Agostinho Ramalho Marques Neto - A Ciência do Direito - Conceito, Objeto, Método - 2º Edição - Ano 2001
160 pág.

Agostinho Ramalho Marques Neto - A Ciência do Direito - Conceito, Objeto, Método - 2º Edição - Ano 2001


DisciplinaIntrodução ao Direito I90.649 materiais614.248 seguidores
Pré-visualização50 páginas
Como toda 
ideologia, aliás, não é questão de má-fé, uma vez que produz a cegueira mental e tem como 
resultado um delírio declamatório. (...) Não admira, portanto, que, num dicionário marxista, o 
dogmatismo seja definido nestas frases cortantes: \u201cum dogmatismo é uma tese aceita às cegas, 
por simples crença, sem crítica, sem levar em conta as condições de sua aplicação. O 
dogmatismo é característico de todos os sistemas que defendem o caduco, o velho, o 
reacionário e combatem o novo, o progressista\u201d.82 É dentro deste conceito de dogma que 
englobamos as diversas abordagens empiristas e idealistas que têm sido propostas no estudo 
do Direito. Para umas, o dogma é a crença em valores transcendentais, estabelecidos a priori; 
para outras, a crença nos fatos, onde estariam todas as verdades; para umas terceiras, a crença 
na norma, isto é, nos \u201cpadrões impostos pelas classes sociais que tomem as decisões 
cogentes\u201d;83 para todas, a absorção acrítica de verdades inquestionáveis. Todas essas correntes 
têm no dogmatismo a fonte comum; se os diversos sistemas partem de princípios diferentes, 
encontram-se, ao fim de contas, na mesma confluência dogmática. Para darmos um exemplo 
só, tomemos um trecho do idealista RADBRUCH que o positivista KELSEN assinaria com 
convicção: \u201cPreceitos normativos (...) só podem fundamentar-se e demonstrar-se por meio de 
outros preceitos normativos. Mas justamente por isso é que os preceitos normativos últimos, 
aqueles de que todos os outros dependem, são indemonstráveis, axiomáticos, não suscetíveis 
de serem objeto de conhecimento teorético, mas apenas de adesão espontânea\u201d.84 Só que, ao 
contrário do que supõe RADBRUCH, essa adesão nem sempre é tão espontânea assim... Pode 
causar espécie que tais palavras tenham saído da pena de RADBRUCH, um jurisfilósofo 
idealista, e pode-se julgar que estamos usando do artifício de citar pequenos trechos da obra 
de um autor, os quais, isolados do conjunto, assumem sentido diverso daquele que 
efetivamente têm no contexto da obra. Tal não é o fato, todavia. Há pouco afirmamos que os 
dogmatismos jurídicos partem de princípios diferentes, e até aparentemente opostos, mas têm 
a mesma confluência dogmática. Pois bem: em última instância, essa confluência se traduz na 
norma. O normativista a considera, desde já, como o ponto de partida e de chegada. O 
idealista, que vê no Direito a cristalização de valores absolutos, acaba desembocando na 
norma, pois, afinal, esta consagra tais valores intocáveis. O positivista, que só vê realidade 
jurídica nos fatos, supõe que estes possam ser descritos tais como são pela ciência, e, como o 
Direito se aplica normativamente, a norma deve refletir as proposições científicas, que são 
necessariamente válidas, e, por via de conseqüência, passa também a ser afirmada 
dogmaticamente. Portanto, a contradição do texto de RADBRUCH é só aparente. Dentro de 
seu sistema de pensamento, o texto é dotado de perfeita coerência. 
Após esta breve digressão - necessária porque a crítica ao empirismo e ao 
idealismo jurídicos não pode deixar de atacar o dogmatismo que lhes é comum -, 
consideremos a tão apregoada classificação do Direito como ciência normativa.
85
 Tal 
classificação encontra acolhida em praticamente todas as correntes de pensamento jurídico, à 
exceção das correntes sociológicas e algumas jusnaturalistas. Encontramo-la em KANT, 
HEGEL, STAMMLER, RADBRUCH, RECASÉNS SICHES, DEL VECCHIO, na Escola da 
Exegese, na Escola Histórica, em KELSEN, em COSSIO, em REALE e em tantos outros. 
Mas será que a ciência jurídica é efetivamente normativa? Será mesmo possível a existência 
de tal tipo de ciência? À luz de uma epistemologia dialética, podemos responder, com 
segurança, que não. 
Desde o início deste trabalho, temos assumido a posição dialética segundo a qual 
todo o trabalho científico é um processo de construção: da teoria, do problema, do método, do 
objeto, da técnica etc. Para admitirmos o Direito como ciência normativa, teríamos de supor 
não só que o seu objeto é a norma, como sobretudo que todo o trabalho teórico de elaboração 
jurídica a ela se dirige, ou seja, teríamos que assumir o normativismo dogmático que 
acabamos de criticar. Mas há uma consideração ainda mais importante: como temos insistido 
reiteradamente, o objeto, só por si, não nos oferece critério seguro para uma classificação das 
ciências; estas se classificam consoante seus enfoques teóricos e problemas específicos. 
Suponhamos, só para argumentar, que o objeto único, exclusivo, da ciência do Direito seja a 
regra jurídica. Ora, ainda que assim fosse, nada nos autorizaria a definir a ciência jurídica 
como normativa, pois estaríamos considerando apenas o seu objeto, e empregando, portanto, 
um critério extremamente inadequado para estabelecer qualquer classificação científica. Só 
poderíamos validamente atribuir caráter normativo à ciência do Direito, se seu enfoque 
teórico, seus problemas, seus métodos etc. fossem também normativos, ou seja, se já 
contivessem, implícita ou explicitamente, alguma norma. E seria o cúmulo do absurdo supor 
uma teoria científica que, ao invés de explicar seu objeto, lhe ditasse normas... Referindo-se à 
impossibilidade epistemológica da existência de ciências normativas, assim se manifesta 
MARTINS: \u201cFora de qualquer dúvida, tem sido a preocupação normativa da maioria dos 
juristas, que teimam e reteimam na possibilidade de ciências que ditem normas, o maior 
escolho ao estudo positivo do Direito\u201d.86 
Ciência é discurso, teoria, que se constrói em função de um objeto de 
conhecimento e de um método, por sua vez também construídos. E a função precípua de toda 
teoria científica é a de explicar, e não ditar normas e, muito menos, dogmatizar. Mas essa 
teoria visa a uma aplicação. E a forma específica de aplicar as teorias da ciência do Direito é 
precisamente a norma, que constitui a parte técnica, prática, aplicada da ciência do Direito, c 
não o seu conteúdo, pois o conteúdo de toda ciência é a teoria. O Direito é, portanto, uma 
ciência social como qualquer outra, com a singularidade de aplicar-se normativamente, mas 
não de já conter normas em suas formulações teóricas. 
A dialética vê na ciência do Direito, não uma simples cópia de qualquer realidade, 
mas um sistema construído de proposições teóricas, que, voltado para o real, o jaz seu, 
assimilando-o e tranformando-o, e, por isso mesmo, construindo-o e retificando-o. Esse sistema 
teórico se caracteriza como jurídico, não em decorrência do objeto tomado isoladamente, mas 
dos problemas específicos que a ciência do Direito se propõe, com vista a uma subseqüente 
aplicação normativa. É só em função da teoria, que comanda todo o processo de elaboração 
científica, que o objeto de conhecimento da ciência jurídica, assim como as normas que 
constituem sua parte técnica, podem fazer algum sentido. E as teorias da ciência do Direito, 
como quaisquer teorias científicas, são essencialmente refutáveis e, por isso, carecem, não de 
ser afirmadas dogmaticamente, como o faz a maioria dos juristas, mas de ser questionadas, 
postas em xeque, como recomenda BACHELARD. É nesse sentido que o pensamento crítico se 
torna \u201ca lógica de uma teoria científica\u201d.87 A aplicação dos princípios dialéticos aos diversos 
estágios de elaboração do conhecimento jurídico será abordada nos itens seguintes. 
 
2. Objeto 
 
O objeto principal da ciência do Direito, isto é, o objeto real para cujo estudo ela 
se volta prioritariamente, é o fenômeno jurídico, que se gera e se transforma no interior do 
espaço-tempo social por diferenciação das relações humanas, tal qual acontece com os demais 
fenômenos sociais específicos: políticos, econômicos, morais, artísticos, religiosos etc. O