epistemologias dialéticas de que tratamos no Capítulo I e que 
constituem a base para a elaboração dos Capítulos II e III, bem como do presente. Estamos 
convencidos de que a abordagem dialética é a que melhor possibilita, dentro do atual estágio 
do conhecimento humano, uma compreensão do processo de elaboração científica, no interior 
das condições concretas em que ele se realiza. No que tange ao Direito, se ele é, como diz 
PONTES DE MlRANDA, \u201co problema humano por excelência\u201d,1 mais convencido ainda 
ficamos de que a dialética, tanto em sua feição genética, como sobretudo em suas 
modalidades histórica e crítica, é a que fornece o melhor referencial teórico