Agostinho Ramalho Marques Neto - A Ciência do Direito - Conceito, Objeto, Método - 2º Edição - Ano 2001
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Agostinho Ramalho Marques Neto - A Ciência do Direito - Conceito, Objeto, Método - 2º Edição - Ano 2001


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o 
juízo pela experiência, pois em si mesmo ele não comporta qualquer garantia de veracidade. 
 Esses quatro princípios patenteiam inequivocamente o postulado básico do 
empirismo: conhecimento flui do objeto, refere-se especificamente a ele e só tem validade 
quando comprovável empiricamente. O conhecimento é, por conseguinte, para o empirismo, 
uma descrição do objeto, tanto mais exata quanto melhor apontar as características reais deste. 
 
2. Racionalismo 
 
Ao contrário do empirismo, O racionalismo coloca o fundamento do ato de 
conhecer no sujeito. O objeto real constitui mero ponto de referência, quando não é 
praticamente ignorado, como geralmente ocorre na forma extrema do racionalismo, que é o 
idealismo. O pensamento opera com idéias, e não com coisas concretas. O objeto do 
conhecimento é uma idéia construída pela razão. Isto não significa que o racionalismo, de um 
modo geral, ignore o objeto real, mas sim que parte do princípio de que \u201cos fatos não são 
fontes de todos os conhecimentos e que, por si sós não nos oferece condições de \u201ccerteza\u201d.13 
LEIBNIZ (1646-1716), por exemplo, em sua obra Novos ensaios sobre o 
entendimento humano, criticando o empirismo de LOCKE (1632-1704) sem assumir contudo 
um racionalismo extremado, distingue as verdades de fato das verdades de razão, que não se 
originam do fato, mas constituem condições de pensamento, necessárias até mesmo para 
conhecer o que está nos fatos: \u201cSe a inteligência tem função ordenadora do material que os 
sentidos apreendem, é claro que a inteligência, por sua vez, não pode ser o resultado das 
sensações, não podendo ser concebida como uma \u201ctabula rasa\u201d, onde os sentidos vão 
registrando as impressões recebidas. A inteligência tem função e valor próprios, dotada de 
verdades que os fatos não explicam, porque antes condicionam o conhecimento empírico, o 
qual carece de \u201cnecessidade\u201d e de \u201cuniversalidade\u201d: - \u201cNihil est in intellectu quod prius non 
fuerit in sensu; nisi intellectus ipse.\u201d14 O ponto de vista de LEIBNIZ se vincula em grande 
parte ao pensamento de DESCARTES (1596-1650), considerado o fundador do racionalismo 
moderno, sobretudo no que se refere às idéias inatas a que alude este último, e que constituem 
a atribuição ao espírito de autonomia na elaboração das idéias.
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Uma forma moderada de racionalismo é constituída pelo chamado 
intelectualismo, que atribui à razão o papel de conferir validade lógico-universal ao 
conhecimento, embora sustente que este não pode ser concebido sem a experiência. Esta 
corrente tem pontos em comum com o positivismo lógico, embora com ele não se confunda. 
Com efeito, enquanto o positivismo lógico põe no real a fonte, ainda que a posteriori, da 
validade de todo conhecimento, mantendo-se portanto fiel às linhas gerais do empirismo, o 
intelectualismo confere à razão um papel mais alto: é dos dados sensoriais que ela extrai os 
conceitos, mas eleva-os, por um processo de generalização e abstração peculiar ao próprio 
intelecto, ao nível de uma pura validade racional, tão afastada do objeto que com ele não pode 
confundir-se. O intelectualismo caracteriza-se, pois, por racionalizar a realidade, 
concebendo-a como se contivesse, em si mesma, as verdades universais que a razão capta e 
decifra.
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O idealismo constitui o ponto extremo do racionalismo. Para o idealista,
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 o 
conhecimento nasce e se esgota no sujeito, como idéia pura. O objeto real ou é posto em 
posição completamente secundária, ou lhe é simplesmente negada qualquer importância, 
como se ele não existisse ou constituísse mera ilusão do espírito. Criticando o radicalismo das 
posições idealistas, LEFEBVRE observa que \u201cmuitos metafísicos raciocinam do seguinte 
modo: \u201cO sujeito do conhecimento, o ser humano, é um indivíduo consciente, um eu; que é 
um eu? É um ser consciente de si e, portanto, fechado em si mesmo. Nele, não pode haver 
senão estados subjetivos, estados de consciência. Como poderia sair de si mesmo, transportar-
se para fora de si a fim de conhecer uma coisa diversa de si? O objeto, caso exista, está fora 
do seu alcance. O pretenso conhecimento dos objetos, a própria existência destes, não são 
mais que uma ilusão (...).\u201d18 A tese fundamental do idealismo é a de que \u201cnão conhecemos 
coisas, mas sim representações de coisas ou as coisas enquanto representadas.\u201d19 Isto não 
implica necessariamente numa negação do real, mas na concepção de que nos é impossível 
conhecer as coisas tal como elas são em si mesmas. Esta é a posição moderna do idealismo, a 
partir de DESCARTES e sobretudo das novas concepções que o criticismo kantiano \u2013 que 
adiante sintetizaremos \u2013 lhe introduziu. Esta posição é inovadora em relação ao idealismo 
antigo, representado principalmente por PLATÃO (427-347 a.C.), pois este não coloca as 
idéias como momento do processo cognitivo, mas considera-as como essências existentes, 
isto é, como a própria realidade verdadeira, \u201cda qual seriam meras cópias imperfeitas as 
realidades sensíveis, válidas não em si mesmas, mas enquanto participam do ser essencial\u201d. 20 
O idealismo moderno apresenta uma vertente lógica (idealismo objetivo), segundo 
a qual tudo se reduz a um complexo de juízos, afirmações ou negações, de tal maneira que ser 
não é senão idéia (ser é ser pensado); e uma vertente psicológica (idealismo subjetivo), 
segundo a qual toda a realidade está contida na consciência do sujeito de tal sorte que ser é ser 
percebido (esse est percipi), no dizer de BERKELEY (1685-1753), o que Implica na 
afirmação de que as coisas não têm existência independente de nosso pensamento.
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Não podemos deixar de tecer aqui breves considerações sobre e criticismo de 
KANT (1724-1804). O criticismo, partindo da correlação sujeito-objeto no ato de conhecer, 
tenta superar e sintetizar os pontos de vista contraditórios do empirismo e do idealismo. São 
aceitos e refutados princípios de ambas essas correntes, mediante uma análise dos 
pressupostos do conhecimento. Determinando os a priori das condições lógicas do 
conhecimento, KANT \u201cdeclara, em primeiro lugar, que o conhecimento não pode prescindir 
da experiência, a qual fornece o material cognoscível, e nesse ponto coincide com o 
empirismo (não há conhecimento sem intuição sensível); por outro lado, sustenta que o 
conhecimento de base empírica não pode prescindir de elementos racionais, tanto assim que 
só adquire validade universal quando os dados sensoriais são ordenados pela razão: - \u201cos 
conceitos, diz KANT, sem as intuições (sensíveis), são vazios; as intuições sem os conceitos 
são cegas\u201d.22 Note-se que esta posição não é meramente conciliatória. De fato, foi KANT 
quem primeiro situou o problema da não-separação entre o sujeito e o objeto no processo do 
conhecimento, ressaltando a importância não de cada um desses elementos tomados 
isoladamente como fazem o empirismo e o idealismo tradicionais, mas da relação que entre 
eles se processa no ato de conhecer. Não obstante, não podemos deixar de considerar KANT 
um racionalista, pois não só, para ele, o vetor epistemológico vai do racional para o real (a 
razão é que toma a iniciativa), como sobretudo porque, em sua filosofia, a razão, ordenadora 
da experiência, sempre antecede, lógica mas não cronologicamente, a experiência sensível. 
Em outras palavras, embora a origem do conhecimento resida sempre na experiência, 
teríamos que admitir a anterioridade lógica da razão, sem o que não seria possível o próprio 
contato entre o sujeito e o objeto. A razão desempenha, portanto, na filosofia kantiana, a 
função de um a priori do conhecimento, função aliás idêntica à que KANT atribui ao espaço e 
ao tempo, como veremos no item 2.1 do Capítulo III. 
A transcendentalidade de que tanto se