Agostinho Ramalho Marques Neto - A Ciência do Direito - Conceito, Objeto, Método - 2º Edição - Ano 2001
160 pág.

Agostinho Ramalho Marques Neto - A Ciência do Direito - Conceito, Objeto, Método - 2º Edição - Ano 2001


DisciplinaIntrodução ao Direito I90.649 materiais614.248 seguidores
Pré-visualização50 páginas
DO CONHECIMENTO ............................ 12 
Capítulo II - O CONHECIMENTO CIENTÍFICO .................................................................. 38 
Capítulo III - AS CIÊNCIAS SOCIAIS ................................................................................... 66 
Capítulo IV - A CIÊNCIA DO DIREITO ................................................................................ 88 
CONCLUSÃO ........................................................................................................................ 152 
Bibliografia Consultada .......................................................................................................... 155 
Índice da Matéria .................................................................................................................... 161 
Capítulo I 
 
O PROCESSO DE ELABORAÇÃO 
DO CONHECIMENTO 
 
\u201cA consciência humana é \u201creflexo\u201d e ao mesmo tempo \u201cprojeção\u201d; 
registra e constrói, toma nota e planeja, reflete e antecipa; é ao 
mesmo tempo receptiva e ativa.\u201d (KAREL KOSIK, Dialética do 
Concreto p. 26.) 
 
No estudo de qualquer ramo das ciências, é de fundamental importância a 
compreensão do processo de formação do conhecimento. O conhecimento é indiscutivelmente 
um fato:
1
 não nos é possível duvidar de sua existência embora possamos questionar-lhe a 
validade, a objetividade ou o grau de precisão. Em qualquer sociedade humana, a presença do 
conhecimento é uma constante. Em certas sociedades, ele assume formas ainda rudimentares 
\u2013 empiria imediata, conhecimento mítico, mágico \u2013; em outras, atinge graus mais elevados de 
elaboração \u2013 conhecimento artístico, religioso, ético, filosófico, científico. Sociedades há em 
que não se registram determinadas formas de conhecimento, sobretudo o científico e o 
filosófico. Em outras, as diversas formas de conhecimento coexistem, com eventual 
predominância de uma ou de várias no decorrer de seu processo histórico. 
A história do homem pode resumir-se, em grande parte, na luta por aprimorar seus 
conhecimentos sobre a natureza, sobre a sociedade em que vive e sobre si próprio, bem como 
por aplicar praticamente tais conhecimentos para aperfeiçoar suas condições de vida. A 
história do conhecimento é, portanto, um permanente processo de retificação e superação de 
conceitos, explicações, teorias, técnicas e modos de pensar, agir e fazer. 
Essas ponderações preliminares deixam patente a necessidade que temos de 
iniciar este trabalho com uma reflexão sobre o conhecimento. Afinal, nosso tema específico \u2013 
a ciência do Direito \u2013 constitui uma das muitas formas de conhecer, e, para compreendê-lo 
com certo grau de profundidade, precisamos mergulhar na própria gênese do processo de 
conhecimento de um modo geral e do conhecimento científico em particular. Este último será 
o objeto do Capítulo II. 
Não é fácil a tarefa a que ora nos entregamos. As características do conhecimento, 
suas raízes e seu processo de elaboração e aprimoramento são estudados sob perspectivas bem 
diferentes - e às vezes até mesmo opostas - pelos diversos pensadores que se têm ocupado 
deste assunto. O ponto central da discussão reside no binômio sujeito-objeto: suas relações, o 
papel que cada um desempenha na elaboração do conhecimento e a própria conceituação 
desses elementos. Diante da multiplicidade de pontos de vista sob os quais a Teoria do 
Conhecimento aborda o problema da relação entre sujeito e objeto, que é o ponto de partida 
para qualquer compreensão do conhecimento,
2
 tentaremos assumir uma postura 
essencialmente crítica. Para tanto, precisaremos descer até à gênese do ato de conhecer,
3 
questionando os princípios fundamentais das duas grandes correntes que tradicionalmente têm 
debatido o problema \u2013 o empirismo e o racionalismo \u2013 e focalizando a posição da moderna 
dialética, que supera tal problema e constitui o ponto de referência de todo este trabalho. 
 
1. Empirismo 
 
A principal característica do empirismo, desde a forma mais radical representada 
pelo positivismo de AUGUSTE COMTE (1798-1857) e seus seguidores
4
 até a forma mais 
moderada do empirismo lógico do Circulo de Viena,
5
 consiste na suposição de que o 
conhecimento nasce do objeto.
6
 Ao sujeito caberia desempenhar o papel de uma câmara 
fotográfica: registrar e descrever o objeto tal como ele é. O vetor epistemológico, para o 
empirismo, vai do real (objeto) para o racional (sujeito). O objeto é transparente: apresenta-se 
ao sujeito como é na realidade. A este último basta estar convenientemente preparado para 
captar o objeto em sua essência; basta-lhe, em outras palavras, saber ver. O momento do 
conhecimento é, pois, o da constatação, do contato do sujeito com o objeto. 
 A posição inicial do positivismo sustenta que toda proposição não verificável 
empiricamente é metafísica ou seja, não tem sentido. Tal suposição foi posteriormente 
retificada em parte por correntes neopositivistas, sobretudo o positivismo lógico, que 
considera a verificabilidade empírica em princípio, isto é, qualquer proposição que aspire a 
ser verdadeira não pode afastar, de princípio, a possibilidade de sua comprovação empírica. 
Ambas essas posições, em essência, sustentam a mesma concepção: o vetor epistemológico 
continua partindo do real. Este é que, por assim dizer, dará a última palavra,
7
 quer como fonte 
imediata de todo conhecimento, quer como fator de comprovação na validade do ato de 
conhecer. Em síntese, a idéia de confirmação pela realidade, nessas duas correntes, tanto pode 
traduzir uma \u201cconfirmação efetiva ou em ato\u201d, como uma simples \u201cconfirmação de princípio 
ou potencial\u201d.8 Mas o real o dado, o empírico, é que constitui a base da comprovação de todo 
conhecimento. A preocupação fundamental do empirismo, em qualquer de suas correntes, 
consiste pois \u201cem reduzir todo o conteúdo do conhecimento a determinações observáveis\u201d.9 
HILTON JAPIASSU aponta quatro princípios básicos do empirismo,
10
 que a 
seguir sintetizaremos: 
a) Não podemos dispor de uma experiência inteiramente independente da 
experiência sensível,
11
 ou seja, não é possível existir uma intuição intelectual pura.
12
 Este 
princípio não nega a possibilidade de haver experiências não vinculadas à percepção, mas 
recusa a tais experiências a possibilidade de traduzirem um conhecimento correspondente às 
normas científicas clássicas. 
b) Através da experiência, só podemos atingir o singular, as constatações 
sensíveis. Mas, graças a operações intelectuais descritas pela lógica e expressas pela 
linguagem, podemos evidenciar, na massa do que é constatável, certas regularidades, isto é, 
podemos estabelecer ligações sistemáticas que nos permitam constituir, progressivamente, um 
saber de tipo universal. O papel da lógica seria assim apenas operacional, pois o conteúdo real 
do conhecimento permaneceria na experiência sensível. 
c) O dado perceptivo já engloba um conteúdo de significação, que é captado na 
própria apreensão do sensível. Isto significa que podemos apreender, através dos conteúdos 
sensíveis, as formas inteligíveis por meio das quais eles se tornam acessíveis ao conhecimento 
e significantes para nós. Essas formas inteligíveis implicam numa atividade conceitualizada 
do pensamento. E através do conceito que o pensamento encontra aquilo que, na experiência 
sensível, pode dar-se a conhecer. 
d) Se o pensamento conceitual nos dá acesso ao inteligível, não é como idéia pura, 
pois o conceito comporta uma referência à realidade empírica: através do inteligível, ele visa 
o sensível. Assim, o pensamento conceitual só tem validade enquanto possa ser restituído à 
coisa mesma que ele tem por função esclarecer. Em outras palavras, deve-se comprovar