Agostinho Ramalho Marques Neto - A Ciência do Direito - Conceito, Objeto, Método - 2º Edição - Ano 2001
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Agostinho Ramalho Marques Neto - A Ciência do Direito - Conceito, Objeto, Método - 2º Edição - Ano 2001


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que ainda persiste em larga escala é a 
de que o ensino é um simples processo de transmissão de conhecimentos, em que ao professor 
cabe apenas ensinar e ao aluno, apenas aprender. Com isso, reduz-se o papel do aluno ao de 
um mero espectador passivo, e conseqüentemente desinteressado, dos ensinamentos que lhe 
vão sendo gradativamente ministrados. Tal entendimento acerca da atividade de ensino, 
infelizmente ainda muito generalizado, traduz claramente toda uma concepção autoritária do 
processo educacional, cuja prática tem consistido sobretudo na imposição ao aluno de 
determinados conhecimentos que ele deve docilmente aceitar e assimilar, sem maiores 
participações no processo mesmo de elaboração desses conhecimentos e principalmente sem 
um questionamento mais profundo que ponha em xeque a validade dos ensinamentos que lhe 
são ministrados, o fundo ideológico subjacente a esses ensinamentos e o porquê de serem 
esses e não outros os conhecimentos transmitidos.
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 Ora, tal atitude perante o processo de 
ensino faz com que este falhe redondamente diante de sua meta primordial, que é o 
desenvolvimento do senso crítico, do pensar autônomo, que só pode consolidar-se através da 
livre tomada de consciência dos problemas do homem e do mundo, e do engajamento 
profundo na tarefa de resolver esses problemas. 
O ensino jurídico não só reproduz essas deficiências generalizadas no processo 
educacional, como ainda as agrava, visto que não só a metodologia didática usualmente 
empregada como também o conteúdo mesmo do conhecimento são apresentados dentro de 
uma perspectiva essencialmente dogmática, como se constituíssem autênticas verdades 
reveladas, diante das quais ao aluno não restaria outra opção senão a de aceitá-las do modo 
mais acrítico possível. Dessa maneira, o aluno encontra imensas dificuldades para uma 
participação ativa no seu próprio processo de formação, conformando-se, o mais das vezes, 
com assimilar conhecimentos freqüentemente divorciados da realidade social, sem sobre eles 
formular quaisquer indagações críticas, o que o leva, na vida profissional, a assumir uma 
postura dogmática, ajudando, consciente ou inconscientemente, a manter o status quo 
implantado pelas classes socialmente dominantes. Os aspectos propriamente científicos e 
filosóficos do Direito, quando não são simplesmente negligenciados, são apresentados ao 
aluno, via de regra, dentro de um dogmatismo normativista que o induz à crença de que o 
Direito se reduz às leis e que estas devem ser consideradas como algo dado, a ser 
simplesmente interpretado e aplicado. Ignora-se, dessa maneira, o mais importante: que a 
elaboração teórica do Direito, como de qualquer outra ciência, resulta de um processo de 
construção e retificação de conceitos; que as normas jurídicas, também construídas, decorrem 
da opção por uma entre várias alternativas permitidas pela formulação teórica; que, tanto na 
elaboração das teorias como na construção das normas e na aplicação destas à realidade 
social, há todo um direcionamento ideológico que deve ser permanentemente submetido a 
crítica; que as leis foram feitas para a sociedade, e não a sociedade para as leis, de modo que a 
eficácia destas só pode ser medida, em última instância, por sua adequação à realidade social; 
que, por isso mesmo, as leis, embora devam ser cumpridas durante sua vigência, não podem 
prescindir de ser submetidas constantemente a questionamentos críticos que as renovem e lhes 
dêem vida.
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O preconceito tanto positivista quanto idealista segundo o qual a atividade 
científica nada mais é que uma apreensão de determinadas verdades, já existentes nos fatos, 
ou na natureza das coisas, ou no interior da consciência, é o principal responsável pelos três 
tipos básicos de dogmatismo jurídico já criticados nas p. 179-83: o da norma, o do fato e o 
dos princípios ideais. Qualquer desses posicionamentos epistemológicos aplicado ao ensino 
jurídico resulta numa visão estrábica do Direito, pois nenhum deles enfoca o problema 
jurídico dentro da estrutura relacional concreta em que ele se gera e se desenvolve no espaço-
tempo social. O dogma da norma, que é dominante, apresenta a legislação como objeto único 
do Direito; o do fato supõe que a construção científica nada mais é do que uma captação 
passiva das realidades; e o dos princípios ideais desvincula o Direito da ambiência social 
concreta em que ele se produz, para determiná-lo a partir de valores intangíveis. Todos eles 
servem esplendidamente para consagrar a ideologia imposta à sociedade pelas classes 
dominantes, pois consideram o objeto do conhecimento jurídico, seja ele a norma, o fato ou o 
valor, como algo dado e, por isso mesmo, não passível de ser questionado. Todas as 
concepções epistemológicas que ignoram o processo essencialmente construtivo das ciências 
e de suas aplicações práticas, vendo no objeto de conhecimento um simples dado, transferem 
tal concepção para o ensino, o qual passa também a ser dado, imposto a uma pura aceitação, 
como se os seus pressupostos e o conteúdo transmitido através dele constituíssem verdades 
intocáveis e absolutas, acima de qualquer crítica. É assim que o dogmatismo dominante na 
ciência e na Filosofia do Direito vai servir de base ao dogmatismo do ensino jurídico, o qual, 
por seu turno, retroalimenta e conserva o primeiro, num autêntico círculo vicioso, dentro de 
um sistema de pensamento extraordinariamente fechado. A maioria dos manuais de 
Introdução à ciência do Direito, por exemplo, ou simplesmente ignora qualquer abordagem 
científica sobre o fenômeno jurídico - alguns ignoram a própria existência de tal fenômeno -, 
consistindo em verdadeiras teorias gerais do Direito Positivo; ou formula nos primeiros 
capítulos uma teoria geral da ciência, de índole positivista ou idealista, mas raramente 
dialética, e apresenta depois uma ciência do Direito que pouco ou nada tem a ver com os 
princípios daquela teoria geral da ciência, a partir da própria definição da ciência jurídica 
como uma pretensa ciência normativa dogmática, como se fosse possível tal modalidade 
absurda de conhecimento científico. Depois, mesmo os que reconhecem a existência de outras 
realidades jurídicas que não apenas a lei, transferem o estudo de tais realidades para 
disciplinas como a sociologia e a deontologia jurídicas, e atribuem à ciência do Direito, stricto 
sensu, apenas o estudo da norma, aceita acriticamente como um dado oriundo do poder estatal 
e, nessa condição, passível de interpretação e aplicação, mas não de crítica. Dentro dessa 
visão estreita, que ainda domina o ensino jurídico no Brasil e no mundo, o Direito constituiria 
uma ciência singularíssima, cuja elaboração teórica se faria com base na parte técnica, isto é, 
na norma, ao invés de, como ocorre nas demais ciências, a técnica se fazer a partir da teoria, 
como aplicação desta. 
Dentro desse quadro geral do ensino jurídico, que felizmente vem sendo 
questionado há certo tempo por pensadores de uma linha mais crítica, a formação 
predominante do bacharel em Direito tem sido tradicionalmente marcada, de um lado, por 
uma improfícua erudição livresca - que ultimamente tem declinado bastante em virtude de 
modificações no sistema educacional - e, do outro, por um conservadorismo que faz do jurista 
um indivíduo muito mais preocupado com a exegese de textos legais, cujos fundamentos 
geralmente nem sequer indaga, do que com a possibilidade de transformar o Direito num 
propulsor de um desenvolvimento social integral, mediante o engajamento efetivo na 
superação de muitos angustiantes problemas que a vida social apresenta. Assim, \u201cdentro desta 
lógica, baseada num pressuposto arbitrário de que o Direito é só isto, não espanta ver que um